Exame Invest
Mercados

Por que a fala de Campos Neto derrubou os juros e chacoalhou o dólar hoje?

PUBLICADO EM: 14.9.21 | 16H51
ATUALIZAÇÃO: 14.9.21 | 17H13
O presidente do BC afirmou, no evento MacroDay, que acompanha as mudanças de curto prazo, mas que nem sempre ocorrerão "alterações no plano de voo"

Foto de Paula Barra da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Paula Barra

Repórter de mercados da Exame. Formada em jornalismo pelo Mackenzie e pós-graduada em Produtos Financeiros e Gestão de Risco pela FIA. Especializada na cobertura do mercado financeiro, com passagens pelo InfoMoney, Empiricus e TradersClub | paula.barra@exame.com



Compartilhe nas redes sociais
GUIA
Em alta

INVISTA 4MIN

A fala do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, no MacroDay 2021, evento do BTG Pactual, nesta terça-feira, 14, movimenta os ativos financeiros, em especial os contratos mais curtos de juros futuros.

Isso porque Campos Neto comentou que o BC não vai agir a cada nova modificação dos dados de "alta frequência". Segundo ele, a autoridade está acompanhando os componentes do processo inflacionário e as mudanças no curto prazo, mas que nem sempre ocorrerão "alterações no plano de voo", cujo foco é um "horizonte mais longo".

Para o mercado, a sinalização foi clara de que o ritmo de alta da Selic de 1 ponto percentual não será modificado.

"O mercado interpretou praticamente como uma confirmação de uma alta de 1,0 p.p.", comentou Fábio Guarda, gestor da Galapagos Capital.

Em reação, a curva de juros, que projetava uma elevação entre 1,25 e 1,50 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), entre os dias 21 e 22 de setembro, rapidamente sofreu um ajuste para uma alta de 1,0 p.p.

A parte curta da curva sofreu o maior baque. Os contratos para janeiro de 2022 afundaram 0,33 p.p., para 6,995%, enquanto para janeiro de 2023 recuou 0,29 p.p., para 8,865%. Já os contratos mais longos mostraram menor oscilação. Os com vencimento em janeiro de 2027 registraram queda de 0,03 p.p.. Os para janeiro de 2029 ficaram praticamente estáveis, em 10,72%.

"A ponta mais longa ficou marginalmente mais desancorada", explica Guarda. "Essa maior leniência do BC com os dados correntes está fazendo o mercado colocar uma probabilidade maior de inflação nos próximos anos".

Segundo ele, isso pode ser observado também nos títulos atrelados ao IPCA, que passaram a negociar com uma gordura maior de inflação implícita. "Nos títulos com vencimento em 2024, a inflação implícita, que já chegou a negociar abaixo de 5%, está agora em 5,35%", disse.

Segundo André Perfeito, economista-chefe da Necton, se o BC elevar em apenas 1,0 p.p. na próxima reunião, a tendência é que a curva de juros fique mais inclinada. Ou seja, os juros mais longos mais elevados.

"É uma decisão do BC sobre a velocidade do ajuste e do prolongamento do ajuste no tempo. Ou ele faz esse ajuste mais rapido e com altas mais fortes ou mais solto no tempo. Talvez ele queira fazer esse ajuste mais prolongado no tempo porque acredita que boa parte da inflação seja transitória", comentou. Mas, para Perfeito, o mercado quer mais juros para poder equilibrar a inflação esperada.

Ivo Chermont, sócio e economista-chefe da Quantitas, disse que, após o comentário, a gestora revisou sua projeção para a Selic. "Tinhamos elevado a projeção da próxima reunião para alta de 1,25 p.p. depois dos dados do IPCA, mas agora estamos voltando atrás".

"Se tinha algum momento para acelerar seria agora. É muito difícil que ocorra depois, a não ser mude muita coisa", comentou.

Segundo ele, a expectativa ainda é de Selic a 10% até março do ano que vem, mas em um ritmo diferente. "Projetamos quatro altas de 1,0 p.p. e uma última de 0,75 p.p.".

Nesta terça, o Itaú elevou sua projeção para o IPCA de 7,7% para 8,4% em 2021, e de 3,9% para 4,2% em 2022. Citando uma piora do balanço de riscos, o banco aponta que passou a projetar alta da Selic para níveis mais contracionistas, com três elevações de 1,0 p.p. e um último de 0,75 p.p., chegando a 9,0% em 2022.

Dólar

O dólar também mostrou forte oscilação hoje. Na contramão do exterior, a moeda chegou a cair 0,4% nesta manhã. O movimento foi atribuído a mais uma fala de Campos Neto.

O presidente do BC sinalizou atuação no mercado de câmbio no fim do ano, quando poderia haver maior demanda por dólar, principalmente relacionada ao ajuste do overhedge.

"Provavelmente vai ser preciso intervir para fazer frente a demandas pontuais do dólar no fim do ano", comentou Campos Neto.

"Isso trouxe relativa tranquilidade ao dólar durante uma parte do dia, que passou a operar na contramão dos pares emergentes. Dados de inflação nos EUA mais fracos do que o esperado levou a uma realização das bolsas americanas e Treasuries, fazendo o dólar no mundo negociar mais forte frente aos emergentes. No entanto, a moeda aqui segurou um pouco por conta do comentário de Campos Neto sobre o overhedge", disse Guarda.

Com a piora das bolsas dos EUA nesta tarde, o dólar, contudo, voltou a subir e registrava, às 16h45, alta de 0,72%, em 5,26 reais.

Foto de Paula Barra da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Paula Barra

Repórter de mercados da Exame. Formada em jornalismo pelo Mackenzie e pós-graduada em Produtos Financeiros e Gestão de Risco pela FIA. Especializada na cobertura do mercado financeiro, com passagens pelo InfoMoney, Empiricus e TradersClub | paula.barra@exame.com


Compartilhe nas redes sociais
Mosaico do rodapé com as cores da Exame