ESG

O investimento de impacto pode salvar o mundo, mas tem um lado sombrio

PUBLICADO EM: 14.5.21 | 7H00
ATUALIZAÇÃO: 14.5.21 | 7H32
O investimento de impacto pode salvar o mundo, mas pode sujar tudo pelo caminho, como mostra a história da startup Cambrian Innovation, de reúso de água, que enfrentou dilemas ao conciliar metas sociais e financeiras

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Leo Branco

Repórter da Exame



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O investimento de impacto pode salvar o mundo, mas pode sujar tudo pelo caminho, como mostra a história da startup Cambrian Innovation, de reúso de água, que enfrentou dilemas ao conciliar metas sociais e financeiras (Eduardo Ramos Castaneda/Getty Images)

Para uma empresa no nada glamouroso negócio de água de reúso, até que a Cambrian Innovation tem um perfil de respeito no Vale do Silício e em Hollywood. Sua tecnologia usa micróbios eletricamente carregados para digerir dejetos, produzindo água limpa e energia no processo. Seus clientes incluem a Domaine Chandon, uma vinícola de Napa Valley, na Califórnia. E seu maior investidor é a bilionária Laurenne Powell Jobs, viúva do cofundador da Apple.

Há alguns anos, a Cambrian comprou a rival Baswood, que tinha os atores Woody Harrelson como cofundador e Edward Norton como presidente. “Filmes agora são o que eu faço por fora”, disse Norton em um simpósio ambiental em 2011. "Meu negócio é esgoto."

O biorreator de lodo da Baswood também usa micróbios para tratar água, e seu principal cliente até então tem sido o Dr. Pepper Snapple Group (multinacional americana do setor de bebidas, conhecida pelo refrigerante Dr. Pepper). A fusão da Cambrian com a Baswood prometia "mudanças reais para a saúde do nosso planeta", disse Norton.

Talvez. Mas, até lá, ela também pode ser um exemplo dos riscos e complicações do investimento de impacto, que combina metas sociais e financeiras. Em que pesem todas as promessas da empresa, a indústria de águas residuais limpas não tem sido um caminho para obter lucros fáceis. E este ano os acionistas da empresa se viram divididos por causa de algo ainda mais sujo: uma briga por dinheiro.

Desde que a Fundação Rockefeller cunhou o termo em 2007, os investidores de impacto proliferaram e agora administram US$ 715 bilhões em ativos, principalmente em empresas privadas, segundo a organização sem fins lucrativos Global Impact Investment Network (rede de investimentos de impacto global, no original em inglês).

As metas financeiras podem frequentemente entrar em conflito com as de construir um mundo melhor, de acordo com Christopher Geczy, professor de finanças da Wharton School, na Universidade da Pennsylvania, e que estuda tais negócios. "É muito difícil quando o foco está totalmente no lucro", diz ele.

Powell Jobs está entre as profissionais de investimento de impacto de maior destaque dos EUA. Seu híbrido de investimento filantrópico, o Emerson Collective, tem como foco educação, imigração, clima e saúde, além de também ser o proprietário da revista The Atlantic.

O Emerson tem uma missão declarada de preservar o precioso suprimento de água do mundo. A Cambrian, no entanto, diz que escolhe seus investidores não com base no impacto social, mas sim no retorno do investimento que seu serviço oferece aos clientes da empresa.

Em sua empreitada de águas de reúso limpas, o Emerson se viu em conflito com outros dois investidores de impacto e acionistas da Cambrian: Rafael del Pino Calvo-Sotelo, bilionário presidente da construtora Ferrovial, com sede em Madri, e Gary Bergstrom, pioneiro no campo do investimento internacional. Em janeiro, a empresa de investimentos de del Pino e o escritório de advocacia da família de Bergstrom moveram uma ação para obter acesso aos números da Cambrian.

Os investidores alegaram que o Emerson tinha um conflito de interesses. Era ao mesmo tempo o maior acionista da Cambrian e dono majoritário do alvo da aquisição, a Baswood. Em um documento no Tribunal de Equidades de Delaware, eles disseram que o Emerson usou sua influência "para levar adiante uma transação que socorreu seu investimento falido na Baswood às custas de outros acionistas da Cambrian".

A Cambrian descreveu o negócio como benéfico para todos os envolvidos porque ele "injetou dinheiro muito necessário na empresa", e diz que a aquisição "já superou nossas expectativas". Em março, a Cambrian concordou em entregar diversos dos documentos relativos ao acordo, e o processo que solicitava acesso aos papéis foi descartado voluntariamente poucas semanas depois.

Na semana passada, advogados da Cambrian, Emerson e da empresa de investimento de Del Pino e dos Bergstrom disseram em um comunicado conjunto que tinham "resolvido todas as diferenças entre eles de forma amigável e mutuamente satisfatória".

A tensão em torno do negócio pode refletir os desafios de investir em um setor novo, em que as recompensas são incertas e de longo prazo. No início dos anos 2000, os capitalistas de risco apostaram com força nas empresas de tratamento de águas residuais, como a Cambrian e a Baswood.

Em 2013, a maioria tinha perdido o interesse, afirma Holly Stower, analista do Cleantech Group, empresa de pesquisa e consultoria. Equipar uma fábrica com tecnologia de limpeza pode ser caro, e é algo difícil de padronizar. Como resultado, os investidores restantes tendem a ser governos, grandes corporações e investidores de impacto. "É uma compensação muito longa e lenta", diz Stower.

Em 2006, dois engenheiros treinados no Massachusetts Institute of Technology fundaram a Cambrian, sediada no subúrbio de Boston, em Watertown (Massachusetts). Além da Domain Chandon, o sistema EcoVolt da empresa tem atraído a atenção de cervejarias artesanais como Lagunitas, Tree House e Bear Republic. Fazer vinho e cerveja gera muita água residual, e a tecnologia da Cambrian pode reduzir tanto os gastos quanto o impacto ambiental.

Em novembro de 2019, a diretoria da Cambrian se reuniu para votar um acordo de compra da Baswood e também para injetar mais capital na empresa conjunta, dinheiro que viria do Emerson e de outros acionistas. Del Pino e Bergstrom não estavam confiantes.

Eles questionaram as projeções de receita da Baswood e o modo como o preço de compra foi calculado, de acordo com os documentos judiciais apresentados pela empresa de investimentos de del Pino e pelo escritório de advocacia da família Bergstrom. (O arquivo fortemente protegido, com partes ocultas, não revela o valor pago pela Cambrian, mas uma fonte familiarizada com as finanças da empresa diz que foram mais de US$ 10 milhões.)

Os dois investidores alegaram que a Cambrian, "de modo inexplicável e imprudente", adicionou um prêmio ao negócio por causa da associação da Baswood com "personalidades de Hollywood", cujo reconhecimento do nome poderia ser herdado em uma fusão.

A Cambrian respondeu que a transação foi justa e baseada na análise de dois consultores independentes; as revisões deles incluíram vários métodos de avaliação, incluindo um que teria atribuído à empresa um preço mais alto do que o que foi pago no final em função de suas "conexões de marketing/diretoria".

A ação judicial de Del Pino e Bergstrom também descreve um cenário em que o Emerson vinha pressionando bastante para que o negócio fosse fechado. Um dia antes da reunião da diretoria, os dois se encontraram no hotel Four Seasons de Boston com Peter Gross, um conselheiro-sênior do Emerson e indicado da empresa à diretoria. Gross fez um ultimato, segundo o processo: Ou o acordo era aprovado ou o Emerson 'retiraria seu apoio' à empresa dali em diante.

Em sua resposta legal, a Cambrian diz que o Emerson nunca teve a obrigação de fornecer mais capital a ela. A Cambrian também alegou que del Pino e Bergstrom tinham um motivo não revelado para apresentar a queixa: pressionar a empresa a comprar a participação deles.

O conselho aprovou a aquisição com del Pino se posicionando contra. Ainda assim, del Pino votou a favor de uma resolução da diretoria que reconhecia que "foi realizada uma votação em perfeitas condições", segundo a Cambrian.

Gross se retirou da votação por causa da posição do Emerson nos dois lados do acordo. (Bergstrom não faz parte do conselho.) Rob Day, sócio da investidora Spring Lane Capital, diz que ficou satisfeito com o negócio. "Adicionar a linha de produtos Baswood à da Cambrian proporcionou uma oferta mais completa aos clientes", afirma ele.

Após a fusão, "a empresa estava em uma posição financeira mais robusta do que a registrada anteriormente", afirma um porta-voz da Cambrian. A empresa diz que as projeções de receita são ainda melhores do que o esperado e que, desde a aquisição, a Cambrian vem ampliando suas ambições: dobrar o número de fábricas em que opera, promover uma expansão para novos mercados e conseguir novos clientes, funcionários e propriedade intelectual.

A Cambrian diz que algo mais legitima o preço do negócio de Baswood. E também sugere o apelo contínuo de um negócio que ajuda o planeta: A empresa tem fechado com novos investidores.

Tradução por Fabrício Calado Moreira

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