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CI&T, de Campinas, estreia com alta de 21% em NY e CEO revela planos

PUBLICADO EM: 10.11.21 | 19H01
ATUALIZAÇÃO: 11.11.21 | 6H07
'Estamos na infância do século digital. Vimos 2% do que vai acontecer com a tecnologia e o comportamento dos consumidores', diz César Gon à EXAME Invest
Sócios e executivos da CI&T na cerimônia de estreia da companhia na Bolsa de Nova York

Sócios e executivos da CI&T na cerimônia de estreia da companhia na Bolsa de Nova York | Foto: Nyse/Divulgação

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Nascida de um sonho de três jovens empreendedores formados na Unicamp, a CI&T (CINT) foi um dos grandes destaques do pregão da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) desta quarta-feira, dia 10. Em sua estreia em Wall Street, a empresa com sede em Campinas fechou em alta de 20,80%, chegando a disparar 50% na máxima do dia.

Em entrevista à EXAME Invest, Cesar Gon, CEO e cofundador da CI&T contou que o principal destino para os mais de 160 milhões de dólares (cerca de 880 milhões de reais) levantados na operação serão aquisições.

"Queremos bons negócios em que podemos contribuir com marca, capital humano e expertise, ampliando o portfólio dessas empresas", afirmou Cesar Gon.

Com histórico focado em crescimento orgânico, a CI&T vem alterando essa dinâmica em busca de se tornar uma das principais empresas de serviços para transformação digital no mundo. Com clientes como Coca-Cola e McDonalds, a CI&T realizou a aquisição da também brasileira Dextra, tornando-se, de longe, a principal companhia do setor no país.

"Agora, temos estratégia de aquisições fora do Brasil, que será o principal uso desse capital, para compor o crescimento orgânico com inorgânico", diz o executivo. "A prioridade hoje são Estados Unidos e Europa."

Segundo Gon, a escolha por abrir capital na Nyse foi "muito natural", tendo em vista que os Estados Unidos já são o maior mercado da CI&T e onde tem sido maior o crescimento. A decisão também considerou a maior exposição a investidores com perfil de longo prazo e com maior conhecimento sobre o segmento de transformação digital. "Era uma combinação ótima para começarmos nosso capítulo de empresa aberta com os sócios corretos."

Confira a entrevista com César Gon, CEO e cofundador da CI&T:

Como o senhor descreveria este momento para a CI&T?

É um momento mágico para a empresa. A empresa tem 26 anos e temos líderes com 25, 24, 23, 21 [anos]. Conseguimos combinar esse crescimento agressivo com muito aprendizado e modelos de desenvolvimento de líderes e talentos que funcionaram. 

É uma empresa com o desafio de ser a primeira brasileira global de serviços de tecnologia com capital aberto nos Estados Unidos. Estou há um ano explicando Brasil e CI&T para os investidores [internacionais]. Mesmo nesse momento [para o Brasil], atraímos investidores.

A CI&T tem histórico de pequenas aquisições. Recentemente fizemos um movimento mais relevante, com a aquisição da Dextra. Estamos falando de uma empresa em um mercado enorme, que é o de serviços para transformação digital, com mais de 600 milhões de dólares. É característica de empresa que tem espaço para crescer por uma década. É uma grande oportunidade que temos para colocar a CI&T e o Brasil nesse mapa mundial.

Por que a Bolsa de Nova York?

Desde 2006, quando abrimos a primeira subsidiária fora do Brasil [nos Estados Unidos], fizemos essa aposta. Para jogar tecnologia e digital, precisa ser global. Tecnologia não respeita as barreiras geográficas. Isso nos deu muita solidez e competitividade para conseguir vencer no maior e mais sofisticado mercado do mundo, que é o americano, que é nosso maior mercado e onde mais crescemos. 

No ano passado, a CI&T cresceu 52% nos Estados Unidos. Aqui [em Nova York] é onde se consegue maior exposição a investidores com perfil de longo prazo e que conhecem o setor de tecnologia,  particularmente o de serviços digitais. Era uma combinação ótima para começarmos nosso capítulo de empresa aberta com os sócios corretos.

Conseguimos montar um book [o 'livro' de investidores que entram na oferta] fantástico. Era uma escolha muito natural de uma empresa que já se vê como um global business há mais de 15 anos. O fato de termos conseguido executar o IPO em um momento desses mostra que a escolha é mais do que acertada. 

Quais seriam as características que a CI&T está buscando para as aquisições?

Temos dois critérios inegociáveis. O primeiro é a cultura. Em negócios de serviços digitais, o ativo das empresas são as pessoas e os líderes. E o segundo é a empresa ter um modelo de negócio que está dando certo, com carteira boa de clientes e que está entregando lucro e crescendo. Estamos procurando ativos compatíveis com nossa tese de crescimento.

A CI&T é uma máquina de crescimento orgânico e não queremos drenar energia para executar teses de turnaround [reestruturação] ou de criação heterodoxa de valor. Queremos bons negócios em que podemos contribuir com marca, capital humano e expertise, ampliando o portfólio dessas empresas. A prioridade hoje são Estados Unidos e Europa, onde estamos concentrando nossos esforços de M&A [fusões & aquisições].

Essas empresas devem ter um modelo bem semelhante ao do CI&T ou vocês também buscam novas frentes de negócios?

A CI&T tem uma oferta ampla hoje, que combina três grandes grupos de competência: estratégia digital, customer centered design e full stack de engenharia de software e integração tecnológica. Estratégia, design e engenharia. 

Nossos alvos são empresas que estão jogando só o jogo da engenharia ou de design mais engenharia de software. São empresas que vemos entrar de maneira poderosa na plataforma da CI&T. Podemos fazer upselling ou cross-selling na parte de estratégia e adicionar valor para a carteira de clientes e acelerar o crescimento. São empresas que já estão no mercado de serviços de transformação digital e propostas de valor competitivas. 

Verticais de mercado em que a CI&T tem menos exposição também é algo em que vemos valor. Geografia, vertical de mercado e pool de talentos [é o que estamos olhando].

O senhor poderia comentar quais seriam essas verticais com menor exposição e que buscam fortalecer?

A CI&T joga de maneira muito completa em serviços financeiros, consumidores e farmacêuticos. Mas temos menos exposição em algumas verticais, como em TMT [sigla em inglês para Tecnologia, Mídia e Telecomunicações]. A aquisição da Dextra aumenta nossa exposição em TMT, que deve ser bastante relevante para nós no futuro. 

O jogo é ir adicionando novas expertises, em geral, priorizando indústrias que estão mais próximas do consumidor, em que o impacto do digital é mais direto. 

A CI&T vem em ritmo impressionante de crescimento. Esse ritmo deve se manter nos próximos anos? Em que áreas deve se concentrar o crescimento?

Temos consistência e velocidade de crescimento muito consistente com nossa história. Temos uma carteira fenomenal de clientes e devemos continuar expandindo nossos relacionamentos. As verticais às quais já estamos expostos são verticais em que o digital está cada vez mais presente. Isso é a combinação de mudança de comportamento do consumidor com novas oportunidades de tecnologia. É dessa equação que vem o impacto do digital.

É muito de comportamento, que, combinado com o número crescente de possibilidades tecnológicas, vai moldando o tipo de valor que nossos clientes podem gerar para seus consumidores. 

A pandemia ajudou a acelerar bem o negócio. Essa oportunidade que surgiu com toda a mudança de comportamento foi essencial para o IPO?

Acho que não. O digital é uma tendência secular. Estamos na infância do século digital. Vimos 2% do que vai acontecer com a tecnologia e com o comportamento dos consumidores. É inevitável uma radical transformação do ambiente corporativo do século XX para se adaptar ao século XXI.

O próprio nascimento dos players nativos digitais, não só os gorilas digitais, mas essa nova geração de fintechs, startups e unicórnios, cria a cena no qual o digital, independentemente da pandemia, virou algo absolutamente estratégico e de longo prazo. É uma preocupação de qualquer CEO. Passou de uma preocupação de CIO e CTO, de tecnologia, para uma preocupação de negócio e longevidade das organizações.

A pandemia é o grande exemplo de que o digital é a melhor maneira de criar negócios resilientes e reagir mais rápido à incerteza. Incerteza é o nome do século XXI, não só por causa da tragédia da pandemia mas incertezas competitivas, regulatórias e incertezas de mudanças rápidas no comportamento do consumidor, que são inéditas.

O século 20 eram águas muito calmas. A pandemia foi só a materialização de que, sem o digital, é muito difícil projetar a perenidade de qualquer empreendimento. 

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A precificação do IPO saiu um pouco abaixo da faixa indicativa. Isso altera os planos da empresa?

Acho que não. Estou há um ano na estrada criando o momento para a operação. Percebemos que era possível ser feita a operação. Foi uma decisão correta executar [o IPO] mesmo com a volatilidade no Brasil, mostrando o quão resiliente e global é o nosso negócio.

Queríamos levantar uma [emissão] primária relevante para executar nossa estratégia de M&A. Levantamos 167 milhões de dólares. É o que precisamos para esse primeiro capítulo como empresa aberta. Conseguimos.

Nosso foco, desde que desenhamos a estratégia, era montar um portfólio de sócios e investidores que combinam com esse plano de longo prazo, que vai estar disponível para acessarmos o capital várias vezes e executar nossos planos. Acho que conseguimos um output melhor impossível, muito sólido e compatível com nossa visão poderosa de longo prazo. 

Alguma consideração final?

Gostaria de passar uma mensagem aos empreendedores do Brasil. O empreendedorismo é a alavanca de mudança. Existe um Brasil que pode pensar além de suas fronteiras e navegar em tecnologia e em outros setores, gerando valor, negócio, emprego e transformando nossa realidade.

Espero de alguma forma inspirar uma nova geração de empreendedores de que é possível sair das fileiras acadêmicas da Universidade de Campinas e montar uma empresa global de tecnologia com origem no Brasil.

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

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