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ESG

A carne cultivada em laboratório pode realmente ser halal ou kosher?

PUBLICADO EM: 10.1.22 | 16H01
ATUALIZAÇÃO: 10.1.22 | 17H51
Para o empresário Josh Tetrick, o sucesso depende não apenas de cientistas familiarizados com os últimos avanços no setor mas também dos dedicados aos detalhes das leis dietéticas religiosas
carne de planta

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Por Bruce Einhorn, Harry Suhartono e Faseeh Mangi, da Bloomberg

Após milhares de anos que o ser humano vem criando animais para a própria alimentação, a perspectiva de construir um negócio em torno da carne criada em um laboratório em vez de fazendas ou confinamento parece ser um grande desafio técnico. Mesmo assim, para o empresário de tecnologia de alimentos, Josh Tetrick, o sucesso depende não apenas de cientistas familiarizados com os últimos avanços em bioengenharia mas também de dedicados conhecedores dos detalhes das leis dietéticas religiosas.

Tetrick é o CEO da Eat Just, uma startup de São Francisco apoiada pelos bilionários Marc Benioff  Peter Thiel e o cofundador do Facebook, Eduardo Saverin, que desenvolve carne  cultivada em biorreatores em vez de fazendas. Ao contrário dos produtos à base de plantas da Beyond Meat e da Impossible Foods, a carne cultivada é produzida de células animais e é estruturalmente idêntica à carne. “Do ponto de vista do perfil genético e do perfil nutricional, é carne”, diz Tetrick. “Simplesmente não existe o componente de abate como uma etapa de todo o processo.”

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Mas essa falta de derramamento de sangue cria todos os tipos de pergunta para religiosos muçulmanos e judeus que só comem carnes como boi, frango ou cordeiro de animais abatidos de acordo com regras estabelecidas há muito tempo. Por exemplo, a carne pode ser halal ou kosher se for cultivada em um laboratório e não vier de um animal morto? É mesmo carne? Essas não são perguntas insignificantes, visto que bilhões de pessoas em todo o mundo seguem crenças e tradições com rígidas diretrizes sobre o preparo de carnes.

A Tetrick está apostando que a tecnologia atual possa desfrutar da aprovação das tradições antigas, inaugurando uma nova maneira de satisfazer o voraz apetite do mundo por proteínas. Em 2020, a Eat Just começou a vender nuggets de frango cultivados em laboratório em Singapura e, em dezembro, recebeu permissão para lá introduzir peito de frango cultivado. A empresa, que arrecadou US$ 267 milhões em 2021, agora tem como alvo os consumidores muçulmanos — em agosto, anunciou planos para construir uma instalação no Catar. Embora o Eat Just tenha consultado especialistas religiosos, ainda não obteve o selo de aprovação para seu novo tipo de carne. “É uma questão muito importante, talvez ainda mais importante por causa do que faremos no Catar”, diz Tetrick. “Mas ainda não obtivemos o selo.”

Os gigantes do agronegócio não esperam que essas questões sejam resolvidas antes de entrar no setor, que ainda está em fase de desenvolvimento e pode movimentar US$ 25 bilhões até 2030, segundo a McKinsey. A JBS do Brasil, maior fornecedora mundial de proteína animal por meio de marcas como Swift e Primo, concordou em 18 de novembro em adquirir a empresa espanhola de carnes de cultura, a  BioTech Foods, por US$ 100 milhões. O braço de investimentos da Archer-Daniels-Midland, a ADM Ventures, coliderou um investimento de US$ 347 milhões na startup israelense Future Meat Technologies, as empresas anunciaram em 20 de dezembro. A Cargill e a  Tyson Foods, junto com Bill Gates e Richard Branson, são investidores da Upside Foods, desenvolvedora de carnes cultivadas em laboratório, com sede na Califórnia.

A carne cultivada estará fora dos limites para os seguidores praticantes do Islã — a segunda maior religião do mundo, com cerca de 2 bilhões de adeptos — se as autoridades islâmicas decidirem que o produto não é halal. A maior organização muçulmana da Indonésia, Nahdlatul Ulama, fez exatamente isso em setembro, dizendo em um comunicado que as células retiradas de animais vivos e depois cultivadas em biorreatores se enquadram "na categoria de carcaça que é legalmente suja e proibida de ser consumida".

A fátua da Indonésia, a nação muçulmana mais populosa do mundo, pode encorajar as autoridades de outros países a tomar decisões semelhantes. No Paquistão, o segundo maior país muçulmano, acadêmicos liderados pelo especialista em lei islâmica, Muhammad Taqi Usmani, no ano passado determinaram que a carne cultivada era permitida apenas se as células originais viessem de animais abatidos de acordo com o processo de conformidade com a Sharia. No entanto, muitas startups dependem de linhas celulares que se originaram em animais vivos.

A indústria também enfrenta um desafio com relação aos judeus praticantes, uma vez que os rabinos ainda não chegaram a um acordo sobre se a carne pode ser kosher se não for de um animal morto abatido por açougueiro ritualístico. Autoridades judaicas também se preocupam com o uso de soro fetal bovino (SFB), retirado do sangue de fetos mortos durante o abate de vacas gestantes, para alimentar as células animais nos biorreatores. O SFB poderia tornar a carne não kosher por causa da proibição de consumir sangue, diz Joel Kenigsberg, rabino da Sinagoga Unida de Londres, que estudou direito e ciência judaica na Universidade Bar-Ilan de Israel e está aconselhando empresas sobre questões da dieta cashrut. “Essa tecnologia é tão inovadora, tão nova, que tentar encontrar precedentes é o maior desafio”, diz ele.

Não há nem mesmo acordo sobre se os judeus deveriam considerar os produtos cultivados em laboratório como carne, que não pode ser consumida com laticínios, ou pareve, uma categoria neutra que não é carne nem leite. “Não importa como as empresas chamam isso”, diz Avrom Pollak, presidente da Star-K Kosher Certification, organização com sede em Baltimore que trabalha com clientes como Nestlé e Walmart, “haverá alguns que dirão que realmente não é carne.”

Muitas empresas estão tentando deixar de usar o SFB. A Aleph Farms  de Israel, que cultiva carne bovina sem abate, anunciou em 8 de dezembro uma parceria com a Wacker Biosolutions, sediada em Munique, com foco em alternativas não animais para alimentar as células em biorreatores.

Para lidar com as preocupações sobre a carne livre de abate, a Future Meat Technologies usa linhas de células que se originaram com gado, galinhas e cordeiros mortos ritualmente, de acordo com Yaakov Nahmias, seu presidente. A Future Meat, que está buscando a aprovação regulamentar da Food and Drug Administration dos EUA, pretende ter seu frango em restaurantes no início de 2023 e espera ter suas questões religiosas resolvidas até então. “Já recebemos a visita de vários grupos de rabinos. Estamos no caminho certo”, diz Nahmias, acrescentando que ganhar a certificação islâmica não será difícil. “Vai ser tanto kosher como halal”, diz ele.

Em Singapura, cujo governo tem sido o mais rápido do mundo em aprovar a comercialização de carne cultivada, especialistas muçulmanos estão agindo com prudência. “Alimentos novos como esses representam novas áreas na jurisprudência islâmica e requerem pesquisa, análise e interpretações religiosas apropriadas”, disse o Conselho Religioso Islâmico de Singapura (IRCS) em um comunicado por e-mail. “É um novo desenvolvimento que o IRCS está estudando detalhadamente”. (Com Áine Quinn)

*Tradução de Anna Maria Dalle Luche.

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