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ESG

Conheça a trajetória de três mulheres negras no mercado financeiro

PUBLICADO EM: 29.10.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 11.11.21 | 18H25
Roberta Anchieta, Lívia Félix e Monalisa Gomes participaram de evento Women in Finance, organizado pela Fin4She
Roberta Anchieta, , superintendente do Grupo Itaú, Presidente da Comissão de Administração e Custódia da Anbima, Membro do Fórum de Serviços Qualificados da Associação, Membro do Conselho Fiscal da Ânima Educação S.A

Para Roberta Anchieta, superintendente do Grupo Itaú, diversidade é negócio, e não assistencialismo

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Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com



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O mercado financeiro tem a fama de ser um ambiente árido para mulheres, quem dirá mulheres negras, Além de ser predominantemente masculino em cargos gerenciais, o setor também recebe críticas por sua característica elitista, que deixa grande parte da população negra de fora.

Mas esse cenário, com o avanço de pautas ESG (ambientais, sociais e de governança), vem mudando. É o que mostrou a Fin4She, plataforma de conexão do ecossistema financeiro para mulheres, durante o Women in Finance.

O evento reuniu três executivas negras: Roberta Anchieta, superintendente do Grupo Itaú; Lívia Félix, CEO e sócia da Financier Educação; e Monalisa Gomes, diretora geral para a América Latina, Portugal e Espanha da Schauer Agrotronic. Conheça suas trajetórias:

Women in Finance, da Fin4She

Da esquerda para a direita: Monalisa Gomes, Roberta Anchieta e Lívia Félix em painel do Women in Finance (BTG Pactual/Divulgação)

Roberta Anchieta

O pai de Roberta fez mestrado e doutorado e atuava no mercado financeiro, e motivou a filha a entrar para o mercado. Com ele, a executiva aprendeu desde cedo que ainda que não passasse por problemas financeiros, sua cor de pele e seu gênero seriam obstáculos para o seu crescimento. "Ele me disse que eu poderia ser o que eu quisesse, mas teria de me esforçar três vezes mais: duas por ser negra e mais uma por ser mulher". Apesar de ter todos os caminhos abertos, Anchieta quis ser, desde cedo, uma executiva.

Questionada se todas as mulheres estão no mesmo patamar na luta pela equidade de gênero, é categórica. "Não estamos. Quando vou a uma reunião tenho primeiro de mostrar que não sou a mulher do cafezinho, que sei falar português corretamente e que também sei falar inglês. Só depois dessas barreiras eu me igualo a uma mulher branca e enfrento sexismo. É exaustívo. Até como uma mãe negra tenho conversas difíceis com meu filho que uma mãe branca não precisa ter".

A diversidade, frisa, é um negócio, e não assistencialismo. "Não entrei porque era preta, mas porque queria trabalhar em uma grande empresa do mercado financeiro. Não basta aprovar candidatos negros: tem de incluir na prática. Senão, esses talentos vão embora, veem que não pertencem àquele ambiente". Ser diverso é o correto a fazer, mas também dá lucro, completa. "Eu com a minha vivência como mulher e com o racismo tenho um olhar diferente de um homem branco e uma mulher branca. Se todos nós discutirmos até convergirmos em uma solução, provavelmente ela será mais robusta".

Lívia Félix

A executiva faz questão se sublinhar que é uma mulher negra que nasceu com privilégios sociais: seus pais têm curso superior (sua mãe é médica). Ambos proporcionaram a ela acesso uma boa educação e a um intercâmbio no exterior. Félix decidiu cursar relações internacionais e se especializou em comércio internacional.

Contudo, foi a única negra em muitos ambientes. "Ao longo do tempo cultivei uma revolta em relação a essa situação. Sempre tive acesso a muitos lugares, mas isso não significa que foi fácil. Nunca olhavam para mim como a primeira opção, mesmo com um currículo de 'branco', com pós-graduação e três idiomas. Busquei terapia, pois em algum momento me coloquei no papel de vítima".

A executiva encontrou seu propósito: promover educação financeira para pessoas de baixa renda. "A ascensão social no Brasil demora nove gerações, enquanto nos países nórdicos esse tempo diminui para cinco. Temos de fazer algo para encurtar esse caminho. Queremos dar informações sobre dinheiro nas escolas, com tecnologia e inteligência artificial. Falar sobre isso precisa parar de ser um tabu".

Félix começou a trabalhar na Financier até que recebeu o convite para ser CEO. "Não estava preparada. Nós mulheres costumamos ser perfeccionistas. Pensei: não sei fazer. Mas resolvi encarar".  A equipe colocou a foto da nova líder nas redes sociais. A experiência, conta, não foi agradável. "Tive mais aceitação no Nordeste do que no Rio de Janeiro e em São Paulo. Cheguei a pensar em devolver o bastão, mas me concentrei no fato de que no Nordeste alguém ficou muito feliz com a minha conquista".

Monalisa Gomes

Formada em Ciências Contábeis, a executiva nasceu na periferia. Foi mãe solo jovem, mas teve uma rede de apoio e conseguiu continuar os estudos. "Me apaixonei por tecnologia. Não fiz uma universidade de elite, mas corri atrás para me desenvolver. Minha marra nos esportes e meu senso de competição ajudaram muito".

Gomes começou na área operacional, fazendo balancetes de pequenas empresas, que muitos funcionários recusavam. "Eu pensava que não era justo. Esses clientes pagavam mensalidades pelo serviço e também mereciam atenção".

Com o tempo foi crescendo até que se surpreendeu ao receber o convite para ser CEO. "Os funcionários brincaram que eu era a CEO que vim do povo. Cresci dentro da empresa, que me deu oportunidade por minha competência e resultados. Me posiciono, falo e bato na mesa se for preciso. Nunca aceitei me diminuir para caber em algum lugar".

Diante do convite para ocupar o cargo mais alto da companhia no país, o frio na barriga foi inevitável. "Eu era da área de finanças, conhecia o cenário da empresa, tinha experiência em diversas áreas e bloqueava os clientes por crédito. Mas a partir daquele momento eu também iria ter de falar com eles. Não me identificar com essa posição era natural: não havia com quem comparar. Não ver outras mulheres ou negras nessas posições era comum desde que entrei no mundo corporativo".

O caminho não foi fácil. A executiva conta que, por sua cor de pele, muitas vezes sua gerente de marketing, uma mulher branca, recebia mais atenção quando chegava para uma reunião do que ela. "Ela precisava apontar que a CEO era eu". Ao dirigir o carro da empresa, um modelo de luxo, Gomes conta que chegou a ser parada pela polícia na frente da própria empresa. "Sem contar as vezes nas quais achavam que eu era a motorista".

Por essas e outras situações a executiva verificou que poderia ser a primeira mulher a alcançar a liderança máxima da empresa, mas certamente não seria a última. "Quero influenciar pessoas e lideres a inserir propósitos igualitários em negócios. Enquanto a pauta não se transformar em prática, não tem resultado. A empresa que não se adequar está fadada a morrer. O consumidor está olhando para isso, o parceiro de negócios está, funcionários estão monitorando e investidores também. Dá para ser lucrativo, mas tem de ser sustentável e gerar impacto também".

 

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Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com


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