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Dilema da Vale: ação vai cair com minério ou subir após dividendos?

PUBLICADO EM: 16.9.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 16.9.21 | 9H28
Papéis recuaram 20% com queda do ferro, mas analistas apontam ganhos com distribuição de proventos

Resumo do investidor

1. Queda do minério de ferro levou ações da Vale a recuarem 20% desde o recorde; 2. Por outro lado, distribuição ‘incomparável’ de dividendos (ainda) não está fazendo preço no mercado; 3. Analistas reforçam que ação continua atrativa mesmo com minério na casa dos US$ 100 a tonelada.

Um trem de carga transportando minério de ferro viaja para Port Hedland, Austrália, na terça-feira, 19 de março de 2019. A dois dias de carro da cidade grande mais próxima, Perth, Port Hedland é o nexo da indústria de minério de ferro da Austrália, o terminal de uma das ferrovias privadas mais longas da Austrália que transporta minério cerca de 400 quilômetros (250 milhas) das minas do BHP Group e Fortescue Metals Group Ltd. A linha operou um trem de teste recorde pesando quase 100.000 toneladas que era mais de 7 quilômetros em 2001, e mesmo trens normais transportam até 250 vagões de minério.

Commodity enfrenta um período de volatilidade sem precedentes, com queda de 46% na cotação | Foto: Ian Waldie/Bloomberg (Bloomberg)

Foto de Beatriz Quesada da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Beatriz Quesada

Repórter de mercados, passou pelas redações da revista Capital Aberto e rádio BandNews FM | beatriz.quesada@exame.com



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Os últimos quatro meses foram amargos para os acionistas da Vale (VALE3). As ações da mineradora caíram 20% desde sua cotação recorde em 11 de maio, em razão da forte queda no preço do minério de ferro. A commodity enfrenta um período de volatilidade sem precedentes com queda de 46% na sua cotação no mesmo período. 

Os papéis, no entanto, podem estar próximos de um ponto de virada. A mineradora vai distribuir dividendos até o fim de setembro, e a expectativa de analistas é que o montante fique em torno de 8 bilhões de dólares (cerca de 42 bilhões de reais). 

Segundo cálculos de analistas do BTG Pactual (BPAC11), a companhia deve distribuir os 5,3 bilhões de dólares em proventos mínimos já informados para o período (referentes ao resultado da mineradora do primeiro semestre deste ano) somados a uma remuneração extra de 2,7 bilhões de dólares. 

“A maioria dos investidores parecem estar fixada na correção do preço do minério de ferro, e há menos atenção a essa distribuição do que deveria haver”, afirmam, em relatório, os analistas Leonardo Correa e Caio Greiner.

O novo montante levaria a Vale a distribuir cerca de 20 bilhões de dólares (em torno de 105 bilhões de reais) em retornos aos acionistas ao longo de 2021, valor que, na visão dos analistas, é “substancial e incomparável no setor”.

A derrocada do minério de ferro, no entanto, continua a preocupar. A causa da turbulência está na China, maior consumidora mundial da commodity. Há meses o governo chinês vem adotando uma política de restrição na indústria de siderurgia e mineração para tentar bater suas metas ambientais. O controle estatal sobre a produção de aço -- que tem o minério como principal insumo -- está afetando a demanda pelo minério.

Além disso, a variante Delta do coronavírus ameaça a retomada econômica da China. Divulgados na última quarta, dia 15, indicadores chineses referentes ao mês de agosto decepcionaram em praticamente todas as frentes e mostraram um forte recuo no crescimento da produção industrial, que desacelerou de 6,4% para 5,3% no acumulado de 12 meses. 

O desaquecimento no mercado de construção derrubou a produção de aço da China para o menor nível em 17 meses em agosto e se tornou um dos grandes responsáveis pela queda da demanda e, por tabela, do preço do minério de ferro. A commodity encerrou a última sessão negociada a 116,65 dólares a tonelada.

“A cotação do minério está longe do pico. No auge, o preço ultrapassou 200 dólares e agora está próximo dos 120 dólares por tonelada. Ainda é um patamar interessante para a Vale, mas é difícil prever qual vai ser a tendência para o preço nos próximos meses”, afirma Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. É esse receio que faz a casa manter recomendação neutra para os papéis da Vale.  

Outros analistas, no entanto, estão mais otimistas com o papel mesmo com o minério longe das cotações máximas. O Bradesco BBI mantém a recomendação de compra para os papéis da Vale, avaliando que o mercado de minério de ferro irá sustentar preços acima de 100 dólares por tonelada em 2022. A média de projeção do banco é de 120 dólares por tonelada para o próximo ano. 

Já o BTG Pactual vê perspectivas atrativas para a Vale mesmo com o minério na casa dos 100 dólares. O banco projeta que essa faixa de preço deixaria a mineradora com um múltiplo EV/Ebtida (que calcula o valor da companhia dividido por seu potencial de caixa) de 3,5 vezes, considerado ainda “muito atraente”.

“A ação parece altamente subvalorizada, mesmo sob cenários conservadores de preços de minério de ferro”, afirmam os analistas. A recomendação é de compra.

Outro catalisador positivo é que a Vale pretende se adequar às restrições ambientais chinesas. Em encontro com investidores no início do mês, a companhia reforçou a necessidade de se colocar como fornecedora de um minério de maior qualidade.

O objetivo é investir na produção do chamado "briquete verde", aglomerado de minério de ferro capaz de reduzir em até 10% a emissão de gases poluentes na produção de aço. A empresa está construindo três plantas para essa operação, que deve começar em 2023.

A companhia também afirmou estar trabalhando em uma reestruturação societária até o fim do ano, que pode gerar uma cisão – e um futuro IPO – de sua unidade de metais básicos, destravando ainda mais valor para os papéis.

Foto de Beatriz Quesada da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
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