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ESG

Empresas precisam informar seus riscos climáticos, afirma Denise Pavarina

PUBLICADO EM: 20.11.21 | 7H00
ATUALIZAÇÃO: 21.11.21 | 10H55
Executiva é uma das líderes de força-tarefa global para promover acesso e criar métricas para o impacto climático das companhias, permitindo a comparação pelo investidor

Pavarina: investidor brasileiro está atrasado na prática de exigir dados de impacto climático das empresas | Foto: Leandro Fonseca/EXAME

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Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com



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Ainda há um caminho a seguir até que investidores consigam saber qual empresa está melhor posicionada para enfrentar, de fato, desafios ambientais, sociais e de governança, que compõem a sigla ESG.

Mas, pelo menos em relação ao risco que mudanças climáticas representam para cada negócio, será possível ver novidades em balanços já a partir do ano que vem. É o que afirma Denise Pavarina, profissional experiente no mercado financeiro que está à frente da TCFD (sigla para Task Force on Climate-Related Financial Disclosures) ao lado do magnata e filantropo Michael Bloomberg e de outros executivos. Pavarina também é conselheira da BR Partners e do Hospital Care Caledonia e foi presidente da Anbima e diretora-executiva do Bradesco.

O objetivo da força-tarefa, segundo a executiva, que é vice-presidente do conselho, é orientar sobre o impacto financeiro que o risco climático traz para as empresas. Ao incentivá-las a apresentarem esses riscos de maneira semelhante, será possível realizar comparações. "Não queremos apenas informar, mas criar métricas úteis. Se os dados não são comparáveis, não há como a instituição financeira saber se está realizando a melhor alocação de capital."

Veja abaixo a entrevista completa concedida pela executiva à EXAME Invest:

O número de empresas que passaram a reportar informações orientadas pela TCFD cresceu 9%. Como está o processo de criação de métricas ESG para facilitar a comparação das empresas para o investidor?

É natural que a conscientização cresça ao longo do tempo, mas a pandemia acelerou esse processo. É ainda pouco, há um caminho a seguir. Mas o que percebemos é que pelo menos metade das empresas que assinam o apoio já tem uma discussão interna sobre como disponibilizarão esses dados.

Quando falamos sobre governança, estamos falando sobre discussões estratégicas, sobre tudo que irá tornar a empresa mais resiliente. E o risco climático precisa estar incluído nessa discussão, assim como questões sociais e todas as outras que envolvem a sigla ESG.

A força-tarefa criou instruções que os países estão adotando e tornando obrigatórias. No Brasil, o Banco Central aprovou em setembro as recomendações da força-tarefa. A autarquia criou formulários para facilitar os três pontos do ESG, incluindo a questão climática.

Esses passos são importantes porque o sistema financeiro é um agente indutor. O Banco Central recolhe informações das empresas e as empresas vão exigi-las de fornecedores, levando a prática para toda a economia. É um processo positivo porque é uma questão de responsabilidade e sobrevivência.

Os riscos já estão na nossa porta. Um exemplo é a crise hídrica, que provoca tanto secas como enchentes. Há muitos problemas e a empresa precisa se preparar para eles. Especialmente o Brasil, que é muito forte no agronegócio, setor no qual esses riscos são relevantes.

O Brasil chega com atraso à discussão?

O BC foi pioneiro e chega à discussão de maneira tempestiva. Do ano passado para cá, oito jurisdições tornaram essas regras obrigatórias. O Brasil não está atrasado.

Contudo os investidores brasileiros estão [atrasados] e precisam acelerar um pouco as exigências. O processo de governança disseminado no Brasil foi trazido pelos investidores internacionais. Esse processo está mais acelerado lá fora.

Já as empresas precisam de informações que estão em bancos de dados. Temos muitos, mas eles começam a ser consolidados agora, de forma que a empresa possa acessá-los de maneira padronizada. Soltamos alguns papers para orientá-las e um dos que aprofundamos tratam de métricas e objetivos. Também publicamos orientações sobre implantação de um plano de transição para reduzir emissões.

A questão do preço do carbono é muito importante nesse processo. Quando você estabelece esse valor é possível criar um padrão de financiamento para as transformações que precisam ser feitas. Se tem excedente, a empresa pode vender. E dessa forma todo mundo fala da mesma unidade. Daí começa a acelerar o processo de informação.

No momento em que um país assume compromissos ambientais, espera-se que tome decisões afirmativas para levar empresas a assumirem também. As empresas precisam ter um plano para que investidores possam saber onde estão e que investimentos precisarão fazer para chegarem à meta.

Há uma situação chegando e é obrigação do sistema financeiro se preparar e fazer empresas se preparem para continuarem competitivas e capitalizadas. Precisamos provocar clientes, investidos e segurados a estarem prontos para o que vem por aí. Essa é a nossa grande missão e força.

Já existem cases brasileiros de empresas que reportam essas informações?

Temos empresas muito boas que provavelmente estão se organizando para disponibilizar essas informações, mas poucas ainda estão publicando. É um processo. Algumas empresas estão trabalhando nisso há alguns anos e estão a caminho de começar. Isso pode começar a acontecer a partir do ano que vem.

Vejo empresas preocupadas, se envolvendo e buscando aprender sobre o tema com ações. É um caminho inexorável. Cada um vai fazer a seu tempo, de acordo com a maturidade. Mas é uma realidade. Falávamos disso há quatro anos e parecia projeção apocalíptica. Mas hoje talvez não seja.

Agora enfrentamos uma crise hídrica. No ano que vem esse cenário pode voltar à normalidade. Mas e se mudar definitivamente? Imagine as consequências. Podem ocorrer migrações em massa de um país para outro por causa da mudança de clima. Por isso precisamos informar os riscos de maneira concreta.

Como analisa a evolução dos conselhos de administração? Vemos uma quantidade importante de mulheres, mas em empresas menores e negócios com público majoritariamente feminino.

A evolução dos conselhos nos últimos 15 anos foi grande. Especialmente de dois anos para cá entramos em outro patamar. Percebo que essa evolução acontece em degraus: existem saltos. Mas ainda não chegamos a um padrão de excelência.

É um caminho longo. Existem temas complexos para as empresas brasileiras, que ainda são jovens no mercado de capitais e no exercício de governança. Muitos empresários estão buscando auxílio para compor conselhos, tentando fazer como se deve. Mas muitos ainda querem indicar quem confiam. Não dá para se iludir.

Quando olhamos para a diversidade, há uma pressão do mercado, principalmente de investidores internacionais, para que haja mais mulheres nos boards. Faço parte do WCD (Women Corporate Directors, organização global que incentiva a diversidade nos conselhos) e temos visto uma quantidade importante de mulheres nesses ambientes, algo que não víamos três anos atrás.

Não vejo problema que as mulheres iniciem sua experiência em conselhos de empresas menores e com negócios mais femininos. Uma das alegações que homens fazem para não indicar mulheres nos boards é a falta de experiência. Portanto, temos de eliminar esses argumentos. Eles chegam a ser vieses inconscientes. Afinal, o homem inexperiente um dia teve de começar em algum conselho. Ninguém nasce em um.

Muitas mulheres estão fazendo cursos de conselheira e é bom exercitar a formação em empresas nas quais a experiência é mais intensa. Em grandes empresas o conselho é muito organizado. Há uma dedicação importante dos conselheiros, mas uma empresa menor precisa de muita ajuda, pois a estrutura de governança está no início. Nela o conselheiro aprende e participa mais porque o ambiente é mais desafiador.

Ao participar de conselhos menores, a mulher logo será chamada para outros porque ganhou experiência. Não me apego à estatística, mas ao conteúdo. Olho o copo meio cheio.

Já participei de conselhos de empresas grandes e de empresas em crescimento. É gratificante fazer a diferença. O conselho da B3, por exemplo, é muito bem estruturado. Ajudávamos muito, mas tem esse limite. Já quando a empresa está buscando financiamento você tem de estudar mais. Isso traz consistência e robustez para a vivência.

Acho importante mulheres que já estão em conselhos de administração indicarem outras mulheres para a posição. Eu mesma já fui indicada por mulheres e indico outras. A mulher tem que fazer esse papel. É parte da nossa missão ajudar profissionais competentes e capacitadas a terem acesso a oportunidades.

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Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com


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