Criptoativos

Criptos pagam juros para captar recursos. Vale a pena?

PUBLICADO EM: 26.5.21 | 7H08
ATUALIZAÇÃO: 26.5.21 | 10H51
Não é só dos retornos fora deste mundo que alguns proprietários de bitcoin estão se gabando hoje em dia. É também do rendimento

Resumo do investidor

Não é só dos retornos fora deste mundo que alguns proprietários de bitcoin estão se gabando hoje em dia. É também do rendimento

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Da Redação

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Num momento em que as taxas de juros dos depósitos bancários convencionais estão no chão,  as empresas de tecnologia financeira estão oferecendo pagar aos proprietários de Bitcoin e de outras criptomoedas rendimentos percentuais de 2% a 6% por ano (Bloomberg/Bloomberg)

Não é só dos retornos fora deste mundo que alguns proprietários de bitcoin estão se gabando hoje em dia. É também do rendimento.

Num momento em que as taxas de juros dos depósitos bancários convencionais estão no chão – em muitos casos, abaixo de 0,5% –,  as empresas de tecnologia financeira estão oferecendo pagar aos proprietários de Bitcoin e de outras criptomoedas rendimentos percentuais de 2% a 6% por ano, e até mais em alguns casos. É possível depositar suas moedas com poucos toques num dos apps para celular destas empresas.

E qual o porém? Há vários, na verdade. Além do risco que você já está correndo por possuir cripto, os ganhos também são pagos em criptomoedas. Os preços dos tokens podem cair de valor facilmente e de modo tão acentuado quanto subiram no último ano, eliminando qualquer vantagem de rendimento que você esteja recebendo, caso você compare este valor com o que poderia ter lucrado investindo em dólares.

Além disso, você está essencialmente emprestando às empresas sua criptomoeda sem muitas das proteções que acompanham uma conta bancária, como a cobertura da Federal Deposit Insurance Corporation (órgão americano semelhante ao Fundo Garantidor de Créditos brasileiro).

“Banking on Crypto”

Algumas das empresas que vendem contas de rendimento têm sites cuja semelhança com um banco online é bem mais do que passageira. A criptocredora Nexo usa o slogan “Banking on Crypto” (“Eu aposto em cripto”, em tradução livre do inglês) e se gaba dos US$ 375 milhões de seguro que oferece em ativos de custódia.

O que essa política cobre, contudo, não é como o seguro da FDIC, que protege os poupadores de perdas. Em uma página separada em seu site, a Nexo diz que o seguro existe para proteger os usuários contra “crimes comerciais”, o que inclui “violações físicas e/ou de cibersegurança, e/ou roubo de funcionários”, e não perdas que podem ser resultantes das atividades de empréstimo da criptoinstituição.

Os rendimentos fazem parte de uma virada surpreendente no mercado de criptomoedas. O bitcoin e seus descendentes, como dogecoin, ether e inúmeros outros tokens, são frequentemente vistos como um modo de fugir do sistema financeiro estabelecido. Alguns “hodlers” (gíria cripto para detentores de longo prazo) são cautelosos com contas de rendimento, porque teriam de confiar ao serviço suas chaves privadas, as sequências alfanuméricas que concedem a quem as tiver o controle de um ativo digital.

Riscos nos bastidores

Mas, ao lado desse mundo, surgiu um mercado complexo e interconectado que se parece muito com uma versão mais selvagem de Wall Street — completa com derivativos financeiros, arbitragem, empréstimos e um exército de intermediários. Alguns já usaram o termo sistema bancário das sombras para a cripto.

Na extremidade inferior dos rendimentos estão os 2,05% pagos em bitcoin pela Gemini Earn. O produto é parte da bolsa de criptomoedas Gemini, fundada pelos gêmeos bilionários Tyler e Cameron Winklevoss. Depósitos feitos em uma conta da Earn deixam a Gemini e vão para outra empresa chamada Genesis, que por sua vez empresta a clientes institucionais e de alto patrimônio líquido. Esses clientes podem querer emprestar criptomoedas para negociações financeiras.

Por exemplo, um corretor pode querer encurtar uma criptomoeda, ou apostar que seu valor vai cair. Uma maneira de fazer isso é emprestá-la, depois vendê-la, embolsando a diferença caso o preço caia. Mas pedir empréstimos para grandes encurtamentos especulativos em cima de bitcoin é relativamente raro hoje em dia.

Outra razão para emprestar bitcoin poderia ser construir uma negociação de arbitragem que tire vantagem de discrepâncias nos preços de mercado. Algumas empresas e bolsas baseadas em criptomoedas também emprestam bitcoin para liquidez, como, por exemplo, para acelerar um pagamento em criptomoeda ou a liquidação de uma negociação.

Mas tudo isso está acontecendo nos bastidores. Clientes que depositam suas criptomoedas com a Gemini Earn, no fim das contas, têm de confiar que a Genesis está fazendo um bom trabalho examinando seus mutuários e controlando seu risco – e que a empresa está mantendo um balancete forte o bastante para pagar de volta os clientes da Gemini Earn, mesmo que algumas apostas deem errado.

“Em último caso, se algo der errado do lado dos mutuários, esse risco recai sobre a Genesis”, diz Roshun Patel, vice-presidente de empréstimos da empresa. “Desde o início até hoje, não tivemos um único caso de default ou perda de capital.” Ainda assim, como acontece com outros provedores de rendimentos de criptomoedas, a seção Dúvidas Frequentes do site da Gemini Earn nota que as contas não são seguradas pela FDIC.

A BlockFi, talvez a empresa de criptomoedas não-bancária mais visível, oferece hoje 5% em um depósito de até meio bitcoin e 2% em depósitos adicionais acima desse valor e até 20 bitcoins. (A um preço recente de cerca de US$ 44 mil por token, metade de um bitcoin é US$ 22 mil.) A empresa também depende principalmente de empréstimos para pagar seus depositantes, diz o diretor executivo e cofundador Zac Prince em um e-mail. Prince diz que a empresa também se envolve em sua própria corretagem.

Após a crise+financeira+de+2008" target="_blank" rel="noopener"> crise financeira de 2008, os legisladores dos EUA estavam tão preocupados com a ideia de bancos fazendo suas próprias negociações que restringiram a prática por meio da chamada Lei Volcker. A BlockFi não é um banco nem está sujeita a tais regulamentações, mas essa regra aponta para o fato de que a negociação pode ser arriscada. Prince diz que as atividades da empresa podem ser melhor descritas como “construção de mercado”.

Além de concessão e contração de empréstimos, a BlockFi administra plataformas para negociação de criptomoedas. “Por exemplo, quando um cliente de varejo ou institucional negocia com a BlockFi, ele está encarando a BlockFi diretamente na negociação, e nós não vamos corresponder o pedido antes de confirmá-lo para nosso cliente”, afirma Prince. Assim, a BlockFi pode potencialmente ganhar ou perder dinheiro se os preços mudarem depois da negociação.

Mas Prince diz que a empresa não está tentando fazer apostas na direção dos preços. “Tudo o que fazemos na BlockFi é dimensionado e gerido em relação a todas as considerações de risco”, diz ele, acrescentando que a empresa “manteve um histórico perfeito em ambientes de alta volatilidade do bitcoin” e que a “grande maioria” dos empréstimos da BlockFi são supercolateralizados –  o que significa que eles são apoiados por ativos que valem mais do que o empréstimo.

A Coinbase, maior bolsa de criptomoedas  dos EUA, não oferece um produto de rendimento para o bitcoin. Ela oferece rendimentos de apostas de até 6% para algumas criptomoedas menos conhecidas. Os rendimentos de apostas são outra coisa de outro mundo, e não têm paralelo próximo no resto do mundo das finanças.

Em uma criptomoeda baseada em participação, os proprietários podem permitir que alguns de seus tokens sejam usados no processo que verifica transações. Aqueles que o fizerem podem receber uma recompensa. A Coinbase faz a aposta e passa as recompensas para os clientes. Se isso tudo estiver soando um pouco chocante, o foco aqui é no equilíbrio do risco-chave: para conseguir um lucro gordo, é preciso apostar em uma criptomoeda na qual você normalmente não teria interesse, com um futuro no mínimo tão incerto quanto o do bitcoin.

Segurança dos bancos

Antoni Trenchev, cofundador e sócio-gerente da Nexo, engrossa o coro de muitos entusiastas das criptomoedas ao descartar a segurança dos bancos. “Quando você tem um depósito bancário tradicional, o valor padrão do seguro de depósito é de até US$ 250 mil nos EUA e de até € 100 mil na UE; acima disso, você está por conta própria”, escreveu Trenchev em um e-mail para a Bloomberg.

“Essa sensação de segurança, de que os depósitos estão a salvo e protegidos acima desses valores nos bancos tradicionais, tem origem em grande parte na percepção de que os bancos são instituições sólidas e confiáveis.” Trenchev disse que pode-se confiar na Nexo porque os empréstimos da empresa são supercolateralizados.

No entanto, muitos bitcoiners dedicados continuam desconfiados com relação às contas de rendimento de criptomoedas de modo geral. Dan Held, investidor em bitcoin de longa data, escreve um relatório mensal sobre o estado do mercado de rendimento do bitcoin. Held diz que deposita uma pequena porcentagem de suas participações em bitcoin em contas com juros, mas que aconselha seus leitores a ter cautela. “Nunca arrisque toda a sua pilha, e não arrisque o que você não pode perder”, diz ele. “Estas são empresas privadas sem apoio federal.”

Alguns apps oferecem rendimentos ainda maiores se você aceitar o pagamento no próprio token personalizado da empresa. Held diz que evita isso. “Não há razão para você precisar de um token, já que ele introduz um risco regulatório e estrutural”, escreveu ele em seu relatório de rendimento de março.

Para ter uma ideia do que pode dar errado, considere o caso da financiadora de criptomoedas Cred. Ela pediu falência em novembro, depois que um executivo foi acusado de ter se apropriado indevidamente de pelo menos 225 bitcoins. Por causa de histórias como essa, Brandon Quittem, diretor de aquisição de usuários no Swan Bitcoin, um app que automatiza compras regulares de bitcoins, apela aos hodlers que abram mão de ir atrás de juros.

“O precedente histórico é que os depositários explodem”, disse Quittem. Depositário é qualquer um que guarde sua criptomoeda sem ser você. “Os bitcoiners têm um pouco de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) dos depositários, mas, para ser justo, nós melhoramos muito em termos de bolsa e de depositários.”

Para Quittem, a ideia de arriscar o bitcoin – ativo que teve um crescimento anualizado de cerca de 200% ao longo de uma década – para pagamentos de juros de um dígito não vale a pena. “Por que eu assumiria um risco adicional para buscar um rendimento?”, diz ele. “Acho que a emoção em torno desses produtos não faz muito sentido. Não acho que o varejo entenda o risco aqui.”

Parker Lewis, diretor de desenvolvimento de negócios da empresa de serviços financeiros em bitcoin Unchained Capital, alerta que não se deve emprestar mais de uma pequena porcentagem de suas participações, e diz que metade dos clientes da Unchained indica que jamais emprestaria seu bitcoin. (A empresa está trabalhando em seu próprio produto de empréstimo destinado a resolver preocupações sobre a custódia e transparência do risco.)

Para empresas de fintech e corretores institucionais, o bitcoin pode ser só mais um ativo para contração, cessão de empréstimos e apostas. Para muitos bitcoiners, é um ativo precioso que eles acreditam firmemente que possa dominar o mundo. “Se você decidir fazer um empréstimo em bitcoin”, diz Lewis, “é melhor ser capaz de quantificar os custos, porque vai estar negociando a maior assimetria que já existiu para  contraparte e o risco de crédito.”    

Tradução por Fabrício Calado Moreira

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