Mulher é mais conservadora para investir? Não é bem assim, diz Carol Sandler | Exame Invest
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Mulher é mais conservadora para investir? Não é bem assim, diz Carol Sandler

PUBLICADO EM: 19.2.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 19.2.21 | 11H19
Escritora e fundadora do portal Finanças Femininas diz que base de conhecimento sobre investimentos das mulheres ainda não permite comparação sobre disposição ao risco

Influencer aponta que lidar melhor com dinheiro pode ajudar a sair de um relacionamento abusivo e até ser um incentivo para negociar aumento

Marília Almeida

Repórter da Exame



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Carol Sandler acompanha de perto a evolução das mulheres como investidoras há pelo menos oito anos. Ela fundou, em 2012, o portal Finanças Femininas e, naquela época, diz que se sentia como se "vendesse casaco de pele no deserto".

"Eu tentava falar com mulheres sobre dinheiro e elas diziam que não queriam, não precisavam e que era o marido ou o pai quem cuidava do assunto. Havia muita insegurança: diziam que não sabiam lidar com o assunto, que eram ruins de matemática e nunca tinham aprendido nada sobre o tema", afirma em entrevista à EXAME Invest.

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Do outro lado do balcão também havia pouco interesse em lidar com o problema. "Eu conversava com as instituições financeiras e ouvia que as mulheres representavam apenas 20% da base de investidoras e não fazia sentido pensar em uma ação só para elas".

O cenário mudou. E dos dois lados.

As mulheres evoluíram no interesse. "Nos últimos três anos, em reuniões, comecei a ser olhada com interesse tanto pela recepcionista do prédio, quando dizia qual empresa eu represento, quanto pela executiva, que me puxava de canto no final do evento para contar algum problema financeiro e perguntar como poderia solucioná-lo."


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Ou seja, independente de formação acadêmica e da posição no trabalho, conclui Sandler, caiu a ficha das mulheres de que falar sobre dinheiro é fundamental. "Não é para ser papo de homem ou mulher, mas, sim, de todos."

A visão das instituições financeiras também progrediu. Agora, Sandler conversa com bancos e corretoras que apontam que a mulher ainda representa 20% da base, mas assumem que precisam direcionar ações para elas.

Leia abaixo a entrevista completa da influenciadora para o EXAME Invest:

Existe uma abordagem sobre investimentos para a mulher? Ou apenas uma questão de se sentir à vontade com uma interlocutora que também seja mulher?

Existe. Tenho várias amigas, colegas e influencers que trabalham com finanças. E todas me dizem: meu público é 70% masculino, que é um número parecido com o de um canal tradicional. Elas achavam que por serem mulheres iam quebrar uma barreira, mas não é só isso. E também não é so pintar de rosa e falar que é para menina. É necessário entender as várias realidades da mulher, suas dores, dificuldades, sonhos e que têm uma história com o dinheiro completamente diferente da do homem.

A mulher nunca foi ensinada a lidar com dinheiro. A minha geração cresceu vendo a Cinderela e a Bela e a Fera, esperando ser salva pelo príncipe encantado para resolver algum problema. Isso é simbólico da nossa cultura, o quanto aprendemos que carreira e dinheiro não são assuntos para a mulher. Quando se fala sobre dinheiro para mulheres costuma haver uma infantilização que a mantém em seu papel como consumidora.

Apenas no final dos anos 60, com o movimento feminista e a pílula, que a mulher consegue começar a fazer um planejamento e ter uma conta bancária sem autorização do pai ou marido. Então, cuidar do dinheiro é uma novidade em termos histórico para a mulher. Como o padrão de vida das grandes sociedade aumentou muito, a renda da mulher não serve mais apenas para comprar "coisinhas". Agora, uma família precisa do dinheiro da mulher.

Como você foi educada financeiramente?

Meu pai trabalhava no mercado financeiro. Além disso a minha avó empreendeu nos anos 70 e segue trabalhando com 87 anos ao lado da minha mãe. Então, aprendi muito em casa.

Sempre fui ensinada que não deveria depender de homem nenhum na vida. Não importa se meu pai fosse rico ou pobre, se eu fosse casada ou não. Então tive uma formação muito rara para a minha geração.

Pesquisas apontam que a mulher tem um menor apetite para o risco. O que favorece e não favorece a mulher quando se trata de investimentos?

A história de que a mulher é conservadora é um mito. As mulheres não têm a mesma base de conhecimento dos homens, então é impossível pensar que vão ter o mesmo apetite ao risco. Só quando tiverem a mesma base de conhecimento será possível verificar se o comportamento em relação ao risco será de fato diferente.

Aprendi que conhecimento gera confiança e confiança gera ação. Em grupos de mentoria que monto vejo mulheres dizendo que morrem de medo de investir. A sensação é que a mulher tem uma lupa quando olha para o risco: o medo de perder tudo é muito grande. Mas no momento em que você explica, a reação de todas é: quero essa carteira agressiva, quero brincar de verdade. Em um mês e meio, elas já perguntam como é possível avaliar se vale a pena entrar em um IPO.

Portanto, a transição é rápida, e vai acontecer cada vez mais rapidamente com a educação financeira popularizada do jeito que está, com acesso. Temos um boom de canais sobre o assunto.

O que a mulher precisa entender para buscar autonomia? A dependência financeira pode ser perigosa?

A educação financeira é uma ferramenta para empoderamento econômico e social da mulher. Uma pesquisa americana mostra que 98% dos casos de abuso doméstico incluem também um abuso financeiro ou patrimonial. O argumento utilizado pelo homem é sempre muito semelhante. "se você me deixar, vai ficar com uma mão na frente e outra atrás, vou tirar o seu filho de você porque você não vai ter condição de sustentá-lo."

Cansei de receber emails nos quais as mulheres perguntam como fazer para que possa se separar em dois anos. Isso quando não há violência. Quando existe violência a situação se torna mais aguda. Não é que com dinheiro no bolso ela vai se sentir confortável para sair de um relacionamento abusivo, mas ajuda muito. Nessas situações ela costuma ficar em casa ou até trabalha, mas nunca cuidou do dinheiro, sempre gastou. Então, não sabe como bancar seu atual padrão de vida.

E o exercício que passo é simplesmente fazer toda as contas. Quanto ela gasta com ela, a casa, criança. E entender que vai precisar gastar menos. Muitas vezes ela acaba preferindo ter uma vida mais simples , sair do relacionamento e construir novamente um padrão de vida melhor.

Mas um relacionamento abusivo é só um aspecto de como a educação financeira pode fazer diferença na vida de uma mulher. Uma pesquisa aponta que o principal motivo para uma mulher não negociar um aumento é a instabilidade financeira. Isso porque ela pensa que vai perder o emprego se chefe dizer não. Então, há um instinto de sobrevivência. Caso tenha uma reserva financeira ela não vai ficar no trabalho com a percepção de que não está sendo remunerada de acordo. Isso tira a sua insegurança.

Quais as dúvidas mais comuns das mulheres quando se trata de investimentos, e como resolvê-las?

O que mais recebo é: estou perdida e não sei por onde começar. Um estudo do UBS de 2019 apontava que 90% das brasileiras acreditavam que marido sabia mais do que ela sobre planejamento financeiro. Como dona de casa, a mulher sempre foi muito boa na gestão financeira de curto prazo. Mas quando se trata de planejamento futuro e aposentadoria, há muitas dúvidas.

A cilada é ficar presa nos próprios medos e convicções sem conseguir dar um passo além. Para isso ela tem de encarar a sua realidade financeira, que é desconfortável, e começar a estudar. Por isso que tem de ter também uma mensagem de empoderamento. O que move o homem é a rentabilidade, mas o que move a mulher é o desejo de ter independência e autonomia. São duas conversas completamente diferentes.

Existe uma crença entre as mulheres de que vão precisar estudar muito, ler muitos livros. É a síndrome da boa aluna: tem de tirar nota 10 antes de começar. Isso porque a sociedade cobra perfeição da mulher em todos os aspectos. Então é necessário quebrar o paradigma. Afinal, a mulher ganha menos, entende menos e tem menos tempo disponível.

Para começar, ela precisa apenas adotar alguns hábitos e colocar o dinheiro no Tesouro Selic, que rende mais do que a poupança. Algumas têm reservas de emergência grandes, de dois anos, por insegurança. Precisam buscar mais rentabilidade.

Na pandemia, quem não perdeu renda teve a oportunidade de gastar menos. Como substituir esses gastos com viagens longas, bares e eventos com inteligência?

Para lidar com os desafios da pandemia é necessário começar a olhar para o que é essencial: estar com a geladeira cheia, contas em dia e a família com um bom plano de saúde.

Claro que se cortarmos todos os supérfluos tem uma hora que enlouquecemos. Então é necessário criar espaço no orçamento para conseguir ter prazer. Não vai conseguir pedir pizza? Aprende a fazer pizza com a família e terá o mesmo prazer.

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Um conceito da psicologia econômica que trato muito é que temos capacidade de nos acostumar com tudo na vida, tanto coisas boas como ruins. O que antes era luxo vira padrão. Você compra um carro novo e fica eufórica. Curte, passeia e depois de um tempo não vai mais acordar feliz porque tem carro. Portanto, bens não trazem prazer permanente.

O consumo emocional acontece quando estamos com medo, ansiosos e até felizes, e basta entrar em um ecommerce para isso acontecer. Então, o que fazer? Levanta e vai dar uma volta no quarteirão, medita, pratica esportes. Tem tanta atividade gratuita que traz felicidade. Aos poucos precisamos ser menos materialistas.

 

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Marília Almeida

Repórter da Exame


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