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ESG

Os bastidores da corrida invisível pelo "item mágico" dos carros elétricos

PUBLICADO EM: 22.5.21 | 9H00
ATUALIZAÇÃO: 19.5.21 | 14H23
Nos Estados Unidos, a luta pela abertura da primeira mina nacional de lítio reacendeu debates sobre o impacto ambiental e social dos carros elétricos e da energia renovável

Vista do mar de Salton em declínio rápido de Red Hill, que já foi cercado por água, em Imperial County, Califórnia: o lago, o maior da Califórnia, está no centro de uma corrida para encontrar fontes dos materiais necessários para carros elétricos e energia renovável (NYT)

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Por Ivan Penn e Eric Lipton, c. 2021 The New York Times Company

No topo de um vulcão adormecido há muito tempo no norte de Nevada, os trabalhadores se preparam para começar a cavar um fosso gigante que será a primeira nova mina de lítio em grande escala nos Estados Unidos em mais de uma década – uma nova fonte doméstica de um ingrediente essencial para a produção de baterias de carros elétricos e para a energia renovável. A mina, construída em terras federais arrendadas, poderia tornar os Estados Unidos quase totalmente independentes de fontes estrangeiras de lítio.

Mas o projeto, conhecido como Lithium Americas, atraiu protestos de uma tribo indígena, de fazendeiros e de grupos ambientais porque usará um grande volume de água subterrânea, podendo contaminar uma parte do lençol freático por 300 anos e deixar para trás uma montanha de rejeitos.

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A luta pela mina de Nevada é emblemática de uma tensão fundamental que vem à tona ao redor do mundo: carros elétricos e energia renovável podem não ser tão verdes quanto parecem. A produção de matérias-primas como lítio, cobalto e níquel, essenciais para essas tecnologias, costuma ser prejudicial à terra, à água, à vida selvagem e às pessoas.

Esse custo ambiental muitas vezes é esquecido devido à corrida entre os Estados Unidos, a China, a Europa e outras grandes potências pelo controle dos minerais que podem ajudar os países a alcançar o domínio econômico e tecnológico nas próximas décadas. Mas a mineração tradicional é um dos negócios mais sujos que existem.

Esse atrito ajuda a explicar o surgimento de uma espécie de competição nos últimos meses nos Estados Unidos em busca da melhor forma de extrair e produzir grandes quantidades de lítio de maneiras muito menos destrutivas do que a mineração que vem sendo feita há décadas.

Alguns investidores estão financiando alternativas, incluindo um plano para extrair lítio da salmoura que fica no fundo do Lago Salton, o maior da Califórnia, cerca de mil quilômetros ao sul da mina da Lithium Americas.

No Lago Salton, os investidores planejam usar contas especialmente revestidas para extrair sal de lítio da água quente bombeado de um aquífero a mais de 1.200 metros de profundidade. Os sistemas autônomos serão conectados a usinas geotérmicas, gerando eletricidade livre de emissões. Com isso, esperam gerar a receita necessária para restaurar o lago, que foi contaminado pelo escoamento de substâncias tóxicas vindas de fazendas da área ao longo de décadas.

Os Estados Unidos precisam encontrar rapidamente novas fontes de lítio à medida que as montadoras ampliam a fabricação de veículos elétricos. Embora os Estados Unidos tenham algumas das maiores reservas do mundo, a maior parte do lítio bruto usado no país vem da América Latina ou da Austrália, e a maior parte dele é processada e transformada em baterias na China e em outros países asiáticos.

Despojos de Nevada

Em uma encosta, Edward Bartell e os funcionários de sua fazenda saem cedo toda manhã para garantir que os quase 500 bezerros e vacas que vagam por 20 mil hectares de terra, no deserto de Nevada, tenham alimento suficiente.

A poucos quilômetros de sua fazenda, o trabalho pode começar em breve na mina a céu aberto da Lithium Americas, tornando-se uma das maiores minas de lítio na história dos Estados Unidos.

O maior medo de Bartell é que a mina esgote a água que mantém seu gado vivo. A empresa informou que a mina consumirá 12 mil litros por minuto. Isso poderia baixar em cerca de três metros e meio o nível do lençol freático nas terras de Bartell, de acordo com um consultor da Lithium Americas.

A mina pode contaminar o lençol freático com metais, incluindo antimônio e arsênico, de acordo com documentos dos EUA.

Membros da tribo Fort McDermitt Paiute e Shoshone protestam em frente aos escritórios do Bureau of Land Management federal em Winnemucca, Nevada, em 18 de março de 2021, antes de iniciar uma corrida de oração para Thacker Pass, o local onde uma nova mina de lítio iria operar. (Gabriella Angotti-Jones/The New York Times)

O lítio é extraído por meio da mistura da argila retirada da encosta da montanha com ácido sulfúrico. Esse processo também cria rejeitos de mineração.

Uma avaliação feita em dezembro pelo Ministério do Interior dos Estados Unidos revelou que, ao longo de 41 anos de vida útil, a mina degradaria cerca de dois mil hectares de área usada pelo antilocapra e prejudicaria o habitat do tetraz. A mina provavelmente também destruiria uma área de nidificação de um par de águias douradas cujas penas são vitais para as cerimônias religiosas da tribo local.

"É realmente frustrante que esse projeto esteja sendo apresentado como algo ambientalmente correto, quando na verdade é uma enorme mina industrial", disse Bartell, que entrou com um processo para tentar impedir a instalação da mina.

Na Reserva Indígena Fort McDermitt, a raiva em relação ao projeto não pôde mais ser contida e causou brigas entre os membros, já que a Lithium Americas se ofereceu para contratar indígenas para ocupar cargos que pagarão um salário médio anual de US$ 62.675, mas que dependem de uma grande concessão por parte da tribo. "Que água vou beber durante 300 anos?", gritou Deland Hinkey, membro da tribo, quando um oficial federal chegou à reserva em março para informar os líderes tribais sobre o plano de mineração.

A reserva fica a cerca de 80 quilômetros do local da mina – e muito além da área onde o lençol freático pode estar contaminado –, mas os membros da tribo temem que a poluição possa se espalhar.

Tim Crowley, vice-presidente da Lithium Americas, declarou que a empresa operaria com responsabilidade – planejando, por exemplo, usar o vapor da queima de enxofre para gerar a eletricidade de que precisa.

A Lithium Americas, que estima que haja US$ 3,9 bilhões em lítio recuperável no local, espera iniciar as operações de mineração no próximo ano. A maior acionista da mineradora é a empresa chinesa Ganfeng Lithium.

Segundo ato

As areias do deserto que cercam o Lago Salton já foram alvo de atenção mundial quando serviram como locação para produções de Hollywood como "Guerra nas Estrelas".

Ao longo dos anos, a seca e a má gestão transformaram a região em uma fonte de poluentes. Porém uma nova onda de investidores está promovendo o lago como uma das fontes de lítio mais promissoras e ecologicamente corretas dos Estados Unidos.

A extração de lítio da salmoura é usada há muito tempo em minas no Chile, na Bolívia e na Argentina, nas quais o sol evapora a água de grandes lagoas. Trata-se de um processo relativamente barato, mas que usa muita água em regiões áridas.

A abordagem planejada no Lago Salton é radicalmente diferente. O lago fica no topo dos Salton Buttes, que, assim como em Nevada, são vulcões subterrâneos. Há anos, a CalEnergy, que pertence à Berkshire Hathaway, e a Energy Source usam o calor geotérmico dos Salton Buttes para produzir eletricidade. Os sistemas se servem do vapor subterrâneo que ocorre naturalmente. Essa mesma água é carregada com lítio.

Agora, a Berkshire Hathaway e duas outras empresas – a Controlled Thermal Resources e a Materials Research – querem instalar equipamentos para extrair o lítio depois que a água passar pelas usinas geotérmicas, em um processo que levará apenas duas horas, aproximadamente. Mas até mesmo esses projetos levantaram algumas questões.

As usinas geotérmicas produzem energia sem emissões de carbono, mas dependem de um enorme volume de água todos os anos para o arrefecimento. Além disso, a extração de lítio da salmoura traz à tona minerais como ferro e sal, que precisam ser removidos antes que a salmoura seja injetada de volta no solo. Esforços de extração semelhantes no Lago Salton falharam no passado.

Mas as montadoras de automóveis estão ansiosas por abordagens que tenham um impacto menor no meio ambiente. "Expulsão de tribos indígenas ou envenenamento de sua água? Simplesmente, não queremos fazer parte de nenhum problema desse tipo. Queremos que as indústrias das quais compramos matérias-primas se certifiquem de que estão fazendo isso de forma responsável. Como indústria, compramos uma quantidade tão grande de matérias-primas que temos poder para gerar uma mudança muito significativa nessa situação. É justamente isso que pretendemos fazer", concluiu Sue Slaughter, diretora de compras da Ford para a sustentabilidade da cadeia de suprimentos.

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