MERCADOS

Como a inflação nos Estados Unidos afeta a bolsa brasileira

PUBLICADO EM: 20.5.21 | 9H37
Escalada nos preços assusta investidores, amplia rendimento nos títulos de longo prazo e derruba atratividade de mercados emergentes

Resumo do investidor

1. Inflação nos EUA tem avançado em ritmo mais acelerado do que o mercado previa 2. Investidores temem a retirada de estímulos pelo Fed para conter a escalada de preços 3. O movimento prejudicaria mercados emergentes, que são considerados mais arriscados

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Cotações das ações na bolsa brasileira podem cair com a retirada de estímulos monetários nos EUA | Foto: Germano Lüders/EXAME

Foto de Beatriz Quesada da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Beatriz Quesada

Repórter de mercados, passou pelas redações da revista Capital Aberto e rádio BandNews FM | beatriz.quesada@exame.com



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É regra clara nos mercados internacionais: o que acontece na economia americana impacta as bolsas de todo o mundo. Não seria diferente com a inflação

Os Estados Unidos estão avançando a todo vapor, no embalo tanto do ritmo acelerado de vacinação quanto dos trilhões de dólares injetados pelo governo na economia. O resultado? Inflação. 

O problema é que o aumento de preços está mostrando mais força do que o esperado pelo mercado e defendido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que sustenta que a inflação é transitória.

Na semana passada, por exemplo, os resultados do índice de preço ao consumidor americano (CPI, na sigla em inglês), vieram muito acima das expectativas, mostrando um avanço de 4,2% na comparação anual. Era esperado que a taxa ficasse em torno dos 3,6%.

O temor do mercado é que a pressão seja forte o suficiente para mudar a trajetória da política econômica dos EUA, fazendo com que o Fed reduza estímulos como a compra de títulos e suba a taxa de juros, que está no intervalo entre zero e 0,25 ponto percentual desde março de 2020.

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Com a tese de que a alta dos preços é transitória, o Fed sinaliza que irá manter os juros próximos de zero até 2023 com o objetivo de estimular a economia e o mercado de trabalho americano. A previsão é que o Fed tolere algum nível de inflação, ainda que um pouco acima da meta de 2% ao ano.

A discussão ainda está longe de ser encerrada e é preciso aguardar mais alguns meses (e a divulgação de novos dados de atividade) para descobrir se a inflação é realmente transitória. Se for este o caso, os juros devem continuar baixos nos Estados Unidos, favorecendo que investidores, especialmente estrangeiros, entrem na bolsa brasileira para buscar retornos mais elevados, por exemplo, com as empresas que se beneficiam da alta das commodities. 

Se o Fed, no entanto, for obrigado a rever sua estratégia, a bolsa nacional deve sentir as consequências. Isso porque uma elevação na taxa de juros dos EUA diminui o custo de oportunidade para ativos de risco, como as ações no país. 

“O título americano é considerado o melhor ativo do mundo em termos de segurança. Quando ele passa a pagar juros maiores, é natural ver fluxo de capital saindo de ativos de risco e indo para os treasuries”, explica Paulo Duarte, economista da Valor Investimentos.

Nesse caso, os investimentos mais arriscados podem ser tanto a própria renda variável americana – o que explica a queda dos índices de ações em Nova York – quanto aplicações em  mercados emergentes, como o Brasil. Com essa perspectiva no horizonte, o Ibovespa recuou 0,28% nesta quarta, enquanto o dólar avançou 1,17% contra o real.

Fabio Astrauskas, economista e professor do Insper, acredita que o cenário de juros mais altos nos EUA está cada vez mais próximo. “A retomada do crescimento parece duradoura e é inevitável haver uma pressão de preços por um bom tempo. Isso deve levar, consequentemente, a um aumento na taxa de juros”, afirma.

Astrauskas defende que os sinais já estão na última ata do Fomc (comitê de política monetária dos Estados Unidos), divulgada nesta quarta-feira, 19. O documento indicou que algumas autoridades do Federal Reserve – pelo menos durante a última reunião em 27 e 28 de abril – consideraram reduzir o apoio à política monetária adotada durante a pandemia. “A ata do Fomc confirmou o argumento de que há um cenário provável de retirada gradual de estímulos (leia-se aumento de juros)”, diz.

Alguns analistas, no entanto, destacam que o documento já ficou obsoleto entre a data da reunião, no final de abril, e a divulgação em meados de maio. Nesse meio tempo, foram divulgados dados de emprego mais fracos do que o esperado, o que corrobora a visão do Fed de que a economia ainda precisa de estímulos para se recuperar.

Além disso, a mensagem principal da ata é a de que os níveis de atividade e de emprego ainda estão "muito longe" do objetivo traçado pelo Fed, o que seria suficiente para manter os juros no patamar em que estão. Os investidores, no entanto, parecem estar cada vez mais céticos.

“A ata veio com um tom bem previsível e o mercado não gostou. O Fed ficou em linha com o que já vinha sendo dito: que há tempo hábil para fazer mudanças na política monetária quando for a hora correta. O mercado discordou dizendo que o banco central americano está sendo muito complacente com a inflação”, afirma Duarte.

O descontentamento se mostrou principalmente no rendimento dos títulos americanos de 10 anos, os Treasuries. Utilizado como termômetro para as expectativas de inflação, o rendimento chegou a subir quatro pontos-base (ou 0,04 ponto percentual) na máxima intradiária desta quarta-feira, 19, para 1,678%. As bolsas de Nova York também reagiram mal e fecharam em terreno negativo pelo terceiro dia seguido.

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Foto de Beatriz Quesada da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Beatriz Quesada

Repórter de mercados, passou pelas redações da revista Capital Aberto e rádio BandNews FM | beatriz.quesada@exame.com


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