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Reação do mercado à variante Delta foi exagerada, diz gestora Tower Three

PUBLICADO EM: 25.7.21 | 8H15
ATUALIZAÇÃO: 25.7.21 | 8H36
Ricardo Almeida e Marcelo Nantes, sócios-fundadores da nova gestora e egressos do comando da Bradesco Asset, dizem que o momento ainda é favorável para a bolsa e para a tomada de risco no médio prazo

Ricardo Almeida (esq.) e Marcelo Nantes : sócios-fundadores da nova gestora Tower Three, depois de liderarem a Bradesco Asset Management (BRAM) | Foto: Leandro Fonseca/EXAME

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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O Ibovespa fechou a semana em queda, sem conseguir se recuperar das perdas causadas pelos temores da variante Delta na segunda-feira, 19. Bolsas globais tiveram quedas expressivas. Nos Estados Unidos, a busca por proteção levou o rendimento dos títulos americanos de 10 anos (inversamente proporcional à demanda) ao menor patamar desde fevereiro. Mas, para a Tower Three, ou somente T3, a reação dos investidores foi exagerada.

A nova gestora, fundada por Ricardo Almeida, ex-presidente da Bradesco Asset Management (BRAM), e Marcelo Nantes, ex-diretor de investimentos da BRAM, tem foco na renda variável. Apesar dos riscos no radar, os dois sócios e gestores da Tower Three acreditam que o momento seja favorável ao mercado de ações.

"O cenário de médio prazo continua propenso ao risco. Dá para pensar em Ibovespa em 140.000 pontos no fim do ano (o índice fechou a sexta-feira aos 125.000 pontos), com a alta sendo impulsionada pelos resultados das empresas. Não estou vendo queda de commodities, os bancos devem ir bem com a baixa inadimplência e a reabertura vai favorecer o varejo, que é nossa maior exposição", afirma Ricardo Almeida em entrevista à EXAME Invest.

Segundo os gestores, o mercado está muito focado no número de casos, e não no de internações. Como as vacinas reduzem significativamente o número de mortes, não acreditam em forte impacto da variante Delta na economia.

O que poderia embaralhar as perspectivas seria uma mudança de postura do Federal Reserve (Fed) para conter a inflação americana. Para Almeida, porém, esse não é o cenário mais esperado. "Houve uma disrupção da cadeia de serviços ao mesmo tempo em que se colocou muito dinheiro na economia. Ou seja, teve demanda, mas não houve oferta. Nos Estados Unidos, faltam funcionários, mas o fim dos estímulos fiscais devem aumentar a busca por emprego. O Fed está certo: no horizonte de dois anos, a inflação deve convergir para próximo de 2% ao ano."

Para o Brasil, Nantes espera que o Banco Central controle as expectativa de inflação, que já supera 8% no acumulado em 12 meses, com uma postura mais dura. "Lá fora, o Fed tem condição de segurar os juros [futuros] por meio de suas falas. Aqui não existe a mesma credibilidade", diz.

Com passagens por grandes gestoras e mais de duas décadas de experiência no mercado, a dupla, que se conheceu ainda antes da crise do subprime, em 2008, espera pôr em prática todo conhecimento acumulado nos dois fundos da Tower Three, um long-bias multimercado e outro long only de ações.

Confira a entrevista com Marcelo Nantes e Ricardo Almeida, gestores e sócios-fundadores da Tower Three.

É um bom momento para o investimento em ações? 

Ricardo Almeida (RA): Há bastante risco de eleição e da variante do coronavírus. Mas muito já está precificado. Ainda vejo um cenário construtivo lá fora, com estímulos menores, mas existentes. O estímulo fiscal deve ser reduzido, mas ainda não estamos vendo nenhum aperto monetário global. O cenário de médio prazo continua propenso ao risco. O que pode atrapalhar é uma inflação mais alta, que tiraria os estímulos monetários.

A eleição no ano que vem é uma incerteza. Mas tem bastante disso precificado. As bolsas dos Estados Unidos subiram 15% e a do Brasil está no zero praticamente. Com uma boa perspectiva de recuperação econômica, o lucro das empresas deve surpreender positivamente. Mesmo com riscos, a economia funciona. Acho que tem espaço para a bolsa andar mais. 

No Brasil, o CDI irá normalizar, mas ainda deve ser bem abaixo do que já foi. O custo de capital caiu bem e, com juro real ainda baixo, temos um cenário propício à valorização dos ativos.

Até quanto o Ibovespa pode subir neste ano? 

RA: Dá para pensar em Ibovespa em 140.000 pontos no fim do ano, com a alta sendo impulsionada pelos resultados das empresas. Não estou vendo queda de commodities, os bancos devem ir bem com a baixa inadimplência e a reabertura vai favorecer o varejo, que é nossa maior exposição. 

O trade de reabertura vinha sendo uma das principais apostas do mercado, mas perdeu força com o aumento dos temores da variante Delta. A Tower Three está otimista com a tese?

RA: Cada empresa tem sua particularidade. Estamos com algumas ações de reabertura, mas estamos bem seletivos sobre quais serão os melhores cavalos. Temos um pouco de CVC (CVCB3) e Azul (AZUL4). Os voos estão todos lotados, a passagem está cara e ainda existe a oportunidade de consolidação, com a possível compra da Latam. 

Em aluguel de carros, temos Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3). O preço do carro usado explodiu. Como essas empresas têm carro usado para vender, valorizou os estoques

Os shoppings estão com valuations descontados e ainda podem ir bem. Também temos ações do setor no portfólio. Mas não gostamos muito de empresas que já estão nos shoppings, como as Lojas Renner (LREN3).  Gostamos de Centauro (SBFG3), que está ligada ao esporte e ainda pode ganhar espaço em shoppings com o aluguel mais barato porque ela atrai tráfego. Chegamos a analisar a Track & Field (TCFO4), mas achamos cara.

Entre os shoppings, qual deve se sair melhor?

RA: Temos dois: Multiplan (MULT3) e Aliansce Sonae (ALSO4).

As varejistas mais ligadas ao e-commerce seguem como boas opções

Americanas (AMER3), Magazine Luiza(MGLU3) e Via (VVAR3) podem sofrer um pouco mais. Elas se beneficiaram muito na pandemia, porque as pessoas não saíam de casa. As vendas digitais vão continuar, mas em ritmo menor. Na comparação anual, elas poderão crescer menos do que o esperado, sendo que já tem muito crescimento embutido nos preços.

Entre as empresas de tecnologia que entraram recentemente na bolsa, alguma está no portfólio? 

Marcelo Nantes (MN): Da nova economia, temos Locaweb (LWSA3), que é uma das nossas posições relevantes. A empresa faz parte das mudanças estruturais que a pandemia trouxe, sendo o fortalecimento do e-commerce uma delas. O varejo físico vai abrir, mas as lojas, além do ponto tradicional, terão um pequeno e-commerce. Essa é uma tendência estrutural e de longo prazo

De modo geral, o mercado exagerou na reação ao possível efeito econômico da variante Delta?

MN: Sim. O mercado está muito focando no número de casos, e não no de internações. As vacinas não são 100% efetivas na transmissão, mas reduzem significativamente o número de mortes. Então, é pouco provável que exista uma redução muito forte da atividade econômica mesmo com a variante Delta.

RA: Eu não entendo nada disso, mas especialistas dizem que a vacina funciona.  Acho extremamente improvável a variante Delta impor novos lockdowns como já tivemos.

O que é destoante é o mercado temer a inflação em uma semana e na outra o rendimento dos títulos americanos cair com o medo de variante Delta e recessão. O mercado está bipolar. Na minha opinião tudo isso deve ficar no meio do caminho. Claro que [essas questões] continuarão pressionando no curto prazo, mas mais para frente sai do radar. 

Vocês comentaram que a alta da inflação poderia azedar o otimismo do mercado. Quão grande é o risco?

RA: A inflação de emprego nos Estados Unidos é preocupante. Com tanto pacote fiscal americano, a procura por emprego foi reduzida e os salários aumentaram muito.

Já no Brasil ainda há muita capacidade ociosa. Aqui, a inflação já está em um nível bastante alto, no pico. Estamos mais otimistas com o câmbio, que deve ser um fator importante. Mas, se o câmbio andar, seja por qualquer questão, o BC corre o risco de ter que subir mais ainda o juro. O BC não pode deixar desancorar a expectativa de inflação para o ano que vem. O BC baixou o juro mais do que deveria, agora vai ter que subir para segurar o câmbio e a inflação.

Uma postura mais agressiva na alta de juros seria positiva para a economia? 

MN: Aqui vamos começar a ver a inflação de serviços e de mão-de-obra, que ainda não veio. Não vai ser muito diferente do que temos visto nos Estados Unidos. Até agora só vimos inflação de produtos. Lá fora, o Federal Reserve tem condição de segurar os juros [futuros] por meio de suas falas. Aqui não existe a mesma credibilidade. Se a inflação de serviços vier forte, o BC vai ter que ser mais firme. 

A inflação hoje está nesse nível [o IPCA acumula alta de 8,35% nos 12 meses até junho] porque ela foi muito forte no segundo semestre do ano passado. Isso vai começar a sair do horizonte de 12 meses, então está favorável à queda da inflação. Se a inflação de serviços não vier, deve convergir para um nível abaixo do atual. 

RA: A inflação passada já foi. Tivemos juro real de menos 5%. A política monetária ficou frouxa demais, com o fiscal muito expansionista. Então vai ter que puxar um pouco. A Selic pode ir para 6,5% ou 7% ao ano. 

Além de 7% não dá para se pensar?

RA: Não adianta subir tanto, porque o juro real pode ficar mais forte do que o esperado. Isso seria um problema. O BC talvez tenha perdido a credibilidade sobre as expectativas de inflação. Por isso, estou preocupado com as expectativas do ano que vem. O que vai calibrar [a inflação] é o câmbio e as expectativas.

Se o BC subir a Selic para 8%, o câmbio provavelmente vai cair junto com a inflação, mas pode ser demais. Seria melhor subir de 75 em 75 bps [pontos-base] para ir dosando. Se conseguir ancorar as expectativas para frente, talvez não precise subir tanto. A postura talvez seja até mais importante do que fazer duas altas de 100 bps. 

A Tower Three tem posição em juros?

RA: Não.

Nos Estados Unidos, o Fed tem dito que a inflação é transitória. Ele vai conseguir manter o juro atual até 2023?

RA: Tivemos uma crise enorme e uma resposta muito vigorosa do lado fiscal e monetário, mas principalmente do fiscal. Mesmo com a queda do PIB, a massa de renda subiu. Houve uma disrupção da cadeia de serviços ao mesmo tempo em que se colocou muito dinheiro na economia. Ou seja, teve demanda, mas não teve oferta.

Nos Estados Unidos, faltam funcionários, mas o fim dos estímulos fiscais devem aumentar a busca por emprego. O Fed está certo: no horizonte de dois anos a inflação deve convergir para próximo de 2% ao ano. 

Apesar das recentes altas de juros e da expectativa de uma postura mais dura do BC, o setor de construção civil voltou a apresentar fortes resultados nas prévias do segundo trimestre. Já as ações não andaram no ritmo das vendas. O setor está barato?

RA: Temos uma pequena posição no setor. É uma exposição que podemos aumentar se o juro não subir tanto. 

MN: O que surpreendeu positivamente no setor é que, além de terem lançado muitos empreendimentos, as empresas estão vendendo bem. Talvez o mercado não tenha se tocado de que o ritmo de vendas está forte. O juro do financiamento imobiliário não teve um impacto tão rápido, porque o juro longo não sobe na mesma velocidade do curto. Então as taxas ainda estão atrativas. As últimas estatísticas impressionam bastante. 

O petróleo esteve bastante instável com o acordo para aumento de oferta na Opep+. Ainda há boas oportunidades no setor?

RA: O petróleo é sempre um equilíbrio instável. Quanto mais sobe, mais há o interesse em furar o cartel. Embora estejam com muita disciplina na oferta, o petróleo é um bem altamente disponível. Podem ligar a torneira e começarem a produzir. Já o minério de ferro é muito mais concentrado, não tem oferta vindo de ninguém e existe uma boa demanda. O petróleo é diferente. No nível atual, está bom demais para o produtor de petróleo. 

MN: O petróleo não é uma variável econômica, depende de meia dúzia de pessoas, do orçamento da Arábia Saudita ou do déficit fiscal do governo russo. Depende do interesse político e nossa visibilidade sobre isso é mínima. Já analisamos alguns papéis do setor, mas não depende tanto da parte micro. 

O que mudou é que essa é a maior relevância no mercado de empresas menores. Se o petróleo cai, a Petrobras (PETR3/PETR4) cai e as outras do setor também. Mas se sobe, a Petrobras não necessariamente captura a alta, por causa do controle de preço do combustível. Então muita gente está preferindo ter exposição em PetroRecôncavo (RECV3) ou em 3R (RRRP3), porque aí realmente consegue ganhar dinheiro se o petróleo subir.

Aproveitando que a gestora é majoritariamente de ações e tem o “three” no nome, quais são as três ações em que a T3 tem maior convicção hoje?

RA: Locaweb, BR Distribuidora (BRDT3) e Centauro. 

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com


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