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Carlos Nobre: nova economia na Amazônia também precisa de capital privado

PUBLICADO EM: 27.4.21 | 8H00
ATUALIZAÇÃO: 26.4.21 | 18H33
Cientista avaliou papel de empresas e investidores na promoção de um novo modelo econômico no principal bioma do mundo. Para ele, corporações são resposta para tirar bioempreendedores do chamado "vale da morte"

(AFP via Getty Images)

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Maria Clara Dias

Repórter da Exame



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O Brasil tem ainda um longo caminho a percorrer quando se fala em preservação ambiental. Apesar das recentes alegações de que seria capaz de extinguir completamente o desmatamento ainda na próxima década, falta sintonia entre o discurso e ação. Essa é a opinião de Carlos Nobre, cientista e climatologista e uma das principais autoridades nos estudos climáticos sobre o bioma amazônico. Segundo o especialista, o discurso de Jair Bolsonaro durante a Cúpula do Clima, que aconteceu na última semana, foi o oposto de um comprometimento sólido. “Não houve nenhuma novidade. O Governo veio ignorando a meta de zerar desmatamento até pelo menos 2010, e o cenário foi de total ignorância a respeito das metas ambientais nestes últimos 2 anos e 4 meses. O desafio é imenso”, avaliou.

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Para Nobre, não se trata apenas do cumprimento das metas assumidas durante o Acordo de Paris. Ao falar sobre preservação na Amazônia, o desmatamento não deve ser, nem de longe, o único foco das autoridades. A palavra de ordem, segundo ele, deve ser bioeconomia. “Quando pensamos na criação de um novo modelo econômico a partir da biodiversidade, temos de entender que é um desafio nacional”, diz. “Todos os outros biomas do Brasil também têm pouco desse potencial explorado. Temos que mudar a rota por aqui”.

O novo modelo econômico, pautado na exploração consciente dos recursos da floresta, será atrelado à necessidade de um volume gigantesco de investimentos privados para chegar até a fase de escala. Essa será a lógica aplicada à maioria das pequenas empresas, startups e negócios conduzidos por produtores da região. Mas, a injeção de capital vinda de empresas só será possível depois de um mínimo incentivo por parte do Estado.

Na prática, isso significa que, para estarem aptos a receberem os subsídios corporativos que encurtam o caminho entre os produtos e soluções regionais e o mercado nacional, os empreendedores da Amazônia precisam de um subsídio inicial do setor público. “O setor público é responsável pelo incentivo na ponta, no início desses ecossistemas de inovação, sejam eles institutos ou universidades", diz.

A explicação de Nobre está baseada no que o ecossistema de empreendedorismo brasileiro chama de “vale da morte”, período em que uma empresa sobrevive sem qualquer retorno financeiro - geralmente associado ao início da companhia. Na visão do cientista, o ecossistema de negócios sustentáveis no Brasil tem um vale da morte a mais. Este, segundo Nobre, surge depois da fase de estruturação, e é enfrentado por empresas que precisam dar um passo adiante no mercado.

“Primeiro, o setor público investe em pesquisa básica e aponta para as tendências e potenciais perspectivas com base em novos conhecimentos (primeiro vale) e o setor privado transforma isso em algo que pode gerar valor econômico e faz com que a ideia chegue aos mercados (segundo vale)”, diz.

Nobre diz que nos países desenvolvidos, 85% dos custos de pesquisa para a criação e distribuição de produtos de inovação são despendidos por laboratórios de pesquisa do setor privado. No Brasil, grande parte desse montante vem da filantropia, majoritariamente ligada a doações do setor privado. “Temos a esperança de que a partir de agora, o Governo também comece a fomentar e apoiar o avanço dessa bioeconomia”, diz.

Para despertar a atenção de grandes companhias sobre o assunto, Nobre se uniu a um projeto da plataforma Grape ESG, que lançou um documentário sobre a exploração consciente da floresta. O filme, que leva o nome “Amazônia 4.0”, fala sobre o projeto de pesquisa de Nobre, que defende o desenvolvimento e estabelecimento da bioeconomia brasileira a partir da incorporação de tecnologias da quarta revolução industrial no bioma. A ideia é mostrar que há uma “terceira via” produtiva e sustentável para a Amazônia que foge das tradicionais lógicas de exploração desenfreada e conservação total da floresta.

“Queríamos mostrar para as empresas que sustentabilidade não é custo, mas sim criação de valor. Chamar especialistas e criar um produto diferente do que vemos por aí foi a nossa aposta”, disse  Ricardo Assumpção, presidente da Grape ESG e produtor executivo do documentário. “Não queremos esconder o desmatamento e as queimadas, mas mostrar as oportunidades ímpares para criação de valor para aquelas marcas que souberem aproveitar a Amazônia de maneira sustentável e inteligente”, disse.

Entre as principais propostas do Amazônia 4.0 está a criação de laboratórios científicos para o desenvolvimento de pesquisas, tecnologias e geração de conhecimento em bioeconomia. Um deles, em São José dos Campos (SP), já está 80% concluído e foi levantado a partir de capital filantrópico, segundo Nobre.

A princípio, quatro comunidades irão receber a capacitação do Amazônia 4.0, que será viabilizada pelo financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Serão realizados treinamentos a moradores de comunidades e estudantes para a produção de itens relacionados à cadeia do cupuaçu e cacau.

No momento, o  projeto está em busca dos recursos faltantes para o desenho e construção dos outros três laboratórios previstos. “Conseguimos 75% de todo o capital necessário para os primeiros trabalhos de campo. Estamos agora em uma busca ativa pelos 25% de recursos restantes”, diz.

Impulsionando a bioeconomia

O climatologista coordenou um recente estudo do Instituto de Engenharia sobre Amazônia que apresentou as ações recomendadas ao Brasil para avançar na bioeconomia. O caderno propõe uma “reindustrialização” que adote a bioeconomia como prioridade, com mudanças em governança,  criação de uma Política Nacional de Bioeconomia pelo Governo Federal, e a criação de um Conselho Nacional da Bioindústria que tenha como atribuição central a promoção da competitividade da indústria do setor.

Um outro compromisso sugerido está no apoio à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), promovendo o avanço estrutural de entidades e parques tecnológicos que transformem as inovações em produtos e serviços de alto valor agregado a partir do investimento em educação, infraestrutura, e melhores incentivos para atração de capital privado no setor. “Precisamos de recursos, públicos ou privados.  Do contrário, não conseguiremos destravar o potencial da bioeconomia na Amazônia, nem até 2030 nem em momento algum”, diz.

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