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Por que a inflação americana tem tirado o sono dos investidores?

PUBLICADO EM: 2.3.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 1.3.21 | 22H49
Entenda por que a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano com vencimento em 10 anos está derrubando as as bolsas

Guilherme Guilherme

Repórter de câmbio e bolsa de valores da EXAME.



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Cerca de um ano após o coronavírus provocar perdas trilionárias no mercado financeiro, as atenções dos investidores se voltam cada vez menos para o decrescente número de casos da doença e cada vez mais para a crescente inflação americana, sequela da pandemia.

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A preocupação é que os estímulos adotados e previstos para salvar a economia do período de maior isolamento gerem aumento de preços nos Estados Unidos, obrigando o Federal Reserve (Fed) a reduzir -- ou até mesmo interromper -- suas políticas expansionistas, que incluem recompra de títulos e juros próximos de zero.

O reflexo dessa maior cautela com a inflação é sentido principalmente no aumento dos rendimentos dos títulos públicos americanos. Desde o início do ano, os rendimentos dos títulos do Tesouro -- os Treasuries -- com vencimento em 10 anos subiram 58% e atingiram seu valor máximo em 12 meses na última semana. 

“O rendimento dos títulos precisa corresponder à expectativa de inflação americana. E a inflação implícita nos títulos está bastante alta, próxima de 2,15% [ao ano], enquanto o rendimento dos títulos está próximo de 1,5%. O fato de o juro real estar muito negativo coloca mais pressão para que a taxa suba”, diz Arthur Mota, economista da EXAME Invest Pro.

Considerados os ativos mais seguros do planeta, os títulos americanos são referência para a política de juros do mundo inteiro. Isso porque, em teoria, outros bancos centrais devem pagar taxas acima das americanas para conseguir atrair capital. 


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Efeito nos mercados

Embora os rendimentos dos títulos americanos estivessem subindo desde outubro do ano passado, foi a partir de fevereiro que os temores sobre a inflação se intensificaram. Entre os gatilhos esteve a divulgação do índice de preço ao produtor americano referente ao mês de janeiro, que subiu 1,3%. Foi a maior alta mensal desde 2012.

Como consequência, o rendimento dos títulos de 10 anos avançaram 30 pontos-base -- o equivalente a 0,3 ponto percentual -- em menos de 10 dias. Parece pouco, mas é muito para um país acostumado com juros na casa de 1% a 2% ao ano.

“O risco é o Fed perder o controle da inflação. Estamos vendo pacotes de estímulos imensos e o patamar de juros onde está [entre 0% e 0,25% ao ano]. É algo sem precedente, então é até natural o mercado estar mais volátil”, diz Gustavo Akamine, analista da Constância. 

Nas bolsas, o temor sobre a inflação americana também foi sentido, especialmente nas ações de tecnologia. Na última semana, o índice Nasdaq, com concentração de empresas do setor, despencou 4,92%. 

Bruno Lima, analista-chefe de renda variável da EXAME Invest Pro, explica que o impacto foi maior no setor devido às metodologias de avaliação. 

“O rendimento dos títulos é a taxa de desconto utilizada para realizar a projeção do fluxo de caixa da maioria das empresas no exterior. Como o valor presente dessas do setor de tecnologia considera a geração de caixa no muito longo prazo, o efeito no preço é maior”, explica. 

Mas o risco não é apenas para as ações de tecnologia. Com o rendimento dos títulos chegando a superar a média dos dividendos das empresas do S&P 500, os riscos da renda variável se tornam menos atrativos para investidores nos Estados Unidos. 

“Os ativos competem entre si. E como os recursos não crescem da mesma forma com que surgem oportunidades, é possível haver alguma migração”, diz Mota. 

O que o Fed diz?

Ainda que a percepção do mercado seja a de uma inflação mais acelerada, o Fed vem dando sinais de que dará continuidade à política de estímulos e não elevará a taxa de juros antes de 2023.

Sobre a alta dos rendimentos, a sinalização tem sido a de que esse é um efeito normal perante a melhora da perspectiva econômica. Ao The Wall Street Journal, o presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, chegou a dizer que estaria “desapontado” se o rendimento dos títulos não estivesse subindo. 

Segundo ele, a inflação deve subir, mas não a níveis preocupantes, convergindo para a meta de 2% no longo prazo. Novos pacotes fiscais, disse Barkin, também não devem ser um problema. 

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Mais estímulos no horizonte

No último fim de semana, a Câmara dos Representantes aprovou o pacote de 1,9 trilhão de dólares proposto pelo presidente Joe Biden. O projeto foi encaminhado para o Senado, onde deve ser votado ainda neste mês.

Apesar de ter sido bastante aguardado no início do ano, os recentes temores sobre inflação fizeram a aprovação do pacote passar quase que despercebida pelo pregão desta segunda-feira, 1º de março, quando as bolsas subiram refletindo alguma estabilização no rendimento dos mercados de títulos.

“O mercado está dividido. Há a preocupação de que o pacote sobreaqueça a economia americana, fazendo com que a inflação suba acima do esperado e o Fed tenha que subir juros antes”, comenta Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.

Na dúvida, proteção

“Se a alta da inflação for muito mais forte que a da atividade econômica, é um cenário ruim para ações, mas, se o crescimento for condizente, isso pode ser bom”, diz Lima. 

De acordo com o analista, em vez de preparar o portfólio para um dos cenários, a melhor opção para o investidor deve ser diversificar, com 5% a 7% da carteira em ativos de proteção, como ouro e dólar.


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Guilherme Guilherme

Repórter de câmbio e bolsa de valores da EXAME.


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