Exame Invest
ESG

O novo papel das empresas na sociedade — e por que ESG não é moda

PUBLICADO EM: 16.7.21 | 17H23
ATUALIZAÇÃO: 16.7.21 | 18H14
Ao longo das próximas semanas, publicaremos uma série de artigos explicando cada um dos aspectos ESG e esperamos esclarecer dúvidas de leitores
ESG se tornou um ponto central na decisão para investimentos

Muitas empresas hoje são maiores do que o PIB de vários países, e muitas companhias estão diariamente — e várias vezes ao dia — se relacionando com as pessoas, dentro de suas casas (Getty Images)

Imagem da Editoria Exame Invest
Renata Faber



Compartilhe nas redes sociais
GUIA
Em alta

INVISTA 5MIN

Muitas empresas hoje são maiores do que o PIB de vários países, e muitas companhias estão diariamente — e várias vezes ao dia — se relacionando com as pessoas, dentro de suas casas.

Junto com o tamanho e a importância das empresas, vêm também as responsabilidades. Se, no passado, uma empresa deveria estar focada no seu crescimento e na sua lucratividade, hoje o papel delas na sociedade é muito mais amplo.

No passado, aprendemos sobre externalidades, que poderiam ser positivas ou negativas. A poluição era exemplo de externalidade negativa. Hoje, é difícil imaginar esse conceito de externalidade, pois uma empresa tem de “internalizar” — por legislação, princípio ou pressão da sociedade — o que antes era considerado externalidade, além de assumir responsabilidades que antes não eram consideradas suas.

Nesse cenário, vemos o conceito do capitalismo de stakeholder ganhar espaço sobre o capitalismo de Milton Friedman, no qual o único papel social das empresas era aumentar seu lucro.

Junto com a ascensão do capitalismo de stakeholder, escutamos muito falar sobre ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). O mercado está cada vez mais incorporando aspectos ambientais, sociais e de governança em suas análises, e esses parâmetros complementam os financeiros.

O uso de parâmetros ESG nos dá uma visão muito mais ampla das empresas: mostra desde o relacionamento das empresas com seus stakeholders (colaboradores, acionistas, fornecedores, clientes, meio ambiente e comunidade), até como macrotendências (por exemplo, urbanização e uso de energia renovável) impactam setores e empresas; também nos mostra a capacidade das empresas de atrair e reter talentos e de incentivar a inovação.

Mas quais são exatamente os fatores que explicam essa mudança no papel das empresas na sociedade e na forma como olhamos os investimentos?

● A geração dos millennials, que é muito preocupada com o impacto ambiental e social de suas atividades, está entrando no mercado de trabalho, começando a investir e decidindo o que vai consumir.

Para os millennials, propósito é mais importante do que remuneração ao escolher um trabalho; ao consumir, essa geração pensa no impacto social e ambiental do produto que está comprando e, ao investir, quer investir em empresas que tenham um desenvolvimento sustentável — nas quais o crescimento não seja à custa de impacto ambiental e que contribua para o progresso social, como podemos ver na figura abaixo.

Os millennials mais a geração Z devem representar 75% do mercado de trabalho global em 2025. Estima-se que até 2030 essas gerações herdarão 20 trilhões de dólares em ativos. Sendo assim, as empresas precisam se adaptar para continuar a atrair e reter talentos, atrair investidores e posicionar seus produtos.

● A mudança climática é uma realidade que precisa ser combatida. Vários países assinaram o Acordo de Paris em 2015, comprometendo-se a limitar o aquecimento global a 2 graus (preferencialmente 1,5) quando comparado aos níveis pré-industriais.

De acordo com o Climate Watch, as regulações existentes e planejadas atualmente cobririam aproximadamente 60% das emissões globais. Muito provavelmente, nos próximos anos veremos novas regulações e, nesse cenário, os maiores emissores terão de investir em novos processos, terão o custo de neutralizar suas emissões ou vão correr o risco de perder espaço para produtos e processos menos poluentes.

A regulação da emissão de carbono impacta de forma diferente os setores, trazendo riscos para alguns e oportunidades para outros.

● O advento das mídias sociais coloca mais pressão nas empresas, que têm de agir de acordo com seu discurso e com o que é esperado pela sociedade. Atualmente, a sociedade consegue facilmente organizar boicotes e protestos contra uma empresa ou produto.

● ESG é também uma forma eficiente de mensuração de risco. O mercado financeiro já estava acostumado a olhar a governança, mas a análise de risco fica mais completa no modelo ESG. Afinal, risco de rompimento de barragens, vazamento de óleo, trabalho infantil na cadeia de fornecedores e mudança no padrão de consumo, entre outras coisas, são fatores de risco considerados numa análise ESG.

● As leis, as normas e o que é esperado mudam ao longo do tempo. Atualmente, vemos várias cidades europeias proibindo a circulação de veículos a diesel a partir de determinado ano, países regulando a emissão de carbono e incentivando o uso de energia renovável. Vemos, por livre e espontânea vontade, as empresas se comprometendo com Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

Em um passado não muito distante, falava-se sobre diversidade, mas muitas pessoas conviviam com a falta de diversidade nas empresas sem questioná-la; atualmente, a diversidade é um fator de sucesso.

No passado, o mercado via como uma vantagem uma grande empresa que tinha o poder de “espremer” seus fornecedores e não se preocupava em ter uma relação saudável com eles; hoje, o sucesso está em construir parcerias.

Aprendemos que empresas e setores com baixo NPS sofrerão algum tipo de disrupção. Uma análise ESG nos força a pensar sobre as tendências, o cenário mais provável, os setores e empresas que serão ganhadores e perdedores nesse cenário e as empresas com maior capacidade de se adaptar às mudanças.

Além desses cinco motivos, acreditamos que alguns eventos recentes aceleraram as discussões sobre sustentabilidade. Afinal, vivendo uma pandemia e observando as queimadas, os desmatamentos e os desastres naturais em diversos lugares do mundo, como não nos questionar o que, como sociedade, estamos fazendo errado e como podemos melhorar?

Em um mundo no qual a tecnologia faz tantos novos negócios e empresas emergirem rapidamente — colocando em risco setores e empresas que até pouco tempo atrás eram considerados inabaláveis — e onde uma nova geração nos faz questionar como nos relacionamos, investimos, moramos, trabalhamos, consumimos e até o que comemos e bebemos, como acreditar que um produto ou empresa são perenes?

Ao longo das próximas semanas, publicaremos uma serie de artigos explicando cada um dos aspectos ESG e esperamos, com esses artigos, esclarecer muitas dúvidas de nossos leitores sobre o tema.

Fique por dentro das principais tendências das empresas ESG. Assine a EXAME.

Imagem da Editoria Exame Invest
Renata Faber


Compartilhe nas redes sociais
Mosaico do rodapé com as cores da Exame