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BC pode subir juro em março se inflação surpreender de novo, diz Volpon

PUBLICADO EM: 21.1.21 | 6H10
ATUALIZAÇÃO: 21.1.21 | 10H51
O cenário mudou e os diretores do Banco Central se ajustaram às novas perspectivas para a inflação. Diante das novas condições, não se deve descartar a possibilidade de aumento da taxa básica de juros -- atualmente em 2% ao ano -- já na próxima reunião do Copom nos dias 16 e 17 de março. É […]
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Foto de Marcelo Sakate da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Marcelo Sakate

Editor da EXAME Invest, jornalista com MBA em Mercado de Capitais e passagens por Folha de S. Paulo, Veja, 6 Minutos (C6 Bank) e CNN Brasil | marcelo.sakate@exame.com



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O cenário mudou e os diretores do Banco Central se ajustaram às novas perspectivas para a inflação. Diante das novas condições, não se deve descartar a possibilidade de aumento da taxa básica de juros -- atualmente em 2% ao ano -- já na próxima reunião do Copom nos dias 16 e 17 de março. É o que afirma Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central e estrategista-chefe da WHG, em entrevista à EXAME Invest.

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"O mercado já estava trabalhando com uma perspectiva de aumento do juro em maio, como é o meu caso. Com as mudanças no comunicado e a morte do forward guidance, uma alta em março está no jogo", disse Volpon. "Se o IPCA surpreender como aconteceu em dezembro, eu acredito que o Banco Central antecipa a alta para março." Nessa situação, poderia ser um aumento de 0,25 ou de 0,50 ponto percentual, a depender da evolução do quadro.

Segundo ele, as expectativas no mercado devem sofrer um ajuste com o comunicado, com o aumento das apostas para uma alta dos juros em março e na combinação de março e maio, enquanto as que projetam um aperto monetário a partir de junho devem diminuir.

Como consequência, haverá um achatamento da curva de juro (formada pelas projeções para a taxa em cada prazo): ou seja, a curva sobe em prazos mais imediatos e cai no médio e longo prazo, algo que ele considera positivo. "Eu advogo há algum tempo que o Banco Central tem que mexer nos juros e que quando antes fizer isso será melhor. A postura monetária não é mais compatível com o cenário que temos na economia", afirma.

Ainda assim, Volpon trabalha ainda com o cenário de aumento de juro em maio e diz avaliar que o BC fará o mesmo se puder esperar, para que tenha "um conjunto de informações suficiente" para tomar a decisão. Seriam informações sobre o estágio de avanço da pandemia em meio ao avanço da campanha de vacinação e sobre o quadro fiscal.

Volpon se antecipa a eventuais contestações de que subir a taxa Selic em um momento em que há muitas incertezas sobre o ritmo de retomada da atividade poderia colocar em xeque esse movimento. "O que define a atividade é a curva de juros, e não a taxa de curto prazo."

A avaliação do economista é a de que é desejável um aumento da Selic já na próxima reunião, para iniciar um processo gradual, do que correr o risco de errar a mão e ter que adotar uma elevação de maior intensidade lá na frente.

Volpon deixou o cargo de economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil no fim do ano passado para se tornar sócio da WHG, uma nova empresa de investimentos voltada para o segmento de wealth management (gestão de patrimônio) fundada por profissionais que deixaram o Credit Suisse.

Os sinais do Copom

Volpon afirma que o BC decidiu sinalizar uma postura mais hawkish -- ou seja, uma política de aperto monetário -- de diferentes formas no comunicado que acompanhou a decisão sobre a taxa básica de juros. Uma das principais mudanças, embora já fosse aguardada por analistas de mercado e economistas, era o fim do forward guidance.

O forward guidance é o instrumento de política monetária que funciona como uma espécie de prescrição ou orientação futura quanto à taxa básica de juros no médio prazo. O Copom o utilizava desde a reunião de agosto do ano passado para sinalizar um compromisso de manutenção da taxa em 2% ao ano desde que certas condições fossem cumpridas.

No comunicado, o Copom "avalia que essas condições deixaram de ser satisfeitas já que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estão suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária". E em seguida diz que deixará de utilizar o instrumento.

Volpon aponta outras três mudanças no comunicado da reunião desta quarta em relação ao anterior, que é a forma como o Banco Central sinaliza para o mercado a sua conduta futura.

"O Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, ainda que tenham se revelado mais persistentes do que o esperado", diz o colegiado no comunicado. É um reconhecimento, segundo Volpon, de que o cenário previsto pelo BC de arrefecimento da inflação não ocorreu como o esperado. A remissão é ao IPCA em dezembro, com variação de 1,35%, acima das expectativas do mercado de algo em torno de 1,20%.

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Outra mudança é a avaliação do Copom de que "as diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se em níveis acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação", algo que não estava presente na reunião anterior.

A inflação subjacente corresponde ao núcleo da inflação, que descarta os preços sujeitos a choques temporários, como os de alimentos. "O BC reconhece que a inflação está em um nível preocupante, não mais compatível com a meta", afirma Volpon.

Por fim, o Copom faz uso da expressão "neste momento" ao dizer que o abandono do forward guidance não deve ser entendido "mecanicamente como aumento da taxa de juros". "A conjuntura econômica continua a prescrever, neste momento, estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade", diz o comunicado. O estrategista da WHG explica que o uso da expressão reforça que dada situação presente na reunião desta semana pode não ser verdadeira na próxima, em março.

 

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