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Por que o mercado espera o aumento da Selic para 3,5%

PUBLICADO EM: 5.5.21 | 7H46
Levantamento com 21 instituições financeiras aponta para aumento de 0,75 ponto percentual. Preocupação com a inflação de 2022 já está no radar
Edifício-Sede do Banco Central do Brasil em Brasília

(Marcello Casal JrAgência Brasil)

Imagem da Editoria Exame Invest
Agência O Globo



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O Banco Central (BC) deve elevar, novamente, a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que termina nesta quarta-feira. Pelo menos, essa é a aposta dos agentes do mercado financeiro, segundo levantamento com 21 instituições financeiras e corretoras.

Se a previsão se confirmar, a Selic deve passar dos atuais 2,75% para o patamar de 3,50%. Para o fim do ano, a maioria das casas aposta em uma taxa de 5%. O principal motivo para essa decisão é a inflação em alta. Mas há mais coisas em jogo.

No último boletim Focus, relatório semanal divulgado pelo BC com as projeções do mercado, as expectativas para a Selic estavam em 5,5% para o término deste ano e 6,25% para o fim de 2022.

A decisão do Copom no sentido da alta já vem sendo adiantada pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que em aparições públicas ressaltou que um novo aumento em 0,75 iria ocorrer, seguindo a comunicação divulgada em março.

BC mira na inflação

Campos Neto demonstrou preocupação com uma inflação persistente, ainda que temporária, e com o risco fiscal. E tem motivos para isso.

O IPCA-15, prévia da inflação oficial do país, ficou em 0,6% em abril. No acumulado dos últimos 12 meses, o índice acumula alta de 6,17%. É mais que o teto da meta estabelecida pelo BC para 2021: 5,25%.


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À espera de um sinal

O foco, portanto, deve ficar mesmo na sinalização da autoridade monetária no comunicado que acompanha o anúncio da nova taxa. Os analistas estão acostumados a ler nas entrelinhas do texto. Estão de olho principalmente numa indicação ou não de estabilização da Selic.

Segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, a preocupação com o real desvalorizado frente ao dólar e o efeito que isso causa em vários preços, como os de alimentos e combustíveis, estão no radar do Banco Central.

Além disso, segundo eles, já há a preocupação de que a elevação da inflação deste ano comece a contaminar as expectativas para 2022.

Efeito no dólar

Desde a última reunião do Copom, em março, o dólar apresenta oscilação. A divisa americana chegou a superar a casa dos R$ 5,80 em alguns pregões, mas deu sinais de desvalorização nas últimas semanas, fechando pela primeira vez com uma queda mensal no ano, em abril.

Para o superintendente executivo de Macroeconomia do Santander, Maurício Oreng, a decisão anterior do Copom de elevar a taxa em março teve efeitos na queda do dólar, mas outros fatores também ajudaram na atração de capital de investidores estrangeiros, o que contribui para a valorização do real.

— Tem um movimento internacional, com as expectativas de retomada da economia e política monetária expansionista, que deve continuar por mais tempo. A resolução da questão do Orçamento também evitou uma deterioração em curto prazo — disse Oreng, destacando que a questão fiscal ainda preocupante do país limita o otimismo em relação aos ativos brasileiros.

Crise do Orçamento neutralizou efeito da Selic no câmbio

Já para o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart, o impasse em relação à aprovação do Orçamento contaminou o noticiário econômico durante todo o mês de abril, impedindo que a alta de juros tivesse um efeito mais rápido sobre o dólar.

— Quando a questão do Orçamento foi solucionada, isso permitiu que o efeito da subida dos juros, além do esperado, começasse a prevalecer.

Segundo Goulart, um dos principais responsáveis pelo desempenho ruim do real frente ao dólar é justamente o baixo patamar atual dos juros. Isso diminui a atração de investidores estrangeiros por títulos públicos, por exemplo.

Os analistas ainda destacam que a inflação no país sofre de um efeito externo, pois com o dólar elevado somado à alta das commodities
, os preços das matérias-primas ficam mais caros.

Isso explica por que o índice vem aumentando, mesmo com o consumo das famílias estando em patamar baixo.

— À medida em que o real vai se apreciando, podemos ter uma mudança dessa dinâmica. A primeira variável a se observar então é o câmbio — disse Goulart.

Os efeitos colaterais da alta

Se a subida dos juros não garante dólar e inflação mais baixos, pode por outro lado reprimir ainda mais a atividade econômica. Financiamentos para investimentos e consumo ficam mais caros.

Para Oreng, no entanto, a elevação é necessária para evitar que as expectativas de inflação para 2022 se deteriorem ainda mais.

— Esse aperto monetário, aos poucos, vai conter o crescimento da demanda. Estamos vivendo um choque forte nos preços das matérias-primas e o BC não pode mais acomodar. Mas o pior cenário seria o BC não subir juros e a inflação sair do controle, prejudicando ainda mais o crescimento no longo prazo.

Ritmo da alta

Se o percentual do aumento da Selic nesta quarta é quase uma unanimidade, há diferenças entre os analistas sobre o tom da ata do Copom.

— Avaliamos que o BC não vai ser tão taxativo quanto foi na última reunião. Mas, ao mesmo tempo, vai se demonstrar bastante austero contra as expectativas de inflação e vai manter o aspecto parcial de redução do estímulo monetário - diz o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez

Para Oreng, haverá a preocupação de deixar claro que a meta de inflação para o ano que vem será perseguida, o que pode ser feito sem o caráter parcial da normalização, expresso na última comunicação.

— O Copom vai enfatizar que o processo de ajuste vai depender da evolução do cenário. Acredito que eles vão reforçar essa dependência dos dados para embasar a atuação. Eles podem fazer isso mantendo a normalização parcial ou não.

Goulart segue na mesma linha:

— O BC vai falar que normalização ainda segue parcial, mas deixando claro que é algo com menor importância. Eles já devem sinalizar que na reunião seguinte, em junho, vai ocorrer uma nova alta de 0,75 ponto percentual.

Volta para a renda fixa?

A perspectiva para um ciclo de altas na Selic melhora a perspectiva dos rendimentos em renda fixa. Mas os analistas ainda alertam que há riscos, sendo a diversificação da carteira, a melhor opção para quem investe. A percepção dos analistas é a de que ativos como títulos públicos só ficarão mais atraentes ao final do atual ciclo de alta da Selic iniciado pelo BC.

— Pode haver uma maior valorização no curto prazo. Mas nada que seja muito substantivo. O ideal é optar pela diversificação - diz Sanchez.

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