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Danone: qual é o limite da agenda ESG?

PUBLICADO EM: 26.3.21 | 7H07
ATUALIZAÇÃO: 13.4.21 | 17H26
Ricardo Vasques, CEO da companhia no Brasil, explica como manter a agenda ESG em meio à pressão de investidores por resultados: uma coisa não exclui a outra

Com a certificação da divisão brasileira, metade do faturamento global da Danone passa a ser certificado pelo B Lab. A empresa é a maior empresa B do mundo

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Rodrigo Caetano

Repórter ESG| rodrigo.sabo@exame.com



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Na semana passada, a divisão brasileira da Danone, uma das maiores empresas de alimentação do mundo, concluiu o processo de certificação e se tornou uma “empresa B”. Exigente, o selo de “B Corp” é, atualmente, a mais alta comenda que uma empresa sustentável pode alcançar. A chancela é concedida pelo Sistema B, modelo de análise de impacto das empresas desenvolvido pela organização sem fins lucrativos B Lab, dos Estados Unidos. Com a certificação da divisão brasileira, metade do faturamento global da Danone passa a ser certificado pelo B Lab.

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O feito brasileiro foi concluído em um momento conturbado na matriz. Na segunda-feira, 15, a companhia anunciou a substituição do seu presidente e CEO, Emmanuel Faber, após pressão de investidores por melhores práticas de governança. A gestão de Faber, que assumiu em 2014, foi marcada por um forte investimento no posicionamento da marca como sustentável, resumido pelo slogan “One Planet, One Health” (um planeta, uma saúde).

Ao que parece, apesar da bem-sucedida campanha para posicionar a empresa na liderança da transformação promovida pelo capitalismo de stakeholder, modelo que prega a substituição do lucro pelo propósito social como a principal meta de uma companhia, os investidores mais ativistas ficaram insatisfeitos com os resultados apresentados.

Para Ricardo Vasques, CEO da companhia no Brasil, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. “A troca no comando não tem reflexo na estratégia de sustentabilidade”, afirmou o executivo à EXAME. “Foi uma decisão do conselho, talvez motivada por um impacto econômico ruim, mas não há nenhuma revisão de investimentos.”

De fato, globalmente, a Danone foi mais afetada pela pandemia do que suas concorrentes, em especial a Nestlé. Em 2020, o faturamento caiu 1,5%, para 23,62 bilhões de euros, e o lucro líquido ajustado, que exclui itens excepcionais, caiu 13%, para 2,19 bilhões. Nos 12 meses anteriores à troca de comando, as ações da companhia acumulavam alta de quase 20%. Porém, seu valor de mercado chegou a cair 25% no ano passado. A estimativa é que a Danone perdeu 1 bilhão de euros em vendas durante a pandemia.

A disputa entre Faber e os acionistas ativistas, em especial os fundos Bluebell Capital e Artisan Partners, já vinha de meses. Faber era um grande entusiasta do capitalismo de stakeholder e uma das mais proeminentes lideranças ESG do mercado. No ano passado, os acionistas da Danone aprovaram uma mudança no status legal da empresa, que colocou o propósito como a razão de existir da companhia.

Naquele momento, Faber afirmou que a empresa estava “tombando a estátua de Milton Friedman”, uma referência ao ganhador do Prêmio Nobel de Economia que cunhou a expressão “o lucro é a principal meta de uma companhia”, em um artigo publicado no jornal The New York Times, nos anos 70.


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A dança das cadeiras na alta administração acontece menos de um mês após Faber afirmar que deixaria o posto de CEO da companhia, e passaria a ocupar apenas a cadeira principal no conselho de administração. A decisão, porém, desagradou acionistas, que vinham defendendo a saída definitiva de Faber desde então.

Em comunicado, a empresa afirmou que a decisão parte da percepção do Conselho de que há a necessidade de “combinar alto desempenho econômico e o respeito ao modelo único da Danone, uma empresa voltada para um propósito”.

No lugar de Faber no conselho administrativo entra Gilles Schnepp, enquanto Veronique Penchienati-Bosetta, CEO internacional da Danone, e Shane Grant, CEO da empresa para a América do Norte, vão atuar em conjunto na presidência da empresa. A liderança compartilhada será uma transição enquanto a empresa busca um novo CEO.

De acordo com a agência Reuters, a Artisan Partners, terceira maior acionista da Danone, e a Bluebell Capital, investidora com foco em ESG (sigla para critérios sociais, ambientais e de governança) pediram que Faber saísse, defendendo publicamente Schnepp. À época, os investidores afirmaram que Schnepp, um ex-CEO da empresa francesa de materiais elétricos Legrand, seria um presidente “verdadeiramente independente”.

A estratégia da Danone está baseada na ideia de que o consumo vai mudar radicalmente. Segundo Vasques, ser uma empresa B, por enquanto, não traz muito benefício para os negócios em termos de percepção de marca pelos consumidores. “Em pesquisas, menos de 20% dos entrevistados sabem o que é a certificação”, afirma. “Na Europa, essa percepção é maior e a forma como a empresa atua faz diferença nas vendas, no Brasil, essa relação não é tão direta.”

Com o tempo, no entanto, atuar de maneira correta social e ambientalmente será não apenas um diferencial, mas uma exigência para empresas de alta performance. Mas por que, então, existem poucas grandes empresas certificadas pelo Sistema B? Além da Danone, outra multinacional que se destaca é a Natura, mas, de forma geral, são companhias de menor porte que conseguem a certificação.

“É um processo complicado. São muitas exigências, que abrangem não apenas a empresa, mas também a cadeia”, diz Vasques. Foram necessários três anos de trabalho para a divisão brasileira conseguir a certificação.

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Ricardo Vasques, CEO da Danone: “A troca no comando não tem reflexo na estratégia de sustentabilidade” (Danone/Divulgação)

Autonomia regional

Mas, se as turbulências na matriz acendem um sinal de alerta para investidores, no Brasil, Faber se mostra despreocupado. “Uma das características marcantes da gestão da Danone é a autonomia das regionais”, afirma. Por aqui, a marca tem investido em diversas ações sustentáveis. Neste ano, já lançou um programa para ajudar profissionais de educação física a ter uma renda extra.

A empresa também se envolveu em uma iniciativa para acelerar startups de economia circular e, no ano passado, aboliu os rótulos de algumas garrafas da marca Bonafont, de água, medida que deve retirar do mercado 1 bilhão de vasilhames plásticos até 2025, por meio da reciclagem. Em 2020, a Bonafont se tornou “plástico positivo”, ou seja, recolheu e reciclou 100% do plástico que colocou em circulação.

Atualmente, ser uma empresa é uma forma de garantir o padrão de atuação, segundo o CEO. “Mas, em breve, será um diferencial. E quando isso acontecer, os concorrentes vão ter de correr atrás”, diz Vasques. Então, será a hora de partir para um padrão ainda mais exigente de atuação responsável. O desafio de ser uma empresa ESG é que a transformação dos negócios, na realidade, nunca termina. Talvez isso que bote medo nos investidores.

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