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E se Petrobras não decolar? Superdividendo compensa, diz gestora

PUBLICADO EM: 14.11.21 | 7H00
ATUALIZAÇÃO: 15.11.21 | 10H15
Ciro Aliperti Neto, fundador e CIO da SFA, explica por que investe na estatal e revela a small cap em que concentra até 30% do portfólio
Petrobras pode ter composição inédita, com 5 conselheiros de minoritários

Fachada da Petrobras no edifício-sede da companhia no Rio de Janeiro | Foto: Sergio Moraes/Reuters

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Enquanto os ruídos políticos levaram parte do mercado a trocar Petrobras (PETR3/PETR4) por petroleiras privadas, a gestora SFA Investimentos segue confiante com as ações da estatal. Para Ciro Aliperti Neto, fundador e CIO da SFA, a Petrobras está tão barata que, mesmo que o preço das ações não dispare, vale a pena tê-la pelos dividendos.

"Não se vê esse tipo de dividendo nas petroleiras estrangeiras, só na Petrobras. Se ela ficar parada, já está ótimo. Ela será capaz de pagar de 15% a 20% de dividendo pelos próximos anos", afirmou em entrevista à EXAME Invest.

No fim de outubro, a empresa informou que irá pagar 31,8 bilhões de reais em remuneração aos acionistas, que, somados aos 31,6 bilhões de reais que já haviam sido anunciados anteriormente, totalizam pagamentos de 63,4 bilhões de reais referentes ao exercício de 2021.

"O preço do petróleo está impactando o custo de energia no mundo inteiro e batendo na inflação. Há reclamações de políticos de toda a parte do mundo, mas há pontos que inibem fazer políticas de preços nefastas para a companhia. Também já existe a precificação para todos esses riscos", disse.

Por outro lado, Aliperti Neto pontua que, embora goste da empresa, "tem que calibrar o tamanho da posição, pois há riscos políticos". A característica, segundo ele, é bem diferente da Sinqia (SQIA3), maior posição da gestora.

"Somos acionistas desde 2013, quando abriu capital na bolsa. É uma empresa que já se multiplicou várias vezes dentro do nosso portfólio." Atualmente, a posição na companhia tem ficado entre 25% e 30% dos investimentos da gestora. 

"A ação [da Sinqia] está caindo, mas por dinâmica de mercado. [Investidores] estão vendendo ações de tecnologia porque o juro está subindo, mas sem olhar o que a empresa está fazendo. Para nós, isso é uma oportunidade. Ficamos tranquilos."

Confira abaixo a entrevista com Ciro Aliperti Neto, fundador e CIO da gestora SFA.

A bolsa vem de quatro meses de queda. É um bom momento para investir pensando no longo prazo?

Acho que sim. Há um mantra de que a bolsa brasileira vai cair 10% pelo menos duas vezes por ano. A volatilidade de mercado existe e é inerente ao mercado de ações, mas entendemos que a volatilidade passa a ser uma oportunidade se houver visão de longo prazo e conhecimento profundo dos negócios.

Quando cai o preço, ficamos tranquilos porque conhecemos o negócio, dá até para aumentar a exposição. Quando não se conhece o negócio, a queda machuca mais e leva a piores decisões . 

Quando está tudo bem, todo mundo vai para a bolsa, e, quando está mal, as pessoas saem. É um ciclo de destruição de riqueza. Tem que investir em bons negócios quando o preço está barato, e não quando está caro. Hoje há oportunidade de comprar alguns negócios a preços interessantes. O importante é entender o modelo de negócio e a capacidade de gerar retorno. Quanto mais longo o prazo, mais o valor que o negócio gera tende a convergir com o preço de tela. 

Ciro Aliperti Neto, gestor e CIO da SFA | Foto: Divulgação (SFA/Divulgação)

Vocês aproveitaram essas quedas para aumentar posição em alguma ação?

Não ficamos totalmente investidos a todo tempo, até porque o Brasil é bem volátil. Então, ter caixa nestes momentos de maior volatilidade acaba se tornando uma excelente oportunidade. Aumentamos posição em algumas coisas e podemos trocar posições, por causa de preço ou dinâmica qualitativa do negócio.

Se achamos que a empresa perdeu vantagens, trocamos. Sempre movimentamos o portfólio de empresas, mas baseado em análise profunda e visão de longo prazo. Não tentamos adivinhar qual ação mais vai subir no mês seguinte. 

Em quais ações vocês aumentaram posição?

Aumentamos em Porto Seguro (PSSA3) e voltamos a ter posição (ainda que pequena) em B3 (B3SA3). São empresas que acompanhamos e voltamos a colocar o capital para trabalhar.

No início do ano, ninguém imaginava Selic a dois dígitos, como já vem sendo projetado. Essa dinâmica de juros no Brasil alterou a forma como a SFA investe?

Sem dúvida. Ter uma Selic de 4,5%, como no pré-pandemia, e uma Selic de 12% faz diferença. Para uma empresa muito alavancada, a dívida atrelada ao CDI vai ficar mais cara. Tem que ter projetos com retornos maiores, porque o custo de capital aumenta. Cada empresa vai ter uma particularidade. 

Aqui, sempre gostamos muito de empresas com pouca alavancagem, muita geração de caixa ou com caixa líquido. Há empresas mais e menos impactadas. Tem empresas com impactos até positivos, como a Porto Seguro. Ela tem o dinheiro que recebe dos prêmios e aplica a CDI. 

A questão não é só a Selic subir, é haver uma desorganização da economia. Se o país entrar em um período inflacionário e recessivo, isso impacta as empresas. Elas não são imunes ao que está acontecendo no país, mas algumas passam de maneira mais saudável e saem até mais forte, tomando mercado de concorrentes.

Como a SFA vê os impactos disso no varejo? Abre espaço para mais operações de consolidação?

O varejo é impactado, mas tem que olhar cada empresa. Temos posição em Soma (SOMA3) e Renner (LREN3). Mas as duas vendem roupa de forma bem diferente. A Renner vende mais para a classe B. A Soma vende para um público de renda mais alta, com marcas icônicas. Esse público é menos afetado se a Selic é 2%, 7% ou 10%.

Mas a Renner tem caixa líquido, não vai sofrer com a alta da Selic. Varejistas de moda menores vão sofrer muito. Provavelmente, Soma e Renner vão ganhar mercado. Vai depender muito de como estão a situação financeira da empresa, o nicho e o produto. 

A SFA tem ações da Petrobras. Como vocês avaliam os rumores sobre mudanças em política de preços? Apesar disso, a ação está barata?

Petrobras tem todo o risco inerente de o governo mexer, mas hoje é mais protegida que na época da [ex-presidente] Dilma Rousseff. O preço do petróleo está impactando o custo de energia no mundo inteiro e batendo na inflação. Há reclamações de políticos de toda a parte do mundo, mas há pontos que inibem políticas de preços nefastas para a companhia. Também já existe a precificação para todos esses riscos políticos. Hoje a Petrobras é negociada com desconto em relação às maiores do setor e às russas. 

Vemos boa parte disso no preço, o que faz com que a Petrobras tenha uma geração de caixa fortíssima, acima de 20% ao ano de caixa. E tem o novo programa de dividendos, pagando 18% de dividend yield, que é muita coisa. Para os próximos anos, mesmo ela ficando parada, deve pagar dividendos entre 15% e 20% ao ano. Gostamos da empresa, mas temos que calibrar o tamanho da posição, pois há riscos políticos. Ainda assim, ela é capaz de gerar valor por causa desse preço super descontado. 

Hoje a ação está em queda no ano, apesar de toda a alta do petróleo. Sem esses ruídos políticos, poderíamos ver os papéis da Petrobras mais próximos da valorização da PetroRio (PRIO3)?

A Petrobras está em queda no preço. Se considerar os dividendos, a Petrobras está subindo no ano, porque está pagando muito dividendo. Quando faz a conta de valor que a empresa está gerando, não é só a variação da ação, mas também o dividendo que está recebendo. Mas, sem dúvida, se não houvesse as interferências que teve, como a troca de presidente, ela poderia estar subindo bem mais no ano, com 40%, 50% [de alta].

Como a ação da Petrobras não subiu, ela ficou muito barata e por isso o dividendo é tão alto. A Petrobras gera muito caixa e tem um custo de extração baixo, de 28 dólares. Esse custo chegou a ser na casa dos 40. Isso vem diminuindo com a venda de poços em águas rasas e terrestres, que têm custo maior, e ficando com o pré-sal, que tem custo de extração muito menor. Não se vê esse tipo de dividendo nas petroleiras estrangeiras, só na Petrobras. Se ela ficar parada, já está ótimo. Ela será capaz de pagar de 15% a 20% de dividendo pelos próximos anos.

Diferentemente do petróleo, que segue próximo das máximas de 2018, o minério de ferro já está distante dos maiores patamares do ano. Qual é a visão sobre o setor de siderurgia e mineração?

Enquanto na parte de petróleo vemos um ambiente muito favorável para o preço se manter em nível alto, em minério vemos uma dinâmica diferente. Vemos a China preocupada. No início do ano, chegaram a vender minério físico nos portos. O próprio setor imobiliário da China vem apresentando problemas, vide a Evergrande. No próprio setor de siderurgia os preços estão caindo. Dada a perspectiva para o ano que vem, de crescimento muito fraco devido à alta de juros, não devem conseguir repassar os preços. Os volumes devem ser mais fracos e os preços devem ceder. 

Fomos investidores da Gerdau (GOAU4) por muito tempo, a empresa está um brinco. Mas estamos de fora, pois esperamos entrar em níveis mais interessantes

A SFA tem uma posição grande em Sinqia. Pode explicar a tese e como a alta de juros deve impactar a empresa?

As empresas de tecnologia sofreram muito no mercado. Mas tecnologia tem de tudo, desde marketplace e fintech até uma empresa de software, que é tecnologia de fato.

O impacto da alta de juros é bem menor na Sinqia, que é uma empresa de software para o mercado financeiro. Os clientes dela são grandes bancos, o custo para a troca do software é altíssimo, ela tem receita recorrente, churn [perda de cliente] baixíssimo e contratos corrigidos pela inflação. Uma das teses dela também é a consolidação do setor, que a Sinqia vem fazendo há muito tempo, desde o início dos anos 2000. Ela vem se tornando cada vez mais one-stop-shop e consegue fazer o cross-sell cada vez maior. A Sinqia tem um crescimento orgânico muito forte, de 20% ao ano. 

Somos acionistas da empresa desde 2013, quando abriu capital na bolsa. É uma empresa que já se multiplicou várias vezes dentro do nosso portfólio. A empresa tem vantagens competitivas, modelos de negócio de que gostamos e executivos capazes de alocar capital de forma muito eficiente ao longo dos anos. Em 2021, Sinqia terá o melhor ano de sua história, crescendo de 60% a 70% em receita, e a geração de caixa vai quase dobrar. 

A ação está caindo, mas por dinâmica de mercado. [Investidores] estão vendendo ações de tecnologia porque o juro está subindo, mas sem olhar o que a empresa está fazendo. Para nós, isso é uma oportunidade. Ficamos tranquilos. 

Hoje é a maior posição do fundo?

É a maior posição já há algum tempo. Nossa posição em Sinqia tem girado entre 25% e 30%. 

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com


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