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Bill Gates, exclusivo: emissão zero é a única solução

PUBLICADO EM: 20.2.21 | 9H05
ATUALIZAÇÃO: 20.2.21 | 11H43
Para zerar a emissão de carbono será preciso, diz o bilionário, reconstruir a indústria da energia, o maior negócio do mundo

Bill Gates: investimento em 20 empresas com inovações para reduzir a emissão de carbono

Lucas Amorim

Repórter da Exame



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Este mês, Bill Gates está lançando seu novo livro, “Como Evitar um Desastre Climático: as Soluções que Temos e as Inovações Necessárias”. Nele, o fundador da Microsoft aprofunda um debate para o qual tem se dedicado: o das emissões de carbono. Para ele, a única saída para o planeta é zerar as emissões até 2050, o que demandará uma revolução em larga escala na forma como produzimos, nos alimentamos e vivemos. Bill Gates, vale lembrar, afirmou há cinco anos que o mundo não estava preparado para uma provável futura epidemia. O bilionário conversou com a dinamarquesa Connie Hedegaard, ex-comissária europeia para a Mudança Climática, num conteúdo do Project Syndicate distribuído com exclusividade no Brasil pela EXAME.

Connie Hedegaard: Deixe-me começar com uma confissão: durante anos, pensei que você não estivesse particularmente interessado nas mudanças climáticas. Lembro-me claramente de uma sessão fechada em Davos alguns anos atrás. A discussão voltou-se para o clima, em vez de outras questões de sustentabilidade, e você saiu da sala.

Agora você se coloca de forma incisiva e veemente a favor de uma urgente ação climática. Você começa seu livro descrevendo essa jornada. No início, era “difícil aceitar que, enquanto o ser humano continuasse emitindo qualquer quantidade de gases de efeito estufa, as temperaturas continuariam subindo”. Foi só depois se encontrar com um grupo de cientistas do clima "várias vezes com perguntas de acompanhamento" que finalmente "caiu a ficha”. A que você atribui sua resistência inicial e como sua experiência pode ser aplicada para conseguir que outras pessoas abracem a causa?

Bill Gates: O mundo está em uma situação muito diferente hoje do que quando comecei a estudar as mudanças climáticas. Temos mais informações e estabelecemos mais consenso sobre o problema. Mas ainda é difícil para muitas pessoas aceitar que apenas reduzir as emissões, sem chegar a zero, não é suficiente. Também é difícil aceitar o volume de inovação que será necessário para chegar a zero – para reconstruir fundamentalmente a indústria da energia, o maior negócio do mundo. No livro, apresento o caso que me convenceu, e espero que convença outras pessoas. Eu aconselho os defensores do clima a continuar defendendo a emissão zero e a redução das emissões de uma forma que nos coloquem nesse caminho.

CH: Da sua analogia da banheira à sua alegoria do peixe, você dedica bastante atenção a tornar os conceitos abstratos ou dados complexos mais concretos e acessíveis. Você acha que essa abordagem é a chave para finalmente mudar a mentalidade daqueles que, apesar de toda a ciência e informação, ainda parecem acreditar que podemos simplesmente continuar com as coisas do jeito que são? Abordagens semelhantes o ajudaram em seu trabalho para expandir a fronteira tecnológica da Microsoft ou promover a saúde e o desenvolvimento globais na Fundação Gates?

BG: Embora o livro não seja direcionado especificamente para os céticos da mudança climática, certamente espero que os convença de que precisamos investir seriamente em energia limpa. Os países que mais se empenham em fomentar a inovação neste campo serão o lar da próxima geração de empresas inovadoras – juntamente com todos os empregos e atividades econômicas que as acompanham. É por isso que esses investimentos são a coisa inteligente a se fazer, mesmo que não se acredite no argumento de que o ser humano está provocando mudanças no clima que trarão consequências catastróficas se não forem controladas.

CH: A pandemia da COVID-19 não apenas evidenciou os custos de se ignorar a ciência, mas também provou que uma mudança comportamental rápida e em larga escala é possível, e mostrou que os líderes que assumem a responsabilidade de resolver os problemas poderão ser respeitados. Mas, como você aponta, também havia outra lição crucial: a redução relativamente pequena (10%) nas emissões de gases do efeito estufa que os bloqueios globais produziram mostrou que mudanças comportamentais como viajar menos de avião ou usar menos o automóvel estão longe de ser suficientes. Há outras lições que aprendemos durante a pandemia que se aplicam às mudanças climáticas? Qual a melhor forma de aplicá-las à ação climática?

BG: Uma lição é o outro lado da ideia de que viajar menos de avião ou dirigir menos não é suficiente: precisamos de muita inovação para que as pessoas possam voar, dirigir e participar da economia moderna sem causar emissões. Na verdade, esse é um desafio ainda mais difícil do que desenvolver e distribuir vacinas contra a COVID-19 (que é a maior campanha de saúde pública de todos os tempos).

Mas a mesma estreita cooperação será necessária entre os governos em todos os níveis e também com o setor privado. E assim como todos nós temos que fazer nossa parte usando máscaras e nos distanciando, as pessoas também precisam desempenhar um papel na redução das emissões. Elas podem defender políticas que aceleram a transição para o zero e podem reduzir o Prêmio Verde comprando produtos de baixo e zero carbono, como carros elétricos e hambúrgueres à base de vegetais. Isso atrairá mais concorrência nessas áreas e, por fim, ficará mais barato se tornar verde.

CH: Assim como acabar com a pandemia, você argumenta que lidar com as mudanças climáticas depende em grande parte da ciência e da inovação. No geral, você se sente “otimista de que podemos inventar [as ferramentas de que precisamos], implantá-las e, se agirmos rápido o suficiente, evitar uma catástrofe climática”. Que experiências ou lições inspiraram essa crença em você?

BG: Tenho visto em primeira mão como os investimentos em P&D podem mudar o mundo. Pesquisas patrocinadas pelo governo dos Estados Unidos e empresas americanas tornaram possíveis, os microprocessadores e a Internet o que liberou uma quantidade fenomenal de energia empreendedora para criar a indústria de computadores pessoais. Da mesma forma, o esforço do governo dos EUA para mapear o genoma humano levou a avanços no tratamento do câncer e outras doenças mortais.

Quanto a chegar a zero, também estou vendo um trabalho incrível. O Breakthrough Energy Ventures, o fundo privado que construí com vários parceiros, investiu em mais de vinte empresas que estão trabalhando em formas de baixo e zero carbono para produzir cimento e aço, gerar e armazenar grandes quantidades de eletricidade limpa, cultivar plantas e criar animais, transportar pessoas e mercadorias ao redor do mundo e aquecer e resfriar nossos edifícios. Muitas dessas ideias não vão dar certo. Mas as bem-sucedidas podem mudar o mundo.

CH: como você vê, no entanto, “inovação não é apenas uma questão de desenvolver novos dispositivos. É também uma questão de desenvolver novas políticas para que possamos demonstrar e implantar essas invenções no mercado o mais rápido possível”. A União Europeia (e agora também a China) começaram a se envolver nessa inovação de políticas.

Em um esforço para corrigir uma falha na estrutura de incentivos que não leva em consideração o que você chama de “Prêmios Verdes”, muitos países europeus introduziram mecanismos para taxar as emissões de CO2, desperdício de recursos e poluição. Essas políticas estão mudando a estrutura de incentivos de maneira significativa? Um mecanismo de regulação de fronteira de carbono ajudaria a impulsionar o progresso?

BG: Definir um preço para o carbono é uma política que fará a diferença, como parte de uma abordagem geral em que o objetivo é aumentar tanto a oferta quanto a demanda por avanços em energia limpa. Menciono uma ampla gama de outras ideias no livro. Por exemplo, uma coisa que os governos podem fazer para ampliar a oferta de inovação é expandir drasticamente o financiamento para P&D em energia limpa. (Eu recomendo um aumento de cinco vezes.) Do lado da demanda, além do preço do carbono, são coisas como os padrões para o volume de eletricidade ou combustível que precisam ser provenientes de fontes de carbono zero.

Precisamos de inovação nas políticas tanto quanto na tecnologia. Já vimos antes política e tecnologia se unirem para resolver grandes problemas. Conforme registro no livro, a poluição do ar é um ótimo exemplo; a Lei do Ar Limpo dos EUA fez um excelente trabalho ao retirar gases tóxicos do ar. Outras soluções políticas incrivelmente eficazes nos Estados Unidos incluem a eletrificação rural, a expansão da segurança energética e o desencadeamento da recuperação econômica após a Grande Recessão de 2008. Agora precisamos transformar o QI da tecnologia e da política mundial para eliminar as emissões. Minha equipe na Breakthrough Energy, a rede de iniciativas que fundei para acelerar a transição para a energia limpa, está trabalhando duro para desenvolver e defender políticas ousadas que atinjam os objetivos climáticos mundiais.

CH: Os governos, você aponta, muitas vezes tentaram usar regras adotadas para resolver outros problemas para reduzir as emissões – abordagem semelhante a tentar "criar inteligência artificial usando um computador mainframe dos anos 1960".

Mas introduzir uma nova legislação importante é difícil, até porque os produtores tradicionais resistem aos padrões mais elevados e outras mudanças caras. Como alguém que está do lado “regulado” da equação regulatória, que soluções ou percepções você vê para resolver o problema das políticas defasadas?

BG: Precisamos de ação governamental para resolver este problema – trata-se de fazer a transição de todo o sistema de energia do mundo a uma velocidade sem precedentes. Os investimentos do setor privado por si só não terão sucesso, a menos que tenhamos as condições de mercado que recompensem a inovação e permitam que as tecnologias limpas concorram, e precisamos do governo para ajudar a criar esse ambiente. Portanto, precisamos de ação governamental que precisa ser direcionada, robusta e previsível.

É por isso que não falo sobre inovação apenas em tecnologia, mas também em políticas e mercados. Precisamos que os legisladores pensem de forma criativa sobre as maneiras certas de estimular a inovação em energia limpa, nivelar o campo de atuação e acelerar a transição energética. Minha equipe na Breakthrough Energy está trabalhando com líderes de todo o governo para desenvolver e defender as políticas de que precisamos para obter zero emissões líquidas.

CH: Além da política, você sugere que os governos precisam ser mais ousados ao investir em pesquisa e desenvolvimento relacionados ao clima. Que papel as universidades devem desempenhar aqui, tanto em termos de pesquisa quanto na transmissão do conhecimento necessário para moldar políticas?

BG: As universidades oferecem um ambiente que fomenta ideias e desenvolvem tecnologias limpas. A ciência, a pesquisa e a engenharia nas universidades do mundo inteiro estão entre os fatores mais importantes para nos ajudar a atingir zero emissões líquidas. Obviamente, as descobertas precisam sair do ambiente universitário para dar forma a novas políticas e moldar o mercado. Algumas instituições acadêmicas estão envidando esforços para ajudar seus professores a se comunicarem com mais eficácia, tornar suas pesquisas mais relevantes para os formuladores de políticas e impulsionar suas descobertas tecnológicas para empresas e mercados. Essas peças são cruciais para se evitar um desastre climático.

CH: Você enfatiza que o argumento moral para a ação climática é tão forte quanto a argumentação econômica, porque a mudança climática prejudica desproporcionalmente os mais pobres do mundo. Mas a ação climática também tem implicações distributivas. Como você reconhece, mesmo o Prêmio Verde muito baixo para descarbonizar todo o sistema elétrico dos EUA pode não ser acessível para famílias de baixa renda, e os países em desenvolvimento estão em uma posição muito mais fraca para realizar tal transformação. Como esses desafios podem ser superados? O seu trabalho implantando outras tecnologias em ambientes de baixa renda contém lições relevantes?

BG: Este é um tópico extremamente importante. Os países de renda baixa e média usarão mais energia nas próximas décadas, à medida que saem da pobreza. Todos nós devemos querer que essa energia seja limpa – mas eles só se comprometerão a usar energia limpa se ela for tão barata quanto os combustíveis fósseis são hoje.

Portanto, quando se é um líder em um país rico, deve estar se perguntando o que seu governo ou empresa está fazendo para torná-la acessível para todo o mundo – incluindo países de renda média e, eventualmente, baixa – tornarem-se verde. A expansão do investimento em P&D e outras políticas precisam ser direcionadas a esse objetivo. Muitas das empresas em que estou investindo estão trabalhando em ideias que estariam acessíveis em países de baixa renda.

CH: Você está entre vários líderes empresariais que agora reconhecem publicamente o crucial papel do governo em qualquer empreendimento em massa. Mesmo entre esses empreendimentos, a mudança climática se destaca. Enfrentar o desafio exigirá um papel maior para o setor público – em geral ou em uma área específica – do que até mesmo as vozes mais governistas estão acostumadas?

BG: A transição para a energia limpa terá que ser conduzida tanto pelos governos quanto pelo setor privado trabalhando juntos – tal como aconteceu com a revolução do computador pessoal.

Isso significará um papel maior para o governo, tão somente porque esse papel tem sido relativamente pequeno até agora. Consideremos o aumento de cinco vezes em P&D do setor público que discutimos anteriormente. Esse aumento colocaria a pesquisa de energia limpa no mesmo nível da pesquisa em saúde nos Estados Unidos. E assim como temos os Institutos Nacionais de Saúde para supervisionar e coordenar esse trabalho, deveríamos criar os Institutos Nacionais de Inovação Energética (INIE) para evitar a duplicação e fazer o melhor uso desses recursos. Um Instituto de Descarbonização do Transporte seria responsável pelo trabalho em combustíveis de baixo carbono. Outros institutos teriam responsabilidades e autoridade semelhantes para pesquisas sobre armazenamento de energia, energias renováveis e assim por diante.

O INIE também seria responsável pela coordenação com o setor privado. O objetivo seria ter pesquisas vindas de laboratórios nacionais que levassem a produtos inovadores para chegar ao mercado em uma escala muito grande. Precisamos de políticas que acelerem todo o canal de inovação, desde a pesquisa inicial até a implantação em massa.

CH: Em determinado ponto do livro, você escreve que, “Além de encontrar maneiras de produzir materiais com emissões zero, podemos simplesmente usar menos coisas”. Alguns argumentariam que o capitalismo depende do consumo – quanto mais, melhor. Uma verdadeira solução para a crise climática depende de uma nova visão do capitalismo para o século 21? Poderia, digamos, um novo entendimento mais qualitativo de “crescimento” formar a base de tal sistema?

BG: Acho que as pessoas no mundo rico podem e devem reduzir um pouco suas emissões. (Como mencionei no livro, estou tomando uma série de medidas para reduzir e compensar minhas próprias emissões.) Mas o uso de energia vai dobrar em todo o mundo até 2050, impulsionado por um importante crescimento em países de baixa e média renda. Esse crescimento é bom no sentido de indicar que as pessoas estão levando uma vida mais saudável e produtiva. Mas precisamos fazer isso de uma forma que não torne o problema climático mais difícil de resolver. É por isso que precisamos de inovação que torne a energia barata o suficiente para que todos ao redor do mundo eliminem as emissões.

CH: Você escreve que seu “livro é sobre o que será necessário para [evitar uma catástrofe climática] e por que acho que podemos fazer isso”. Honestamente: Você acredita que vamos agir juntos a tempo?

BG: Sim, como escrevi no final do livro, estou basicamente otimista porque vi o que a tecnologia pode fazer e o que as pessoas podem fazer. O que precisamos fazer é passar a próxima década implementando corretas políticas, tecnologias e estruturas de mercado para que a maior parte do mundo possa estar com emissões zero até 2050. Não temos tempo a perder.

Tradução de Anna Maria Dalle Luche.

Bill Gates, Fundador e Consultor de Tecnologia da Microsoft Corporation, é copresidente da Fundação Bill & Melinda Gates.

Connie Hedegaard serviu como Comissária Europeia para a Ação Climática (2010-14) e como Ministra do Meio Ambiente da Dinamarca (2004-07) e Ministra do Clima e Energia (2007-09).

Direitos Autorais: Project Syndicate, 2021.
http://www.project-syndicate.org


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