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Cielo: vale a pena investir após a ação cair mais de 90%?

PUBLICADO EM: 4.10.21 | 6H05
ATUALIZAÇÃO: 5.10.21 | 19H44
Empresa de adquirência está presente em mais de 180.000 carteiras de pequenos investidores, mas profissionais do mercado não recomendam a compra do papel
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Sede da Cielo: ação caiu mais de 90% em quatro anos| Foto: Cielo/Divulgação

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Há quatro anos, o Ibovespa estava na casa dos 70.000 pontos e a Cielo (CIEL3) era uma das principais empresas da bolsa, com ações cotadas a 22 reais. De lá para cá, a bolsa subiu mais de 50% e as ações da Cielo despencaram para a casa dos 2 reais. 

No menor patamar de sua história, as ações da companhia de adquirência têm chamado atenção, principalmente, de pequenos investidores. A empresa tem cerca de 185.000 pessoas físicas em sua base de acionistas. A quantidade é o dobro da registrada na base acionária da Suzano (SUZB3), com mais de 10 vezes o valor de mercado da Cielo. 

Entre os profissionais do mercado, no entanto, o cenário é outro. De 17 analistas de grandes bancos de investimento e corretoras, como Goldman Sachs e Itaú BBA, somente um deles, o do HSBC, recomenda a compra das ações da Cielo. Nenhum deles, contudo, tem preço-alvo abaixo do atual. 

O BTG Pactual avalia que o preço justo das ações da Cielo é 4,20 reais, cerca de 80% acima da cotação atual (2,30 reais), mas tem recomendação neutra para os papéis. Embora tenham avaliado o último resultado da companhia como positivo, com elogios à melhora de eficiência operacional, analistas do BTG seguem cautelosos com o “legado” da empresa. 

“Continuamos vendo a Cielo como uma empresa menos ágil do que os novos entrantes, com vários desafios legados e dificuldade para atrair talentos, enquanto a estrutura acionária pode permanecer um fardo”, afirmam em relatório.

Para João Abdouni, especialista em renda variável da casa de análises Inversa, o preço da Cielo deveria ser pelo menos 1x o valor patrimonial, mas atualmente está em 0,63x. Ainda que veja um “grande desconto”, diante da maior concorrência e da perda de rentabilidade da companhia, a Inversa tem recomendação apenas neutra para os papéis. 

Em 2017, a participação da Cielo no mercado de adquirência era de 47%. No segundo trimestre deste ano, sua fatia, em declínio gradual, caiu para menos de 30%, segundo a Abecs (a entidade do setor de cartões). Nesse mesmo período, o percentual de mercado de concorrentes como PagSeguro, Stone e Getnet aumentou. 

O controle compartilhado entre Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3) sobre a companhia, segundo analistas ouvidos pela EXAME Invest, tem sido apontado como uma das razões para a maior lentidão em relação aos novos concorrentes. 

“Isso tem peso na tomada de decisão. São bancos com visões diferentes. O controle unificado facilitaria o processo”, diz Luis Sales, analista da Guide. “O cenário está mais competitivo e a empresa tem feito poucas mudanças.”

A empresa também tem sua competitividade atacada por novas tecnologias, como o Pix, cada vez mais popular entre pequenos e médios comerciantes -- frente que vinha sendo o foco da Cielo por possibilitar margens maiores do que as oferecidas nos negócios com grandes companhias. 

De acordo com o Banco Central, o volume das transações pelo Pix cresceu 340% desde o início do ano. A nova tecnologia do BC também mitigou as possíveis vantagens do WhatsApp Pay, parceria da rede social com a Cielo para a transferência de dinheiro. 

“O WhatsApp Pay é uma linha de negócio diferente, mas não vai ser o ponto crucial para a virada da Cielo em uma perspectiva de médio e longo prazo”, afirma Fabiano Vaz, analista da Nord. 

João Abdouni aponta a parceria como um potencial de risco para o próprio negócio de maquininhas . “Todas as tecnologias que vêm surgindo significam mais problemas para o modelo de negócio da Cielo do que vantagens.”

O analista Luis Sales diz ser “praticamente impossível” ver as ações de volta para os 20 reais de 2017. “Considerando o ambiente atual de concorrência e tecnologia e o que a companhia tem feito, não vejo um cenário de recuperação.”

Por outro lado, cresce no mercado a expectativa de que os acionistas controladores, Bradesco e Banco do Brasil, fechem o capital da Cielo na B3. A operação muito provavelmente iria embutir um prêmio para a compra das ações, o que poderia possibilitar ganhos de curto prazo. 

Segundo analistas, por outro lado, não dá para dizer que a ação não vai cair mais, mesmo após a queda de 90%. “A sensação é a de que querem ver o ativo o mais barato possível para comprar as ações e fechar o capital”, diz Abdouni.

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com


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