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Cerbasi: educação e questionamento evitam a manipulação do investidor

PUBLICADO EM: 19.7.21 | 6H05
ATUALIZAÇÃO: 19.7.21 | 12H48
Para o consultor e escritor de best-sellers de finanças, o crescimento das redes sociais e dos influenciadores digitais trouxe escala para as aplicações financeiras, mas impõe armadilhas para os investidores

Gustavo Cerbasi: "Renda futura do investidor não pode estar só à mercê do sucesso do mercado"

Foto de Bianca Alvarenga da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Bianca Alvarenga

Repórter especializada em finanças pessoais e investimentos, passou pelas redações de Veja, Folha de S. Paulo e 6 Minutos.



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Um mercado maduro, diverso e crescente: assim pode ser definido o mundo das aplicações financeiras no Brasil. Mas quem olha para a foto atual pode não ter dimensão do caminho percorrido para chegar ao patamar alcançado.

Gustavo Cerbasi, consultor e autor de diversos best-sellers de finanças, como Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, de 2004, foi uma das vozes pioneiras na época em que os "influenciadores digitais" ainda não existiam, e ainda menos no mundo de investimentos.

Cerbasi conta que nos anos 2000, quando os bancos reservavam o acesso aos investimentos somente para os clientes dos segmentos private, a capitalização da educação financeira ainda engatinhava no Brasil. A chegada de novas corretoras e bancos digitais, e o ganho de escala das redes sociais, no entanto, mudaram o jogo.

"O ­YouTube teve um papel fundamental nesse processo, dando aos usuá­rios das redes a oportunidade de fazer contato com quem estava disposto a falar sobre investimentos. Foi um grande impulso para o investidor buscar conhecimento no mundo das finanças”, disse Cerbasi, em entrevista exclusiva à EXAME Invest.

Mas como tudo tem um lado bom e um lado ruim, o consultor financeiro diz que boa parte dos investidores consome esse novo conteúdo em busca de dicas prontas, e que não consegue, ainda, discernir o que é adequado para o próprio momento de vida.

Leia a conversa completa com Gustavo Cerbasi:

Como foi o processo de transformação da educação financeira no Brasil, na sua visão?

No início da década 2000, pequenos grupos de investidores decidiram se mobilizar para diminuir as  exigências e quebrar barreiras para investir. Na época começaram a surgir as primeiras plataformas de investimento, que eram a solução correta, mas nasceram antes do amadurecimento da educação financeira do brasileiro. Isso começou a mudar mais recentemente, nos últimos 10 anos, quando tivemos ajuda das redes sociais. O ­YouTube teve um papel fundamental nesse processo, dando aos usuá­rios das redes a oportunidade de fazer contato com quem estava disposto a falar sobre investimentos. Foi um grande impulso para o investidor buscar conhecimento no mundo das finanças.

Quais as oportunidades e armadilhas as redes sociais trouxeram para o investidor?

Existe um grande aspecto positivo, que é o da oportunidade. Por outro lado, muitas vezes o conteúdo das redes sociais leva o investidor a debates distorcidos, tendenciosos ou manipuladores. Tenho a impressão de que muitas vezes as pessoas estão sendo induzidas a entrar em bolhas. Começa a ficar claro que é necessário separar o conteúdo que é mera curiosidade do conteúdo que pode ajudar a tomar decisões consistentes, decisões que levam ao resultado de longo prazo. Nem sempre quem traz recomendações tem embasamento para orientar a todos.

Como a pandemia influenciou esse cenário?

A pandemia ajudou a alertar o investidor. Em 2019 era difícil argumentar sobre a necessidade de se preparar para uma crise. Com a renda fixa rendendo menos de 3% ao ano e o mercado de renda variável em alta, o investidor não queria saber se reserva de emergência, liquidez e proteção de curto prazo. A crise nos mercados causada pela pandemia ensinou ao investidor o que é um cenário extremo, de grandes perdas para todos.

Ficou claro que ter uma carteira balanceada e uma estratégia de proteção que permita agir sobre as perdas é tão importante quanto observar as oportunidades. Seguir uma estratégia bem fundamentada é até mais essencial do que acompanhar carteiras recomendadas de ações, de fundos de investimento, de criptoativos etc.

Como o pequeno investidor pode montar essa estratégia?

O primeiro caminho pra quem tem um volume financeiro menor é contar com um bom assessor de investimentos. É claro que o pequeno investidor vai contar com uma ajuda mais impessoal e automatizada, porque esses profissionais ganham um percentual sobre os produtos, e portanto têm um repasse pequeno quando atendem quem tem uma carteira pequena.

O segundo caminho possível é através da educação financeira. As redes sociais nos jogam em um caldeirão de informações e nos dá poucos filtros. O melhor é o investidor estruturar esse conhecimento através de livros, escolhendo bons autores. Ele quer entender de ações? Então pode buscar os melhores autores que escrevem sobre análise fundamentalista, por exemplo. O conteúdo dos livros vai dar uma base para que o investidor construa uma linha de raciocínio e possa começar a argumentar com os assessores de investimentos que têm uma abordagem mais impessoal. Assim, ele vai receber a carteira recomendada e vai poder questionar alguns pontos.

Qual o papel das redes sociais nesse cenário?

O conteúdo produzido por influenciadores pode ser um elemento de provocação ou uma via de acesso do investidor a novidades e tendências. Mas é importante nunca tomar decisões com base só em um vídeo, porque não se sabe a motivação daquela recomendação. O investidor deve lembrar que tudo que está na rede e é gratuito tem algum tipo de interesse posterior. Se toda a estratégia de aplicação está sendo baseada em fóruns e conteúdo das redes sociais, talvez o investidor esteja sendo mais manipulado do que orientado.

Como funciona essa manipulação?

Eu, por exemplo, tenho mais de 1 milhão de seguidores no Instagram. Se eu lançar uma carteira recomendada com 10 ações, basta que parte dos meus seguidores siga minha estratéga para que eu consiga manipular os preços dos ativos que estou recomendando. Aí vai ser fácil argumentar que carteira é bem sucedida, porque eu manipulei o mercado e o ativo se valorizou. Vão sendo criadas "mini bolhas" com base no sucesso manipulado, com base nessas distorções. Só que é importante que o investidor saiba que quando uma crise vem, os ajustes maiores acontecem justamente em ativos desse tipo.

Acredito que existe um forte elemento de manipulação no mercado, e vale, inclusive, um questionamento na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Hoje temos diversos influenciadores com mais seguidores do que o número total de CPFs na bolsa.

Como o investidor pode escapar dessas bolhas?

A manipulação vai deixar de acontecer quando criarmos a cultura do questionamento. O investidor está em busca de dicas prontas, ele não quer ter o trabalho de pesquisar. A falta de hábito de estudo é perigosa, principalmente para o alcance do resultado de longo prazo. Ainda existem outras armadilhas pelo caminho -- pessoas sem conhecimento vão atrás de informações e são abordadas por veículos oportunistas de informação, por recomendações de carteiras muito alavancadas, carteiras com exposição exagerada em criptoativos, ou até pior: por esquemas de pirâmide financeira.

Só há uma forma de mudar isso: melhorando a educação financeira, tornando-a universal. É fundamental educar os jovens, como as escolas já começam a fazer, mas há uma geração de adultos que precisa ter disciplina para buscar o conhecimento.

Como acredita que vai ser o comportamento do investidor no pós-pandemia?

No ano passado, o número de CPFs na bolsa continuou aumentando, o que foi um indício claro de que o brasileiro estava confiante na retomada. Agora temos visto uma entrada importante de recursos estrangeiros, o que tem feito o dólar cair, mas é muito importante lembrar que o Brasil continua sendo o Brasil. Temos à frente reformas polêmicas, como a tributária, e, mais importante, teremos eleições em 2022. Não é a hora ideal para o investidor ter uma carteira voltada para aproveitar o timing.

O melhor para o pequeno e médio investidor é ser forte na crise. Construir uma reserva de emergência adequada para lidar com turbulências -- não só as turbulências de mercado, mas também a perda de emprego e outros imprevistos -- é só o primeiro passo. Depois ele deve montar uma estratégia complementar para o plano de aposentadoria, que ainda pode ser bastante focada em um plano de previdência. Só então ele deve começar a pensar em investir em ações, para complementar os dois pilares. Para a grande massa de brasileiros, o que é possível poupar mal dá para a primeira parte. A especulação precisa ser a parte menor da carteira, e uma parte que não comprometa projetos de curto e longo prazo.

Na sua visão, o que seria uma boa carteira de investimentos?

Uma boa carteira de investimentos é uma que não precise mudar muito ao longo do tempo. Se o investidor está sentindo necessidade de ajustar a carteira com muita frequência, talvez ele esteja mais especulando do que investindo. Para os traders isso não é um problema, porque eles podem dedicar tempo para apostar a favor ou contra o mercado. Mas para o investidor comum, que se dedica ao trabalho e que tem uma série de preocupações, especulação ou trading são elementos perigosos para a carteira. Ele vai incorrer um risco enorme para talvez conseguir uma carteira que vai render 10 ou 20%, mas se o patrimônio dele é pequeno, esse é um ganho imaturo. A renda futura do investidor não pode estar só à mercê do sucesso do mercado.

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Foto de Bianca Alvarenga da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Bianca Alvarenga

Repórter especializada em finanças pessoais e investimentos, passou pelas redações de Veja, Folha de S. Paulo e 6 Minutos.


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