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Com 'risco-Brasília', estatais perdem R$ 83 bi em valor; é hora de entrar?

PUBLICADO EM: 28.1.21 | 6H09
ATUALIZAÇÃO: 28.1.21 | 7H26
Analistas veem oportunidades para quem busca dividendos após fortes desvalorizações, mas alertam para riscos elevados e amplas oscilações

(Bloomberg)

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Risco fiscal, interferência política, lentidão na agenda de privatizações e possível greve dos caminhoneiros são alguns dos fatores que têm provocado duras consequências em empresas do governo federal listadas na bolsa. Somente nos últimos onze pregões, Petrobras, Banco do Brasil, BB Seguridade, Eletrobras e Telebrasperderam 82,57 bilhões de reais de valor de mercado. O montante equivale a duas vezes o valor de mercado da Eletrobras.

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Maior estatal brasileira (o controle continua nas mãos da União), a Petrobras (PETR3; PETR4) teve as maiores perdas nominais, com seu valor de mercado sendo reduzido em 49,6 bilhões, ou em 12,1%. No mesmo período, o petróleo do tipo Brent, que serve de referência para os negócios da estatal, se manteve praticamente inalterado.

Com os rumores de uma nova greve dos caminhoneiros ganhando força, Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos, não desconsidera a possibilidade de o governo intervir nos preços praticados pela Petrobras. “Nunca dá para saber. A empresa tem o Estado como controlador e pode haver interferência direta. Dado o que vem ocorrendo com várias empresas estatais, o mercado acaba exigindo um maior desconto [no preço das ações]", diz.

No Banco do Brasil (BBAS3), o presidente André Brandão quase precisou deixar o cargo (e segue ameaçado), após o anúncio de um programa de demissão voluntária e do fechamento de 112 agências -- medidas que vêm sendo adotadas por outros bancos privados.

Os ruídos sobre sua possível demissão, que seria fruto de uma decisão pessoal do presidente Jair Bolsonaro, tiveram efeitos diretos nas ações do banco, que perdeu 17,76 bilhões de reais em valor de mercado. 

“A grande maioria das estatais é ineficiente. Não à toa o Banco do Brasil é o mais descontado em relação aos outros grandes bancos do setor”, comenta Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.

Segundo ele, enquanto o Banco do Brasil for uma estatal, o mercado nunca estará disposto a pagar os mesmos múltiplos de um Itaú Unibanco. Ou seja, até lá será necessário lucrar muito mais para, quem sabe, valer a mesma coisa.

No famoso vídeo da reunião ministerial do presidente Jair Bolsonaro em 2020, o ministro Paulo Guedes chegou a citar que o Banco do Brasil era um “caso pronto de privatização”. Esse sonho, porém, parece muito distante de se tornar realidade. 

Nem mesmo a mais promissora das privatizações, a da Eletrobras (ELET3; ELET6), foi para frente. Nesta semana, o presidente da companhia de energia elétrica, Wilson Ferreira Jr., anunciou sua renúncia devido à falta de avanço da pauta da venda. Para muitos, sua saída foi a certeza de que a empresa não será privatizada tão cedo. E os impactos no mercado foram grandes.

No primeiro pregão depois do anúncio de sua saída, na terça, 26, as ações ordinárias (ELET3) despencaram 9,96%, elevando as perdas em valor de mercado para 11,4 bilhões de reais desde 8 de janeiro. Proporcionalmente, a empresa foi a estatal com maior desvalorização no período, de 20,7%.

“Uma coisa é certa: com a saída do Sr. Ferreira, o cenário de privatizações é menos provável. Privatizar a Eletrobras não é uma tarefa fácil. Ainda existem vários grupos políticos opostos. E mesmo no campo pró-privatização, o consenso sobre o projeto de lei final permanece indefinido”, avaliaram analistas do BTG Pactual em relatório.

Cilada ou oportunidade

Apesar dos riscos inerentes às estatais, parte dos investidores tem visto as recentes depreciações como oportunidades de compra. Na última sessão, na quarta-feira, 27, por exemplo, as ações ordinárias da Eletrobras (ELET3) chegaram a apresentar alguma recuperação, subindo 1,61%. 

Esteter, porém, considera que comprar ações da Eletrobras esperando um repique de preços ou mesmo ganhos com a privatização deve exigir maior cautela neste momento. “Isso é algo para um investidor de perfil mais arrojado, que aguenta mais volatilidade. Quanto maior o risco, maior o retorno, mas também maior é a queda.”

“Por mais que a agenda do Paulo Guedes seja a de querer privatizar, o investidor deveria ser mais cauteloso, principalmente devido ao histórico recente de as privatizações não prosseguirem”, diz Akamine.

Por outro lado, o analista considera que as estatais podem ser uma boa opção para investidores que visam longos prazos de investimento e estão em busca de dividendos.

“Essas empresas são bem maduras e distribuem dividendos potencialmente maiores que empresas privadas. Mas o interesse do governo pode ferir o interesse dos acionistas minoritários, que buscam lucros e dividendos. É importante colocar isso na conta para avaliar se vale o risco.”

É justamente por enxergarem maior possibilidade de bons dividendos do que a de privatização que analistas do Credit Suisse preferem as ações preferenciais de classe B da Eletrobras (ELET6) às ordinárias (ELET3). 

“Vemos riscos ainda importantes para a aprovação do processo de privatização, o que garantiria melhor suporte e cenário para as ações ordinárias. A renúncia do Sr. Ferreira Jr também levanta preocupações sobre a sustentabilidade dos atuais níveis de geração de caixa”, afirmam os analistas em relatório.

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