ESG

Brasil pode liderar emissões verdes, mas falta estrutura, diz especialista

PUBLICADO EM: 6.6.21 | 8H00
ATUALIZAÇÃO: 4.6.21 | 18H35
Em entrevista à EXAME, Laura Albuquerque, líder em finanças sustentáveis da consultoria WayCarbon, fala do cenário positivo para o mercado de títulos verdes no Brasil e avalia maturidade do país frente aos líderes globais
Laura Albuquerque, da WayCarbon

Laura Albuquerque: líder em finanças sustentáveis da WayCarbon analisa o cenário de emissão de títulos verdes no Brasil

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Maria Clara Dias

Repórter da Exame



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A demanda por financiamento sustentável no Brasil nunca foi tão grande. De acordo com a Climate Bonds Initiative (CBI), organização sem fins lucrativos que analisa o mercado de títulos verdes no mundo, o país é o maior mercado de green bonds da América Latina, com participação de 42% das emissões nos últimos cinco anos, totalizando 5,4 bilhões de dólares - ou 27 bilhões de reais.

O cenário serve de oportunidade para que empresas pensem com maior afinco, em atrelar as finanças ao desempenho socioambiental e metas de longo prazo. O mesmo pode ser dito de governos ao redor do mundo, que buscam o financiamento de projetos de grande porte para atrair investidores e cumprir com as metas determinadas no Acordo de Paris. Os títulos verdes se tornaram, então, o braço direito do que pode ser considerado o caminho para um capitalismo ambientalmente responsável.

A lista de emissoras já inclui empresas como Suzano, Órigo, O Boticário e Natura, que emitiu 1 bilhão de dólares em títulos de sustentabilidade com a finalidade de acelerar a redução das emissões de gases poluentes e o uso de embalagens recicláveis. Para as próximas duas décadas, o potencial de captação para grandes projetos ‘sustentáveis’ no Brasil chegará a 3,6 trilhões de reais, de acordo com um estudo da Carbon Trust.

A Waycarbon, empresa brasileira especializada em soluções para a economia de baixo carbono, tira proveito desse cenário. A companhia já desenvolveu mais de 800 soluções para que empresas como Natura, Oi, BRF e LATAM possam reduzir seus impactos ambientais. “Há muito o que podemos fazer, mas a maturidade que alcançamos, como país, em títulos verdes é algo impressionante”, diz Laura Albuquerque, membro da Câmara Temática de Mudança do Clima e Energia do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) e líder da área de finanças sustentáveis da WayCarbon.

Na entrevista a seguir, Albuquerque fala sobre a curva ascendente dos títulos verdes no Brasil, o papel das grandes empresas e do ESG para a liderança do país em finanças sustentáveis. Veja os principais trechos da conversa.

Como o Brasil se insere neste contexto de finanças sustentáveis?
O mercado de títulos verdes no exterior tem um apetite muito maior do que no Brasil, pois começou anos antes. Mas, se olharmos para os últimos cinco anos no Brasil, vemos uma maturidade enorme. Se levarmos em consideração que a primeira emissão foi ainda em 2015, depois tivemos duas em 2016, quatro em 2017, vemos que o crescimento tem sido exponencial. Só neste ano, o cenário global com a pandemia incentivando uma nova consciência a respeito dos investimentos também serve de incentivo para que o mercado nacional avance nesse tema. Isso também é mérito das empresas que, quando entram nesse mercado, tentam conectar o que elas estão fazendo em sustentabilidade com suas finanças.

Qual é o perfil dessas emissões verdes feitas hoje por aqui?
Os dados são extremamente dinâmicos. Até o mês passado, tínhamos um perfil de setores e agora temos outros. Agora, o principal setor a liderar essas emissões é o florestal. Neste primeiro semestre, vemos o agronegócio e saneamento entrando fortes também, setores que não estavam tão ativos.

Que tipo de setores chamam mais a atenção para a captação de recursos nestes projetos? E com a expansão das energias renováveis, isso deve mudar?
O novo marco de Saneamento pode impactar - e muito - o que vem pela frente. Esse será um setor que concentrará muito foco, assim como o setor de transportes, sempre dentro desse financiamento por green bonds. Mas, acima de tudo isso, é preciso entender que o setor de energia vai concentrar boa parte desses recursos, à medida em que entidades governamentais também percebem a necessidade de investir em projetos de eficiência energética e novas matrizes que nos tornem menos dependentes da matriz hidrelétrica. Nunca estivemos, na história, diante de um risco hídrico e de uma vulnerabilidade tão grande. Esse setor fez os títulos verdes ganharem forma no Brasil, e ainda há muita oportunidade.

Quando levamos o assunto para o ambiente corporativo, a tendência se mantém?
Um ponto importante a entender é que as empresas têm um tipo diferente de classificação para os títulos verdes, que juntam vários setores. Elas conectam sua taxa de juros a indicadores de desempenho para o negócios. Neste pacote, estão incluídos os projetos que não necessariamente estão ligados à área de atuação daquela empresa. Em alguns casos, elas já estão de acordo com setores promissores como energia e também os projetos florestais - como é o caso das emissões feitas pela Suzano.

Você falou em como esse mercado é promissor no meio empresarial, mas para que essas empresas continuem emitindo títulos e atrelando suas metas ESG a eles, são necessários  mais mecanismos por parte das instituições financeiras. É isso mesmo?
Sim. Para que este mercado funcione é preciso uma arquitetura entre todos os elos da cadeia. As próprias instituições financeiras podem, inclusive, ser emissoras. É o que foi feito por Itaú e mais recentemente, Bradesco. O que temos visto é que as empresas têm boas histórias para contar. Elas vão a mercado com um determinado volume e a procura é bem maior, por causa desse grande apetite do investidor. É esse discurso que deve ser levado em conta na hora de um banco, por exemplo, considerar a vantagem e os retornos positivos dos títulos verdes. Há aqui também o papel dos reguladores - no caso o Banco Central - em dar os mecanismos necessários para que haja segurança nessas operações.

Apesar de maduro com tão pouco tempo de existência, o mercado de títulos verdes do Brasil ainda está atrás de países como Estados Unidos e Europa. O que falta para o Brasil assumir essa liderança?
As instituições financeiras são capazes e competentes em apoiar emissões desse tipo. O volume e velocidade de novos títulos têm mostrado isso. A grande questão por trás dessa desvantagem é o fato de não termos um mercado secundário tão evoluído. E, embora a gente tenha a certeza de que há um maior interesse dos investidores internacionais e nacionais, há ainda um arcabouço que torna esse cenário incerto e que enfraquece a confiança do investidor.

Que vantagem o Brasil e as empresas brasileiras poderiam ter a partir de um mercado ‘verde’ mais maduro e ao assumir essa liderança?
Do ponto de vista das empresas, hoje já é impossível desvincular o desempenho e a análise de indicadores totais das ações ambientais. Mostrar, então, que as metas ambientais estão sendo cumpridas - com ou sem a ajuda desses títulos - se torna uma vantagem competitiva. Já para o Brasil, a discussão gira em torno das ações que olham para as mudanças climáticas. Além disso, esses mecanismos também estão ligados a investimentos entre países. Então países que conseguem reduzir suas emissões  a custos menores, podem receber mais investimentos. Essas parcerias bilaterais resultam em investimentos em países como o Brasil, com oportunidades enormes em muitas infraestruturas de soluções baseadas na natureza.

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