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ESG

Fundo global de mudanças climáticas valoriza 30% e atrai investidores

PUBLICADO EM: 18.8.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 18.8.21 | 0H51
Franklin Templeton Global Climate Change busca investidores brasileiros
Gestor Craig Cameron, da Franklin Templeton

Craig Cameron aponta um grande entusiasmo sobre o tema da energia renovável em 2020, que levou as ações do segmento a registrarem um bom desempenho

Imagem da Editoria Exame Invest
Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com



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A gestora Franklin Templeton tem conversado com bancos e plataformas brasileiras e notado interesse pelo seu fundo global de mudanças climáticas. Apenas nos últimos 12 meses, o Franklin Templeton Global Climate Change registrou retorno de 30%.

A gestora está confiante de que o produto tem potencial de captação no país. As melhores indicações vêm de um fundo da concorrência, o BB Ações Nordea Climate and Enviroment, que acumula mais de R$ 1,1 bilhão de patrimônio em cerca de três anos de vida; da demanda por fundos ESG, especialmente desde o início da pandemia; e pela ausência de outros fundos globais com uma temática semelhante no mercado brasileiro, com exceção do concorrente citado.

Alguns dos players estão em fase final de diligência da estratégia. Caso a fase seja concluída e o conceito seja aprovado, a gestora discutirá as condições de lançamento do fundo no país. Os custos totais do fundo são de 0,98% ao ano, já incluída a taxa de gestão. Eventuais veículos locais a serem criados no país terão esta taxa como piso.

Para entender melhor a estratégia do fundo, a EXAME Invest conversou com Craig Cameron, gerente de portfólio para os fundos de mudanças climáticas e analista de pesquisa do Templeton Global Equity Group. Sua principal responsabilidade, desde 2013, é a cobertura global de energia renovável. Antes de ingressar na Templeton em 2012, foi analista da Standard Life.

Quais são os diferenciais do fundo? O que explica o desempenho recente?

Estamos migrando para uma economia com baixa emissão de carbono, e buscamos no fundo investirinvestir em ações de empresas listadas que forneçam soluções para isso. O horizonte de investimento nos papéis é de até 10 anos.

No último ano houve um grande número de estímulos com foco na descarbonização da economia. Eles aconteceram ao redor do mundo, na América Latina e também na Europa.

Os pacotes contêm, por exemplo, iniciativas que estimulam o hidrogênio ao aumentar o uso de veículos elétricos e baterias. Há também subsídios a projetos com hidrogênio ambiental, que pode ser usado como combustível para a indústria do aço, que é difícil de ser descarbonizada.

Como o segmento de ativos temáticos relacionados a a mudanças climáticas se enquadram na temática ESG, que sabemos que avançou muito nos últimos anos? 

O tema de mudança climática tem cada vez mais importância, principalmente depois que foi firmado o Acordo de Paris, em 2016. Desde então, vários países e grandes empresas prometem zerar a sua emissão de carbono. Em paralelo vemos decisões governamentais que levam o tema mais a sério. Contudo ainda temos de fazer mais se quisermos alcançar a meta proposta pelo acordo.

Vimos um grande entusiasmo sobre o tema da energia renovável em 2020. As ações do segmento tiveram um desempenho muito bom, que continuou em 2021. Muitos investidores entraram no mercado.

O portfólio do fundo abrange segmentos como restrições de combustíveis fósseis, emissões de carbono e eficiência energética. Quais são as empresas mais relevantes na carteira?

Podemos descrevê-las como empresas de soluções tecnológicas para descarbornização de energia e provedoras de maior eficiência no uso de energia.

Temos as que atuam na eletrificação do setor de transporte. Quando mencionamos energia renovável estamos falando sobre trens elétricos, veículos elétricos e materiais necessários para realizar essas mudanças. Incluimos também empresas de agricultura, de gestão cíclica de água e descarte adequado de resíduos.

Também investimos em empresas de soluções emergentes, que acreditamos que irão crescer significativamente nos próximos três a cinco anos. Um exemplo é a Albemarle, uma mineradora de lítio.

Posso citar alguns exemplos. O valor da Signify, líder do mercado de lâmpadas em LED que atingiu a neutralidade de carbono em 2020, aumentou 50% só este ano. É uma empresa com alto potencial de crescimento à medida que mais companhias adotem a tecnologia LED, mais eficiente e econômica. A empresa também tem produtos de iluminação inteligente, que desligam quando não tem ninguém por perto.

A Umicore, líder no mercado de reciclagem de metais usados em baterias de veículos elétricos, também vem mostrando um bom desempenho: valorizou 35% em 2021.

Sabemos que empresas que alcançaram um nível baixo ou são neutras em relação a emissão carbono. têm menor probabilidade de aumento de custos quando a transição para uma economia com baixa emissão de carbono for incentivada. Portanto, não só os serviços que permitam traçar esse caminho, mas também empresas que diminuam sua pegada de carbono têm potencial de crescimento.

As emissões de carbono têm caído por causa de constantes lockdowns, mas gases do efeito estufa não param de aumentar. Qual o desafio pós-pandemia?

Houve uma redução das emissões de carbono por conta da diminuição de viagens internacionais. Mas o lado ruim é que as emissões podem aumentar em 2021 e precisamos manter essa redução nos próximos 10 anos se quisermos nos enquadrar nas metas do Acordo de Paris. É um desafio enorme, que requer esforço dos reguladores.

Acredito que a redução de viagens internacionais corporativas é uma tendência que veio para ficar. Uma conferência via Zoom é muito mais neutra em emissões de carbono e algo que vamos conseguir continuar fazendo para reduzir a pegada de carbono das empresas. Também é algo que pegou no bolso: as empresas viram como reduziram gastos com viagens e não querem voltar aos níveis de 2018. Esse fenômeno acabou sendo uma contribuição climática.

Mas não é so isso. Temos de adotar mais a energia solar, tornar sistemas de calefação mais eficientes e repensar a maneira que operamos o transporte. Sem contar a indústria de cimento e aço, que ainda registram altas emissões de carbono. Para desenvolvê-las, precisaremos de mais capital.

Uma das empresas da nossa carteira já promete zerar sua emissão de carbono até 2040. Antes, a meta era 2050. Ou seja, essa mudança foi acelerada em 10 anos. Há otimismo.

Em que pé estão novas políticas e medidas de países, especialmente na Europa, para estimular essas políticas? Além da Europa, Estados Unidos e China vêm avançando no tema

Nosso foco é a Europa, que de fato está encabeçando a mudança climática. Mas não queremos sobrecarregar o fundo com ações do continente.

Há uma batalha geopolítica entre os Estados Unidos e a China. Na China há um grande incentivo para garantir a criação de uma indústria de carros elétricos. Muitos carros que temos são americanos, e correm o risco de serem substituídos por chineses caso o país tenha êxito em realizar essa transição. Como consequência, os Estados Unidos também buscam criar essa nova indústria

Temos muitas empresas globais no portfólio, cuja receita tem grande exposição a outras regiões, se considerarmos filiais. Uma delas é a Siemens Gamesa, que tem negócios na América Latina devido aos recursos naturais da região e colabora para a utilização mais sustentável da energia.

O fundo acaba atuando como consultor das empresas investidas para que reduzam mais rapidamente a sua pegada de carbono? Como funciona?

Buscamos criar um engajamento das empresas de maneira a reduzir o impacto ambiental que elas têm. Muitas empresas que investimos não só reduziram sua pegada de carbono a passos mais rápidos que os índices como estabeleceram metas maiores. Portanto, quem investe no fundo não está aplicando apenas por conta do seu bom desempenho, mas para ajudar, de fato, a diminuir as mudanças climáticas.

Quanto mais gestores como eu participarmos de reuniões, maior a probabilidade de as empresas fixarem metas ambiciosas. Sempre tentamos incentivar as companhias a investirem no tema não apenas para auxiliar na solução do problema, mas também driblar um grande risco financeiro. Pois quando a transição da economia for incentivada pelos governos essas empresas podem sofrer com penalidades, sanções e aumento de taxações.

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Marília Almeida

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