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Por que a demissão de uma diretora estudantil gerou uma onda de protestos na Escócia

PUBLICADO EM: 27.2.21 | 8H00
ATUALIZAÇÃO: 25.2.21 | 12H30
A saída da filósofa Alison Duncan Kerr da Universidade de St. Andrews, na Escócia, levantou uma discussão sobre a sub-representação de mulheres na academia e nos estudos de gênero e identidade

(NYT)

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Maria Clara Dias

Repórter da Exame



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Alunos, funcionários e acadêmicos de todo o mundo estão expressando sua indignação depois que a Universidade St. Andrews, na Escócia, não renovou o contrato da diretora de seu Instituto de Estudos de Gênero, parte do departamento de filosofia.

A mudança levantou questões sobre a sub-representação das mulheres na academia, particularmente em um campo de estudo focado em representação e identidade.

Alison Duncan Kerr, filósofa americana, trabalha para a prestigiada universidade desde 2017 com um contrato temporário. Em 2018, foi contratada para fundar o Instituto St. Andrews de Estudos de Gênero, e em 2020 criou um programa de mestrado em estudos de gênero na universidade. Projetou e desenvolveu o currículo e inicialmente lecionou nesse programa.

Em uma carta aberta, seus apoiadores declaram que Kerr tinha todos os motivos para acreditar que seu trabalho resultaria em uma posição permanente, mas na verdade a universidade vai dispensá-la em junho. Suas tarefas serão distribuídas a outros membros da equipe, "nenhum dos quais tem o gênero como interesse central de pesquisa", diz a carta.


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Antes do trabalho de Kerr na universidade, não havia programa interdisciplinar de estudos de gênero na St. Andrews. Seus apoiadores afirmam que o trabalho dela uniu pessoas de toda a universidade para criar um programa inédito e valioso. Consta na carta que "Alison trabalhou muito além dos requisitos oficiais da universidade".

Em um comunicado, a universidade se recusou a comentar o caso de Kerr, mas observou que aqueles que têm contrato de prazo fixo estão "plenamente cientes de que ele pode ser encerrado".

A instituição observou que o programa de mestrado em estudos de gênero "está em boas mãos", e atualmente recruta alunos para o próximo ano letivo.

Os defensores de Kerr dizem que a universidade planejou ter dois homens, que não têm a mesma formação no campo dos estudos de gênero, para ministrar o curso e dirigir o instituto. A universidade afirmou que a informação era imprecisa. "Reportagens na mídia britânica afirmando que a diretora de estudos de gênero na St. Andrews foi 'substituída por homens' são imprecisas e incorretas", declarou um porta-voz. Kerr ainda está em seu posto e seu contrato vai até junho de 2021, mas não leciona mais no programa de mestrado.

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Esse programa está agora a cargo da Escola de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares da universidade; a instituição disse que os deveres de Kerr estão sendo cobertos por vários colegas, mulheres e homens, de disciplinas de toda a universidade.

Também observou que Morven Shearer, diretora da pós-graduação, está assumindo temporariamente a responsabilidade pelo programa de estudos de gênero, e que a nomeação de um novo diretor ainda estava sendo debatida.

Mas a declaração inicial sugeria que um funcionário do sexo masculino supervisionaria o programa de mestrado estabelecido por Kerr.

A carta aberta atraiu mais de 1.500 assinaturas de alunos, funcionários e outros apoiadores de Kerr, que dizem que a decisão de não a efetivar faz parte de uma questão mais ampla no departamento de filosofia, na universidade e no mundo acadêmico em geral.

A situação mostra as "múltiplas barreiras enfrentadas na academia ligadas a questões de gênero, raça, idade, homofobia etc.", as mesmas questões que o instituto que Kerr fundou ajudava a explorar, diz a carta.

Também desencadeou uma campanha nas redes sociais, #StAndWithAlison, que recebe grande apoio de colegas de trabalho e alunos.

"A St. Andrews continuará colhendo os frutos do trabalho da dra. Alison Duncan Kerr muito tempo depois de tê-la dispensado. Ela criou um centro vital para pesquisas inclusivas e diversas, e essa decisão é terrível", escreveu Zoe Shacklock, professora de estudos cinematográficos da universidade.

Arantza Asali, atualmente aluna do programa de mestrado, escreveu no Twitter: "Nunca imaginei que a St. Andrews ofereceria esse diploma, receberia os elogios e o dinheiro da matrícula, e então faria isso. O descaso com nossa educação e com o bem-estar da equipe é inaceitável."

Preocupações mais amplas com a sub-representação das mulheres no campo da filosofia em todo o mundo foram levantadas muitas vezes no passado. E aqueles que chamaram a atenção para a decisão da universidade de não renovar o contrato de Kerr apontam para questões mais amplas em seu departamento.

De acordo com a carta em seu apoio, desde fevereiro, dos 35 membros da equipe acadêmica e de pesquisa do departamento, apenas 12 são mulheres; destas, apenas cinco têm posto permanente (para uma delas, este é de meio período), duas são visitantes, três são professoras que não são empregadas principalmente pela universidade, e duas têm contratos temporários, incluindo Kerr.

Os 19 membros em tempo integral do departamento incluem apenas quatro mulheres, e nenhuma posição júnior permanente é ocupada por elas. Dos 57 alunos de doutorado do departamento, apenas 13 são mulheres.

Acadêmicos de todo o mundo expressaram apoio a Kerr nas redes sociais.

"Absolutamente vergonhoso, e parte de uma longa lista de dispensa de mulheres e estudiosos Bame nos últimos anos", postou no Twitter Camilla Mork Rostvik, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Leeds, usando um acrônimo em inglês (Bame) comum no Reino Unido para negros, asiáticos e "minorias étnicas".

"Essa é uma injustiça profunda e um erro inacreditável. O trabalho dela é exemplar, e não há ninguém com a devida experiência para substituí-la", escreveu Jonathan Ichikawa, professor associado de filosofia da Universidade da Colúmbia Britânica.

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