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Por que as construtoras sofrem na bolsa, apesar das vendas recordes?

PUBLICADO EM: 20.1.21 | 5H50
ATUALIZAÇÃO: 19.1.21 | 18H52
Setor surpreende com vendas e lançamentos próximos de níveis recordes nas prévias do 4º trimestre, mas ações acumulam queda desde o início do ano passado

Apesar de aumento de vendas e lançamentos, as ações de construtoras não engatam altas na bolsa desde o ano passado (Getty Images)

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Beneficiadas pela queda da taxa de juros, que reduz o custo do crédito habitacional, as principais incorporadoras e construtoras do país atravessam um momento ímpar. Mesmo em meio à maior recessão do século, vendas e lançamentos não param de crescer. Em algumas empresas, inclusive, os números já estão em patamares recordes.

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Esse é o exemplo da Direcional (DIRR3). Na prévia do quarto trimestre divulgada neste início de ano, a empresa revelou um aumento de 41% nas vendas líquidas, para 523 milhões de reais -- o mais alto nível de sua história. Já a maior empresa do setor em valor de mercado, a Cyrela (CYRE3), entregou 25 lançamentos no último trimestre, quase o dobro em relação aos 13 no mesmo período de 2019.

Apesar dos resultados fortes, as ações do setor acumulam quedas desde o início do ano passado, quando a taxa de juros Selic ainda estava em 4,50% e a busca por imóvel era menor. No período, as ações de Cyrela e Direcional têm perdas acumuladas de 5,29% e 1,06%, respectivamente. Outra gigante do setor, a MRV (MRVE3), tem desvalorização de 8,45%.

Victor Hasegawa, gestor da Infinity Asset, avalia que a onda de construtoras que chegou à bolsa em 2020 acabou minando as ações do setor. Somente no ano passado, sete companhias abriram capital na B3, representando 25% das ofertas iniciais (IPO, na sigla em inglês) realizadas. Com 26 companhias listadas, a construção civil é o segmento com o maior número de empresas na bolsa.

“O investidor passou a ter mais opções. Em vez de investir tudo em uma, duas ou três ações, agora ele vai ter oito ou dez que atendam seus interesses. Isso dilui o volume de recursos para as ações”, afirma. 

Outro efeito colateral dos IPOs é o aumento da disputa por terrenos, uma vez que grande parte das incorporadoras listadas atua na mesma região, em São Paulo. 

“Capitalizadas, essas empresas querem comprar terreno, o que pressiona o preço do metro quadrado, que já está subindo. Também há receios em relação a uma possível sobreoferta”, afirma Bruno Lima, analista-chefe da EXAME Research. “As construtoras, realmente, têm surpreendido na venda. Mas nem por isso o mercado não está cético com os riscos à frente.”

Além dos terrenos, os materiais de construção passaram por um significativo aumento de demanda no último ano. Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE, em novembro, o setor registrou aumento anual de 16,9% nas vendas, atrás só das vendas de móveis. Com a procura em alta, os preços também subiram. Em 2020, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela FGV, fechou em 8,81%. Foi o maior índice desde 2008.

O que esperar de 2021

Embora as prévias operacionais do quarto trimestre mostrem que a construção civil segue contando com ventos favoráveis, dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) revelaram algum esfriamento do setor em dezembro, com as vendas de cimento caindo 13,2% em relação ao mês anterior. Ainda assim, as vendas ficaram 10,9% acima dos números de dezembro de 2019 e fecharam o ano com alta acumulada de 16,8%.

Para 2021, no entanto, a estimativa da SNIC é a de que, com o fim do auxílio emergencial e a redução dos estoques de obras imobiliárias, as vendas de cimento cresçam apenas 1%. Mas a situação pode mudar para melhor caso o plano de vacinação tenha sucesso e sejam aprovadas as reformas tributária e administrativa, afirma a SNIC.

Caso as questões macroeconômicas não atrapalhem, Bruno Lima avalia que, em 2021, as incorporadoras devem voltar a apresentar bons resultados. “A demanda está surpreendendo positivamente, mas isso não quer dizer que não há risco. Há muitas ofertas em algumas localidades.”

Além da oferta, Hasegawa considera que a esperada elevação da taxa básica de juros, a Selic, neste ano possa ter efeito negativo sobre os papéis, ainda que não considere suficiente para estragar o bom momento do setor. 

“A alta de juros tende a atrapalhar, porque os investidores olham achando que o setor vai ser impactado. Mundialmente é assim. Mas os juros devem ir no máximo para 4%, talvez 5% ao ano. Isso ainda é baixo em relação ao histórico. Acredito que o setor consiga surfar bem mesmo com a alta de juros.”

Apesar das incertezas, Lima considera que, na média, as ações de incorporadoras ainda estão baratas. “Mas tem que saber exatamente onde alocar. Tem empresas com bom operacional e um nível de desconto interessante. Outras estão sendo negociadas próximas de seu valor patrimonial, mas têm um histórico de execução horroroso”, alerta. 

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

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