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Ela fez auditoria racial no Facebook e está prestes a ficar muito ocupada

PUBLICADO EM: 16.8.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 16.8.21 | 9H30
Laura Murphy ajudou a empresa de Zuckerberg a criar um plano para acabar com o racismo, mas um grupo de ativistas diz que nenhuma recomendação é cumprida

Laura Murphy passou a maior parte de sua carreira navegando em política e políticas econômicas, mas recentemente ela levou seu talento para o mundo corporativo

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Laura Murphy passou a maior parte de sua carreira navegando em política e políticas econômicas, mas recentemente ela levou seu talento para o mundo corporativo (Greg Kahn/BLOOMBERG BUSINESSWEEK)

Quando dirigiu o escritório do grupo de defesa dos direitos civis American Civil Liberties Union em Washington (D.C.), Laura Murphy manteve relacionamentos com pessoas de todos os lados de temas polarizados. “Você entra nesses escritórios variados e Laura é recebida como amiga, colega e parceira, seja por Maxine Waters, Rand Paul ou Mitch McConnell”, diz Anthony Romero, diretor executivo da ACLU. "Esse é o poder secreto dela."

Murphy passou a maior parte de sua carreira navegando em política e políticas econômicas, mas recentemente ela levou seu talento para o mundo corporativo, moderando conflitos entre empresas e ativistas que criticam o impacto causado por elas na justiça racial e social. Ela vem emergindo como pioneira na auditoria de direitos civis corporativos, uma nova ferramenta para fazer as empresas confrontarem seu papel na perpetuação das disparidades raciais.

A ideia por trás das auditorias é simples: Uma empresa pede a um especialista para investigar o impacto que seus produtos, práticas de contratação ou políticas têm sobre populações vulneráveis, e depois torna públicos os resultados da apuração. “Este é um momento de envolvimento sério com os problemas mais importantes”, disse Murphy em entrevista em seu escritório no Conselho Nacional das Mulheres Negras (National Council of Negro Women). “Uma vez que você concorda em abordar as preocupações das partes interessadas e os auditores as priorizam para você, não há muito espaço de manobra. Você tem de fazer o que está lá."

O maior cliente de Murphy até hoje, o Facebook, está testando essa hipótese. Ela passou dois anos realizando uma auditoria no Facebook, e tanto a empresa quanto os críticos mais severos da gigante de tecnologia elogiaram seu trabalho. Porém, em junho, quase um ano depois de seu relatório, o grupo de direitos civis Color of Change lançou uma petição digital dizendo que o Facebook “continua se recusando a adotar a grande maioria das recomendações” e exigindo que as cumpra. Os críticos do Facebook podem fazer pouca coisa para forçar a empresa a avançar no tema.

Embora alguns possam olhar para isso e concluir que as auditorias raciais não têm sentido, os ativistas estão tentando ampliá-las. Nos últimos três meses, tanto o Google, da Alphabet, quanto a Amazon têm se visto diante de novas cobranças para que façam auditorias de igualdade racial. O Service Employees International Union (Sindicato dos Empregados de Serviços Internacionais) e o SOC Investment Group, que trabalha em reformas favoráveis para os funcionários em parcerias com fundos de pensão patrocinados por sindicatos, estão apoiando propostas de acionistas para auditar pelo menos oito instituições financeiras. Murphy está trabalhando em um white paper (termo em inglês que define artigo técnico) para a Fundação Ford sobre como conduzir auditorias de direitos civis com sucesso, que ela espera publicar ainda neste ano.

O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, um alvo do SOC, disse durante audiência no Congresso em maio que as auditorias significavam "burocracia e besteira". Outros bancos disseram que as auditorias eram desnecessárias, uma vez que já doam dinheiro para organizações focadas em comunidades vulneráveis e tornam públicas suas políticas antidiscriminação, segundo Tejal Patel, diretor de governança corporativa da SOC.

Uma chave para o trabalho de Murphy é a credibilidade que vem de uma vida inteira dedicada a trabalhar pelos direitos civis. Natural de Baltimore, ela nasceu em uma família de ativistas. Seu pai, William, foi juiz e fundou um escritório de advocacia que trabalhava em casos célebres de igualdade racial, e sua mãe, Madeline, foi uma ilustre ativista municipal e candidata política. Murphy mergulhou de cabeça nos negócios da família, quando começou sua carreira trabalhando para os ex-deputados democratas Parren Mitchell e Shirley Chisholm - a primeira mulher negra eleita para o Congresso -, antes de partir para a ACLU.

O trabalho de Murphy em auditorias corporativas teve início em 2016. Vanita Gupta, amiga e hoje procuradora-geral associada dos EUA, disse a ela que a plataforma de aluguel de curto prazo Airbnb estava procurando um consultor para questões de igualdade racial após um estudo de Harvard que revelou que os anfitriões eram menos propensos a aceitar hóspedes com nomes que soassem como de negros. Ela concordou em trabalhar com a empresa.

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Os ativistas queriam que o Airbnb parasse de mostrar fotos das pessoas que pediam quartos, eliminando a oportunidade de discriminação. Murphy apresentou o argumento deles sem endossá-lo. O Airbnb se recusou a remover as fotos dos hóspedes no início, mas no fim acabou fazendo-o. “Não acho que os grupos de direitos civis conseguiram tudo o que pediram inicialmente, mas acho que conseguiram muita coisa ao longo do tempo”, diz Murphy.

Dois anos depois, o Facebook trouxe Murphy para se concentrar em questões relacionadas à moderação de seu conteúdo. Desde o início, houve sinais de resistência. No início, Murphy trabalhou com o escritório do Facebook em Washington, em vez de com a diretoria da empresa, o que na prática sinalizou para os outros escritórios que não precisavam dar prioridade ao trabalho dela. O Facebook também não se comprometeu de imediato a tornar públicos os resultados da auditoria, o que provavelmente ameaçaria mandar todo o propósito da iniciativa por água abaixo.

Eventualmente a empresa colocou sua diretora de operações, Sheryl Sandberg, no comando, o que melhorou o acesso de Murphy. Também prometeu divulgar publicamente os resultados da auditoria - decisão que o Facebook não anunciou até estourar a notícia de que a gigante de tecnologia havia contratado uma empresa de relações públicas que estava pedindo aos repórteres que examinassem as conexões entre a Color of Change e o investidor bilionário George Soros.

Durante o processo de auditoria, Murphy moderou o conflito entre o Facebook e seus críticos. No final de 2019, à medida que os ativistas ficavam cada vez mais em pânico com a desinformação relacionada ao censo que se aproximava, o CEO Mark Zuckerberg fez um discurso enfatizando a importância da liberdade de expressão, ênfase que carregava uma rejeição implícita de dar prioridade ao combate à desinformação. Pouco antes do discurso, vazou a notícia de que Zuckerberg havia conversado com conservadores de destaque sobre o assunto em particular, irritando grupos de direitos civis que não tiveram direito a um encontro pessoal.

Murphy convenceu os executivos do Facebook a se sentar com os grupos. Em 4 de novembro de 2019, Zuckerberg foi o anfitrião de alguns líderes no escritório principal do Facebook e, em seguida, jantou com um grupo estendido em sua casa em Palo Alto. Antes disso, Murphy treinou cada lado sobre como tirar o máximo proveito do confronto. Ela alertou os assessores de Zuckerberg para que levassem a sério os líderes dos direitos civis, lembrando-os de que eles representavam milhões de usuários do Facebook. Ela aconselhou os convidados do jantar - alguns deles amigos de longa data - a identificar alvos específicos em vez de transformar a noite em uma exposição não-estratégica de queixas.

Já nos escritórios do Facebook, ativistas pressionavam a empresa em postagens sugerindo que o censo iria compartilhar os dados dos entrevistados com as autoridades de imigração. Zuckerberg recuou, segundo duas pessoas a par do assunto, apresentando um cenário hipotético de uma imigrante que expressou temor de expor sua condição de cidadã ao participar do censo. Ela deveria de fato ser silenciada? Os ativistas chamaram o argumento de uma manobra para desviar o assunto. No mês seguinte, o Facebook abordou as preocupações dos ativistas banindo postagens afirmando que a participação no censo poderia ter consequências para o cumprimento da lei.

Os ativistas elogiaram a empresa - e Murphy - pela mudança. Os críticos tiveram menos sucesso em mudar a postura do Facebook de não se envolver diretamente em discursos enganosos de funcionários públicos. Ao longo de 2020, o presidente Donald Trump usou as mídias sociais para questionar a legitimidade da votação pelo correio, lançando as bases para sua futura rejeição dos resultados eleitorais. Ativistas argumentaram que Trump estava violando a política do Facebook contra declarações falsas sobre os “métodos de votação ou registro eleitoral”. O Facebook discordou.

Murphy divulgou sua auditoria em julho de 2020, criticando nominalmente a empresa por permitir o comportamento de Trump. Em janeiro, o Facebook suspendeu Trump de sua plataforma após o motim do Capitólio. Também contratou Roy Austin, um ex-funcionário do Departamento de Justiça dos EUA no governo do presidente Barack Obama, para formar um time para supervisionar sua política de direitos civis. A equipe tem hoje oito membros.

O trabalho de Murphy fez uma grande diferença, segundo Sandberg. “Havia um monte de coisas que Laura de fato acreditava que fôssemos capazes de fazer, e de fazer depressa”, diz ela. “Houve algumas coisas que nós conseguimos fazer mais lentamente. Algumas coisas não funcionaram, mas nós não tivemos problema em permitir que ela tivesse uma voz plena e honesta.”

Alguns grupos de direitos civis dizem que a punição de Trump pela empresa é insuficiente, argumentando que ele deveria ser banido de modo permanente, e acusam o Facebook de adotar uma abordagem perigosamente acanhada quanto ao conteúdo nacionalista branco e racista. Porém, mesmo que uma auditoria não possa forçar suas recomendações, ela pode tornar as mudanças mais prováveis ao longo do tempo, diz Jessica González, co-CEO do grupo de reforma da mídia Free Press. “O valor da auditoria é uma memorialização de quais eram os desafios em um determinado momento”, diz ela. “Isso é útil à medida que compreendemos: quais são os tipos de coisas sobre as quais queremos pressionar o Facebook? Quais são os tipos de coisas que queremos remediar por meio da legislação?”

Tradução por Fabrício Calado Moreira

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