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ESG

Em livro, Elisa Tawil defende inclusão da mulher no setor imobiliário

PUBLICADO EM: 26.9.21 | 8H20
ATUALIZAÇÃO: 26.9.21 | 7H53
No lançamento "Proprietárias", a arquiteta aponta que o setor é machista, masculino e masculinizado e explica os efeitos positivos para o mercado de uma equidade maior

Elisa é arquiteta, criadora do coletivo Mulheres no Imobiliário e trabalhou durante 15 anos em empresas do setor | Foto: Leandro Fonseca/EXAME

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Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com



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A ideia de ter um patrimônio ainda está fortemente vinculada ao legado de uma figura masculina – afinal, a própria palavra deriva de pater, ou pai em latim. Em seu livro Proprietárias, Elisa Tawil chama a atenção para o potencial transformador da mulher no mercado imobiliário, tanto como compradora, investidora e líder. "O mercado imobiliário é machista, masculino e masculinizado. Precisamos abordar essa realidade para inovar."

Elisa Tawil é a idealizadora, cofundadora e líder do movimento Mulheres do Imobiliário. Mentora e consultora estratégica de negócios, atualmente, é executiva na eXp Brasil e colunista da EXAME.

Proprietárias: A ascensão da liderança feminina no setor imobiliário é o seu primeiro livro, está em pré-venda na Amazon e será lançado em outubro.

O livro apresenta argumentos e dados que comprovam que criar e gerir o próprio patrimônio proporciona autonomia para a mulher e oferece um caminho para que ela se liberte de situações de violência e opressão doméstica. Também tem a intenção de abrir as portas para um mercado imobiliário mais original, diversificado e lucrativo, que contempla e impacta o futuro das mulheres e a prosperidade do setor no Brasil.

No livro, Tawil dá exemplos práticos e cases, abordados também em seu podcast Vieses Femininos. "A mudança acontece pelo exemplo. Não tem outro caminho. Quero trazer luz para uma realidade. Onde estão as CEOs de empresas do mercado imobiliários? As gestoras de fundos imobiliários? Precisamos destacar, senão não conseguimos mostrar para outras centenas de mulheres do setor de que essa trajetória é, sim, possível".

Na conclusão, a autora aponta o passo a passo de como uma empresa imobiliária pode colaborar para o protagonismo da mulher. "Abordo a importância dos investimentos ESG e como a equidade torna as empresas mais lucrativas, inovadoras e criativas, algo já explorado em diversas pesquisas."

Veja abaixo a entrevista completa concedida por Elisa Tawil para a EXAME Invest:

Seu livro aborda a conquista da independência financeira da mulher por meio da compra do imóvel. Ele afinal é mais voltado para um público geral ou para quem quer mudar a questão de desigualdade de gênero no mercado imobiliário?

Meu foco é principalmente quem atua no mercado, seja como compradora de imóvel ou profissional.

Mas não quero apenas falar para esse público. Também busco provocar a leitura de homens que atuam no setor. Se não incluirmos os homens no discurso não conseguimos, de fato, trazer a a equidade de gênero para o mercado.

Na essência, meu livro tem como objetivo debater o papel da mulher na transformação do mercado.

Quais são os principais argumentos e dados que você aborda e que comprovam o poder transformador da mulher no mercado?

Para o público masculino eu mostro no livro como a mulher influencia na decisão de compra do imóvel, com dados de uma pesquisa feita após um ano da criação do coletivo. A conclusão desse levantamento é que 62% dos homens são influenciados por mulheres na aquisição da casa.

Mas como as empresas tratam esse dado em suas estratégias de marketing, em seu board, como trabalham o imóvel olhando para a mente feminina? As mulheres, por exemplo, se preocupam mais do que os homens com imóveis que estejam próximos de sua rede de apoio e do transporte público, estejam localizados onde pode fazer tudo a pé.

As mulheres podem ser compradoras de imóveis e também investidoras. Dados do Portal Zap mostram que 40% das mulheres pretendem investir no mercado. Isso mostra o quanto a força feminina representa e não pode ser esquecida pelo setor. No estande de vendas, quando chega uma mulher, alguém imagina que ela possa ser uma investidora?

Precisamos mudar padrões e trilhar caminho que converse com mulheres que desejam investir. A mulher tem uma jornada múltipla de trabalho e pede uma linguagem direta, além de gestoras que se comunicam com elas.

Você é arquiteta e trabalhou por 15 anos em empresas do mercado. Resolveu empreender para mudar a realidade que conheceu?

O mercado imobiliário é machista (trata a mulher como uma figura com menos protagonismo), masculino (composto majoritariamente por homens) e masculinizado (as mulheres precisaram mudar suas características para liderarem no segmento). Mas o setor é um segmento importante da economia. Como criar lares sem analisar a causa feminina?

Ou seja, o mercado imobiliário é pouco aberto a enxergar fora da própria bolha. Precisa acompanhar novos mercados e tendências, sair do seu quarteirão e trazer referências externas.

É um mercado que faz habitação, promove o convívio, monta shoppings, constrói a cidade. Se não entende a diversidade da sociedade, não está falando com o seu público.

O setor imobiliário teimou, durante muitos anos, em repetir padrões americanos e internacionais. Precisa agora se adaptar à realidade do país. No Brasil, 56% da população é negra e 52% é composta por mulheres. Somos diversos, temos questões sociais próprias.  Como o mercado interpreta isso e traduz para seus negócios?

Por que a restrição tão grande de mulheres na liderança do mercado imobiliário?

Entre os motivos está o de que o mercado imobiliário é assediador, mais do que outros mercados. Em uma pesquisa que realizamos, 60% das mulheres do mercado contaram que já sofreram algum tipo de assédio: 41% delas com conotação sexual. É um índice muito alto. Ser a única mulher em uma sala de reunião, no departamento, em uma apresentação, faz com que a chance de sofrer assédio seja infinitamente maior. Daí a importância da equidade.

Existem mulheres líderes no mercado imobiliário. Contudo, elas precisam de visibilidade. Por isso criei um think thank no Mulheres no Imobiliário. Reuni as principais lideranças e referências nas empresa, inclusive CEOs e fundadoras. O objetivo é ter um banco de dados, atuar como referência.

Com o apoio destas 20 executivas, estou lançando doiis projetos neste mês: um núcleo de mentorias e um projeto de capacitação de mulheres na construção civil.

Você defende linhas de crédito para a compra de imóveis exclusivas para o público feminino. Fale um pouco sobre o assunto. 

Precisamos ter um olhar cuidadoso na análise do crédito imobiliário. Existem vieses inconscientes nos modelos dos bancos, que não valorizam a capacidade financeira da mulher.

Quero desenvolver a modalidade de crédito imobiliário para mulheres no país. Já existe uma iniciativa neste sentido no Banco Mundial. O organismo tem crédito disponível e precisa de um veículo para oferecer o montante.

É algo que pode ter um grande impacto social. Estudos já identificaram que as mulheres são mais altruístas em relação ao dinheiro. Quando concedemos patrimônio a ela, é mais provável que esse valor retorne à sociedade. Dessa forma, é possível tirar mais famílias da situação de pobreza extrema.

Já temos no projeto da Casa Verde e Amarela algumas iniciativas que colocam a mulher como chefe de família. Mas tem de criar uma trilha que conecta isso ao crédito. O banco precisa fazer uma análise para que seu score seja direcionado para a mulher. Principalmente porque muitas vezes a mulher não tem como comprovar sua receita: tem um trabalho mais informal que o do homem. Trabalha como cabeleireira, manicure, entre outras funções autônomas.

Pesquisa feita pelo Mulheres no Imobiliário com mais de 800 mulheres do setor em todo o Brasil mostra que elas têm uma média de 14,1 anos trabalhando no mercado e já encararam duas grandes crises. O que mais você destaca no perfil médio dessa profissional?

São mulheres experientes, que conhecem as dores mercado e sabem falar sobre ele. Precisamos investir nessa força. O setor remunera bem, em média R$ 12.700. Precisamos aprimorar a ascensão delas.

A mulher valoriza o corretor mais do que o homem, em um momento em que há uma pressão para marginalizar essa figura profissional: são 300 mil no país, e muitas mulheres estão se tornando influenciadoras, virando referências nessa função. No Mulheres no Imobiliário temos um projeto social que capacita mulheres que estão fora do mercado de trabalho para se tornarem corretora de imóveis.

Atualmente, temos o maior número de mulheres fora do mercado em 30 anos, além de 15% de desemprego no país. Acreditamos que esse projeto e essa figura profissional sejam importantes para melhorar essa realidade.

O corretor tem a capacidade de investir em si para atuar em diversas áreas dentro do setor, não apenas na intermediação de imóveis. Pode trabalhar com uma visão estratégica do negócio e até em fundos. A compra direta do imóvel, sem passar pela intermediação do corretor, sempre existiu, mas o profissional pode fornecer uma orientação com olhar de especialista, o que faz uma diferença enorme nas transações.

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Marília Almeida

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