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Petrobras com Silva e Luna: alta na bolsa, mas teste maior vem agora

PUBLICADO EM: 9.7.21 | 8H40
ATUALIZAÇÃO: 9.7.21 | 10H21
Em 3 meses como CEO, general conclui saída da BR Distribuidora e anuncia 1º reajuste dos combustíveis, mas cresce a pressão de caminhoneiros
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Plataforma de extração de petróleo da Petrobras: alta das cotações internacionais favorece a companhia | Foto: Germano Lüders/EXAME (GERMANO LÜDERS)

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A recepção de Joaquim Silva e Luna nos mercados financeiros globais foi turbulenta. As ações da Petrobras (PETR3, PETR4) despencaram quando o general do Exército foi escolhido para assumir o comando da estatal, enquanto analistas se apressavam em recomendar a venda dos papéis.

A preocupação era que o militar da reserva, sem experiência na indústria do petróleo, concordasse com as demandas do governo por combustível barato e interferência nas decisões da estatal. Afinal, seu antecessor havia sido demitido dias antes por meio de um post no Facebook após uma divergência com o presidente Jair Bolsonaro por causa dos preços da gasolina e do diesel.

Pouco mais de quatro meses depois de sua nomeação, as preocupações parecem ter sido exageradas. As ações da Petrobras voltaram a níveis vistos antes de Luna assumir o cargo (veja gráfico abaixo), e a maioria dos analistas que recomendou a venda das ações mudou de ideia.

Isso porque até aqui Luna manteve o compromisso de vender ativos e definir os preços dos combustíveis em linha com o mercado -- embora haja defasagem na comparação internacional --, seguindo a estratégia de seu antecessor Roberto Castello Branco. A vitória mais recente veio com a venda da participação na BR Distribuidora (BRDT3), a maior oferta de ações do ano na bolsa, em que a estatal levantou US$ 2,3 bilhões (R$ 11,4 bilhões).

Agora, o presidente da Petrobras enfrenta seu maior teste, sob pressão da indústria de transportes, por ter aumentado os preços dos combustíveis nesta semana pela primeira vez durante seu mandato: alta de 6% para a gasolina e de 3,7% para o diesel. Os caminhoneiros estão em pé de guerra e mais uma vez ameaçam fazer greve, três anos depois que uma paralisação por questões semelhantes trouxe caos e afetou o crescimento econômico.

“Dissemos a Luna que um reajuste era inviável”, contou Plinio Nestor Dias, presidente do Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC), que representa em torno de 20.000 caminhoneiros, após reunião com Luna na semana passada. “Fomos pegos de surpresa”. Contrariada, a CNTRC enviou carta a Luna pedindo a suspensão de novos aumentos.

​Como Luna defenderá as finanças da Petrobras em meio à pressão de caminhoneiros, do presidente Bolsonaro e de consequências decorrentes de possíveis greves ajudará a determinar se a empresa pode garantir a posição de grande fornecedora de petróleo em um mundo onde apenas os maiores e mais lucrativos projetos sobreviverão à transição energética.

Teste ácido vem agora

“Veremos o ‘teste ácido’ quando Luna precisar repassar preços dos combustíveis muito mais altos aos consumidores”, disse Patrick Pereira, gestor da Legacy Capital, que possui ações da Petrobras.

Bolsonaro, que já reduziu os impostos sobre os combustíveis no início do ano para apaziguar os caminhoneiros, tem protestado contra os custos mais altos de olho na tentativa de reeleição no próximo ano.

“O alinhamento dos preços ao mercado internacional é fundamental para garantir que o mercado brasileiro siga sendo suprido sem risco de desabastecimento”, disse a assessoria de imprensa da Petrobras em resposta a um pedido de comentário.

Gestoras como Atalaya Capital, Legacy e Ibiuna Investimentos dizem que Luna teve um início positivo com seu compromisso de vender ativos e reduzir o endividamento. Investidores esperam forte geração de caixa em meio à alta dos preços do petróleo e espaço para mais ganhos das ações, que são negociadas com desconto em relação aos pares.

“Aproveitamos o ruído político no começo do ano para comprar mais”, disse César Paiva, sócio-fundador da Real Investor. “Mesmo que o petróleo continue subindo e a empresa não repasse integralmente o aumento dos preços, a Petrobras está em um momento excepcional de geração de caixa, e o processo de desalavancagem deve continuar.”

Valuation descontado

As ações da Petrobras são negociadas a 3,8 vezes o valor da empresa em relação ao Ebitda, abaixo da média histórica e em nível muito menor do que as métricas das gigantes americanas Exxon Mobil e Chevron, segundo dados compilados pela Bloomberg. A Petrobras é negociada com desconto em relação às rivais dos EUA desde 2015, no fim do último superciclo das commodities, e a diferença tem aumentado nos últimos trimestres.

Embora o risco de potencial intervenção política persista, o valuation “excessivamente descontado” e a perspectiva de forte geração de caixa ajudam a sustentar a tese, disse André Lion, sócio e gestor da Ibiuna.

(Reprodução/Bloomberg)

Lion montou uma posição em Petrobras por volta do fim do ano passado e elevou a exposição após os resultados do primeiro trimestre. Ele espera que a dívida bruta da companhia caia para US$ 60 bilhões -- patamar que permite que a empresa proponha o pagamento de dividendos extraordinários -- no terceiro trimestre. Atualmente, a dívida soma cerca de US$ 71 bilhões.

Eleito ao conselho da Petrobras com apoio de acionistas minoritários avessos à interferência política, o advogado Marcelo Gasparino considera positivo o balanço dos cerca de 80 primeiros dias de Luna na estatal.

Gasparino renunciou no mesmo dia para pressionar a companhia a convocar uma nova assembleia e é um dos três candidatos indicados por fundos privados em uma nova eleição, a ser realizada nos próximos meses. Para ele, o simples fato de Luna não ter bloqueado as vendas de ativos gerou confiança.

“Luna está sendo hábil no exercício do mandato”, disse Gasparino. “Deixar as coisas acontecerem já é muito positivo.”

O general Luna também teve sorte. Grande parte dos aumentos de preços dos combustíveis no mercado doméstico ocorreu antes de ele assumir o cargo. Desde então, a queda do dólar barateou as importações e reduziu a pressão para elevar os preços nas bombas.

Ainda assim, os mercados internacionais de petróleo continuaram subindo e o real se enfraqueceu nas últimas semanas, mais uma vez pressionando os preços domésticos para se alinharem à realidade global. Mesmo após o reajuste de preços realizado esta semana, o mercado ainda calcula que os preços praticados pela estatal seguem defasados.

Os caminhoneiros estão convocando uma greve para o dia 25 de julho. Luna negociou com os mesmos sindicatos como ministro da Defesa em 2018, quando uma paralisação por causa da alta dos preços dos combustíveis paralisou o país e terminou apenas quando a Petrobras concordou em suspender temporariamente os reajustes. O governo acabou reembolsando a Petrobras pelos subsídios, mas foi um sinal de alerta para investidores.

“O mercado está curioso para saber qual será a reação da administração: se vai manter uma política de preços independente mesmo em um cenário mais desafiador”, disse Renan Vieira, sócio-fundador da Taruá Capital. “Estamos esperando por este grande teste.”

(Com a Redação)

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