Exame Invest
Mercados

Extensão do auxílio pode ser um 'desastre' para o mercado, diz Opportunity

PUBLICADO EM: 17.1.21 | 6H30
ATUALIZAÇÃO: 17.1.21 | 9H43
Apesar de incertezas internas, Marcos Mollica acredita que momento externo favorável e alta das commodities vão continuar a impulsionar o Ibovespa

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



Compartilhe nas redes sociais
GUIA
Em alta

INVISTA 7MIN

Forte retomada econômica, queda do desemprego, novos estímulos e manutenção da taxa de juros abaixo do nível de inflação. Esse é o cenário que Marcos Mollica, gestor de fundos multimercados do Opportunity, uma das maiores e mais tradicionais gestoras do país, espera para 2021. Mas para a economia americana. Para o Brasil, Mollica vê o atraso para o início da vacinação amplificando as incertezas fiscais.

Que tal investir com especialistas que selecionam a nata da nata dos fundos para o seu perfil? Conheça a EXAME Research

“Há uma combinação perfeita para a pressão política por mais auxílio. O ponto é que seria um desastre para o mercado. Abalaria muito a credibilidade fiscal se houvesse uma renovação do auxílio emergencial que violasse o teto de gastos ou fosse feita por fora do teto”, afirma Mollica em entrevista à EXAME Invest.

Embora desconfortável com aspectos locais, Mollica espera um cenário de reflação global impulsionado por estímulos, que devem ganhar ainda mais força após a ampla vitória democrata nas eleições americanas.

“Esse crescimento é muito positivo para as bolsas, principalmente para os setores mais cíclicos, como o de consumo discricionário e a parte de commodities e energia”, afirma. "Toda nossa tese de investimento está girando em torno desse tema", afirma.

Segundo Mollica, foram essas apostas que levaram investidores estrangeiros a entrar, nos primeiros dias do ano, com mais de 15 bilhões de reais na B3. "Essa questão internacional é muito positiva para a bolsa brasileira e, em particular, para o índice [Ibovespa]", diz.

Para aproveitar o movimento, Mollica tem se posicionado em ações da Petrobras, Gerdau e Vale, que considera "barata", com os atuais patamares de preço do minério de ferro. Nos Estados Unidos, a expectativa é que o S&P 500 siga quebrando recordes, impulsionado por setores cíclicos -- e não mais pelo de tecnologia, que considera estar com preços em “níveis mais desafiadores”. Confira a entrevista à EXAME Invest.

Qual estratégia o fundo multimercado do Opportunity tem adotado para montar suas posições?

O tema principal é o de reflation trade. A perspectiva de continuidade de estímulos nos Estados Unidos, com ampliação de pacotes fiscais, depois da vitória democrata na Geórgia. Isso está dando um clima bastante positivo internacionalmente. Toda tese de investimento nossa está girando em torno desse tema. 

Como esse caminhão de estímulos que vem do fiscal e do Federal Reserve pode impactar o mercado e as perspectivas de inflação nos Estados Unidos?

Vai ajudar na recuperação americana, que vai ser mais robusta neste ano, com retomada de empregos. Isso gera uma recomposição do prêmio de inflação implícita no mercado. O mercado acredita que a inflação vai aumentar. Também tem impacto desse crescimento global em commodities, que têm performado muito bem depois dessa vitória dos democratas.

Agora, nos Estados Unidos, a inflação ainda está muito tranquila e esperamos que ela ainda fique muito tranquila ao longo de todo esse ano. O impacto maior é na inclinação dos juros americanos mais longos, com uma maior inclinação das curvas. Esse cenário de crescimento é muito positivo para as bolsas, principalmente para os setores mais cíclicos, como consumo discricionário e a parte de commodities e energia. 

Como o Opportunity tem se posicionado com relação à bolsa? As apostas são justamente em empresas de commodities? E como está a exposição do fundo com relação à bolsa americana?

Nos Estados Unidos, temos maior exposição via ETFs, porque é muito líquido lá. Estamos mais otimistas com a economia, isso reflete posições mais em S&P 500 e nesses setores cíclicos que citei, como o de consumo e o de energia, que vão se beneficiar da retomada econômica e da vacina, já que nos Estados Unidos já está em curso.

No Brasil, também gostamos do índice [Ibovespa], que tem esse viés mais cíclico. Bancos, Petrobras e Vale já são uma parte substancial do Ibovespa. Fora isso, investimos em ações específicas. Gostamos de Vale, Gerdau e Petrobras. Essas são as ações em que apostamos para pegar esse tema mais global.

O minério de ferro dobrou de valor desde o ano passado. Ainda há espaço para novas altas ao longo de 2021?

O minério de ferro já está em níveis bem esticados. Achamos que os ganhos daqui para frente vão ser bem mais modestos, mas também não vemos uma reversão dessa tendência. Com a manutenção do preço do minério nesse patamar, uma empresa como a Vale está barata. O fluxo de caixa que ela gera com esse valor de minério já é excepcional em relação ao preço que ela tem no mercado. Só a manutenção já é muito positiva.

O petróleo Brent subiu cerca de 50% desde novembro, mas ainda está em patamares abaixo do início de 2020. Ainda há espaço para valorização?

Sim, acredito que tem espaço para valorização.

Falava-se muito, durante as eleições americanas, que uma possível vitória de Joe Biden poderia ser negativa para a indústria de combustíveis fósseis. Isso deve influenciar no preço do petróleo?

Não existe um consenso muito grande dentro dos democratas e a margem que eles têm para aprovar temas polêmicos já é bem reduzida. Eles têm maioria na Câmara, mas no Senado há um empate com os republicanos com um voto para decidir, que é o do vice-presidente [Kamala Harris]. Precisaria de um consenso muito grande dentro do Partido Democrata para que esses temas avancem. Existe um consenso sobre uma expansão fiscal, mas em sistemas regulatórios tem mais discussão. Por enquanto, o que vemos é essa recuperação cíclica predominando.

O senhor disse que o cenário de inflação está tranquilo nos EUA, mas no Brasil temos visto indicadores superando as estimativas. Como o senhor avalia esse cenário e como isso pode impactar a taxa de juros?

O ano passado foi um ano complicado, com uma concentração de choques que afetaram a inflação. Teve essa alta de commodities, que pegou muito no ano passado. O auxílio emergencial aumentou muito a demanda por produtos básicos, como alimentos. Teve desorganização das cadeias de produção devido às paralisações. E teve o choque de câmbio pelos riscos fiscais – aí foi culpa nossa mesmo [do Brasil]. 

Olhando para 2021, acho que os dois primeiros choques se dissipam. Já houve uma mudança significativa no preço de commodities. Pode ter uma alta adicional, mas vai ser menor percentualmente. E o impacto do auxílio desaparece, se não tiver uma volta desse tema. Neste ano, o risco para inflação é o câmbio. Com esse nível de preço de commodities, era para estarmos com um câmbio muito mais apreciado, o que atenuaria essas pressões inflacionárias.

O fiscal segue pressionando nossa moeda?

Os riscos domésticos, políticos e fiscais estão pressionando muito o câmbio, fazendo ir na outra direção. Isso ajuda a puxar a inflação para cima. Nosso risco é o fiscal desandar e o Banco Central ser obrigado a subir os juros. Mas se passar a eleição na Câmara e a coisa não sair do trilho, espero que o Banco Central comece a normalização [dos juros] só no segundo semestre, entre agosto e setembro, e a inflação fique perto do centro da meta, entre 3,60% e 3,70%.

Em meio à eleição para a presidência da Câmara e do Senado, tem crescido a pressão para uma extensão do auxílio emergencial para 2021. Quais podem ser os efeitos no mercado de um novo auxílio?

A pressão está aí porque existe uma combinação de fatores. A eleição na Câmara abre espaço para uma maior demanda por pautas populares e estamos no meio de uma onda de covid bastante agressiva. Simultaneamente, estamos com uma economia bastante fraca, com 14 milhões de desempregados. 

Há uma combinação perfeita para a pressão política por mais auxílio. O ponto é que seria um desastre para o mercado. Abalaria muito a credibilidade fiscal se houvesse uma renovação do auxílio que violasse o teto de gastos ou fosse feita por fora do teto.

Um auxílio adicional – que acho uma discussão muito válida – teria que vir de um remanejamento de despesas, com a diminuição de outros gastos para abrir espaço [para os gastos]. Aí sim seria uma discussão válida e necessária. Mas se for pelo caminho fácil, de furar o teto ou fazer um puxadinho no teto, vai abalar a credibilidade do governo e ter impacto muito negativo no mercado.

O atraso para o início da vacinação no Brasil tem feito pressão sobre o câmbio?

Sim. As coisas são ligadas. Estamos no meio da onda de covid e, se mostra que a vacina não está vindo, o mercado acha que as coisas vão piorar, o que tende a aumentar a pressão política por mais auxílio. A desorganização com a vacina abalou.

Apesar de todas as incertezas, estrangeiros colocaram mais de 15 bilhões de reais na bolsa nos primeiros dias de janeiro. O que está fazendo com que esses recursos continuem entrando? 

A bolsa tem um componente cíclico muito forte na parte de commodities e o estrangeiro está entrando atrás desses fatores. Diria que tem pouca relação com o país. Sinto que ainda há muita reticência do investidor estrangeiro com o Brasil. Há muita dúvida sobre teto de gastos, crescimento (pelo atraso na vacina), política (com a indefinição da presidência da Câmara). Essa dúvida política acaba gerando dúvidas sobre a continuidade das reformas. E neste momento em que tudo vai bem lá fora, [o investidor estrangeiro] ainda não está buscando se envolver na situação da economia brasileira.

A concentração em empresas de commodities pode levar o Ibovespa a mais um ano de alta, mesmo que questões internas não tenham sido encaminhadas?

Sim, é muito possível. Essa questão internacional é muito positiva para a bolsa brasileira e, em particular, para o índice. 

No ano passado, vimos os índices americanos batendo sucessivos recordes. A forte alta fez o preço/lucro do S&P 500 crescer muito. Os investidores vão continuar comprando bolsa mesmo com os ativos ficando, de certa forma, mais caros? 

Acho que sim, mas vai ter uma rotação dos setores em que os investidores vão focar neste ano. No ano passado, houve grande predominância do setor de tecnologia. Nesse setor, os múltiplos estão, realmente, em níveis mais desafiadores. Está acontecendo uma saída dos setores de tecnologia para setores mais cíclicos, ligados a consumo, energia, commodities. Acho que a bolsa vai subir com uma composição diferente da que foi no ano passado. 

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com


Compartilhe nas redes sociais
Mosaico do rodapé com as cores da Exame