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Por que a Arezzo quer a Hering - e o que levou a varejista a dizer não

PUBLICADO EM: 15.4.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 16.4.21 | 7H10
Na visão de especialistas ouvidos pela EXAME Invest, a combinação de negócios poderia fazer sentido para ambas as empresas, mas o valuation implícito pode ter pesado contra
Fachada de loja da Hering

Loja da Hering em shopping: rede tradicional é cobiçada pela Arezzo (MARIO RODRIGUES)

Foto de Paula Barra da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Paula Barra

Repórter de mercados da Exame. Formada em jornalismo pelo Mackenzie e pós-graduada em Produtos Financeiros e Gestão de Risco pela FIA. Especializada na cobertura do mercado financeiro, com passagens pelo InfoMoney, Empiricus e TradersClub | paula.barra@exame.com



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Na noite desta quarta-feira, 14, o mercado foi surpreendido com uma proposta da Arezzo (ARZZ3) para comprar a Hering (HGTX3). Em um comunicado enviado ao mercado após o fechamento do pregão, a empresa reconhecida por sua moda básica disse que recebeu há uma semana uma oferta da Arezzo para combinação de negócios, mas recusou a oferta por "considerar que não atende ao melhor interesse dos acionistas e da companhia".

O valor não foi revelado, mas, segundo fontes consultadas pela EXAME In, o montante gira em torno de 3,3 bilhões de reais, em uma operação que envolveria ações e dinheiro.

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Na visão dos analistas da Ativa Investimentos, a movimentação poderia ser positiva para ambos os lados.

Isso porque, para a Arezzo, a aquisição da Hering complementaria seu plano de construir um ecossistema de marcas, com escala em roupas básicas, enquanto, para a Hering, poderia ajudar a companhia a dar uma volta por cima que já vem ensaiando há um tempo.

Enquanto as ações da Arezzo já recuperaram o baque sofrido com a pandemia no ano passado (acumulando ganhos de 17% desde 21 de fevereiro, um pregão antes de o mercado começar a derreter com o estouro da crise da covid-19), os papéis da Hering registram desvalorização de 27% no mesmo intervalo: a empresa já vinha sofrendo quedas em vendas e receitas mesmo antes do início de 2020.

Hering rejeita proposta de compra pela Arezzo

"Uma possível aquisição seria boa para as duas partes, embora não tenham sido divulgados os termos da proposta oferecida para a Hering", comentaram os analistas da corretora.

"Para a Arezzo, que tem um plano de possuir uma plataforma de marcas, adquirir uma companhia de roupas que está exposta a um mercado endereçável nas classes B e C poderia ser uma boa jogada, apesar dehaver um ponto de atenção porque o ativo da Hering possui uma marca mais fraca."

Do outro lado, "para o projeto de turnaround (recuperação) que a Hering possui em curso, a expertise da equipe de gestão da Arezzo poderia significar uma virada de jogo para a companhia, que tem tentado há um tempo dar essa volta por cima mas sem sucesso", apontaram.

Apesar da boa avaliação neste primeiro momento, o presidente da Hering, Fábio Hering, foi enfático ao afirmar que um acordo era "improvável". "Estamos iniciando um ciclo de crescimento orgânico muito forte, alinhados com acionistas de referência", disse em entrevista à EXAME In.

A oferta vem em um momento em que a Hering se prepara para mudanças no conselho, com uma assembleia de acionistas marcada para o próximo dia 29. A expectativa é a de que Thiago Hering, filho de Fábio e que hoje é COO da empresa, seja escolhido como novo presidente da companhia. Thiago é um dos principais responsáveis pelos investimentos digitais da Hering e por uma reformulação da rede nos últimos anos.

Por que a Hering pode ter rejeitado a proposta?

Para Luiz Fernando Alves, gestor da Versa, que tem Hering como uma das principais posições na carteira, a companhia pode ter rejeitado por causa do valuation. "Se você comparar o lucro das duas empresas, verá que não são muito diferentes, mas a Arezzo vale quase o triplo." No fechamento do pregão de ontem, a Hering valia 2,8 bilhões de reais no mercado, e a Arezzo, 7,5 bilhões de reais.

Ele explica que a principal diferença é que a Arezzo cresceu muito nos últimos anos, enquanto, nesse tempo, a Hering tem passado por um processo de turnaround (recuperação).

"A questão é que a dinâmica desse turnaround mudou significativamente após a chegada do Thiago Hering há cerca de três anos e estava começando a mostrar resultado quando começou a pandemia. Ainda assim, a Hering vem passando por um processo de digitalização muito rápido e profundo, que já vem se refletindo nas vendas online e deve ter efeito nas lojas físicas também quando a pandemia acabar", comentou Alves.

Para ele, o diferencial de crescimento que favoreceu o valuation relativo da Arezzo pode estar começando a mudar a favor da Hering, tornando difícil justificar esse distanciamento. No consenso do mercado, a Arezzo negocia a 31 vezes o lucro projetado para este ano. A Hering, a 16 vezes.

"Essas são as razões que fazem da Hering um dos nossos maiores investimentos na Versa e imagino que seja a percepção do conselho também", disse o gestor.

No mercado, a movimentação chegou sem fazer barulho prévio nas ações. Na sessão de quarta-feira, os papéis da Hering fecharam em leve queda de 0,47%, com volume financeiro de 45,3 milhões de reais, em linha com a média dos últimos 21 pregões; os da Arezzo tiveram ligeira alta de 0,43%, fechando com volume financeiro de 33,4 milhões de reais, um pouco abaixo da média do mesmo período de 36,8 milhões de reais.

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Quais os próximos passos? 

Segundo o advogado Raphael Manhães Martins, sócio do escritório Faoro & Fucci Advogados, o fato relevante da Hering não deixa claro qual a estrutura societária proposta para a operação. No entanto, ele disse que "parece razoável presumir que seria algo de competência da assembleia geral da empresa (assuntos que envolvam fusão, incorporação, incorporação de ações, entre outros)".

A questão é que, caso não seja convocada uma assembleia por quem tem legitimidade, na prática, o assunto é engavetado, aponta.

Neste momento, ele explica que dois movimentos costumam acontecer: (1) ou haverá uma mesa de negociações entre as duas empresas e sairá uma nova proposta de comum acordo; ou (2) a Arezzo poderá tentar forçar para que o assunto chegue a uma assembleia.

No segundo caso, Martins comenta que, normalmente, isso poderia ocorrer com a empresa comprando ações daquela a qual fez a oferta (no caso da Hering) e solicitando que o assunto seja pautado ou convencendo outros acionistas a solicitar a convocação da assembleia. "Não raro, há um vai-e-volta entre esses dois cenários, comenta o advogado.

 

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Foto de Paula Barra da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Paula Barra

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