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Selic pode chegar a 9% sem que BC controle a inflação, diz ACE Capital

PUBLICADO EM: 22.8.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 22.8.21 | 10H57
Fabricio Taschetto, diretor da gestora, vê "omissão" do BC no câmbio, que gerou boa parte da inflação; e diz que Ibovespa está muito barato e com oportunidades

Fabricio Taschetto: diretor de investimentos e sócio-fundador da ACE Capital | Foto : Leo Martins/ Divulgação (Leo Martins)

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Com a inflação próxima dos 9% ao ano, o Banco Central tem endurecido a sua política de juros para tentar controlar as expectativas de alta de preço no futuro. Mas para Fabricio Taschetto, sócio-fundador e diretor de investimentos (CIO) da gestora ACE Capital, a tentativa pode ser em vão.

"O BC se tornou um mero passageiro do que vai acontecer com o juro. A inflação corrente tem sido bem ruim e ele não consegue controlar", afirma Taschertto em entrevista à EXAME Invest.

Segundo ele, o ciclo de alta de juros do BC poderá "passar do ponto", comprometendo o PIB de 2022. "Pode ser 8,5% ou 9% o juro final desse ciclo de alta. Podemos entrar no ano que vem com juro real de 5%, que é muito restritivo."

Ex-diretor de trading da mesa proprietária do Santander (SANB11), Taschetto avalia que parte da inflação é causa da "omissão" do Banco Central no mercado de câmbio e acredita que o dólar não irá cair só com o aumento da taxa de juros. "O mais importante para o câmbio é o fiscal e o crescimento."

Do lado fiscal, ele enxerga um cenário de incertezas de pelo menos três meses, prazo mínimo que estipula para a resolução da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que viabiliza o parcelamento dos precatórios.

"A despesa dos precatórios é a mais importante para ser resolvida nos próximos meses. O problema é que, como é uma PEC, a tramitação é mais demorada."

Taschetto classifica o imbróglio dos precatórios como o principal motivo para as recentes quedas do Ibovespa, que, em dois meses, saiu dos 130.000 pontos de volta para os 118.000. Essa queda, diz, tornou a bolsa brasileira ainda mais barata, com oportunidades principalmente em ações de empresas ligadas à economia doméstica.

Confira a entrevista com Fabricio Taschetto, sócio-fundador e diretor de investimentos da ACE Capital.

O Ibovespa voltou a acumular perdas no ano, enquanto outros mercados seguem em forte alta, inclusive alguns emergentes, como o indiano. A bolsa brasileira ficou barata ou o risco já não compensa? 

Pelas nossas métricas, o Ibovespa está muito, muito barato. Se comparado com outras bolsas, a brasileira está em nível de estresse. Vemos bastante oportunidades, especialmente em empresas menores, como small e mid caps. Elas sofreram bastante nos últimos cinquenta dias. 

Essas empresas menores seriam as mais ligadas à economia doméstica?

Sim, são empresas ligadas à economia doméstica e que sofreram bastante quando a curva de juros abriu. A curva está abrindo devido ao estresse político, à crise dos precatórios e à postura do presidente, de sempre arrumar briga. A perseguição do presidente por manchete acaba impactando os juros e a economia. 

A NTN-B longa está em 5%, patamar que não víamos havia muito tempo. Essas empresas apanharam muito no absoluto e no relativo. A bolsa caiu 10% desde a máxima e tem muita empresa que perdeu de 25% a 30% de seu valor de mercado. 

A perspectiva para a economia local é positiva? 

Tivemos entre maio e junho uma reprecificação para o crescimento deste ano, com a atividade econômica reagindo melhor do que se esperava. Nossa perspectiva é de um crescimento do PIB de 5,7% para este ano. Mas não vejo mais um grande movimento até o fim do ano. 

Temos que ver como vai ser o impacto dessa crise institucional e política que estamos atravessando no PIB de 2022. Nossa estimativa é de crescimento de 2,3%, mas ainda pode ter uma revisão para baixo em uma magnitude maior se essa crise não for controlada o quanto antes. 

Certamente, o que vem acontecendo acaba afetando muito as expectativas, inclusive de inflação, e abala a confiança de empresários e consumidores. Não revisamos a perspectiva de crescimento [para 2022] ainda, mas é possível que isso venha a acontecer daqui um mês -- e talvez de uma forma mais generalizada no mercado -- caso a crise atual não seja devidamente endereçada.

A postura mais dura do Banco Central deve ser suficiente para controlar a inflação e convergir as expectativas para o centro da meta de 2022?

O ano de 2022 está muito próximo. Se a inflação corrente não melhorar, é difícil falar que só o BC vai conseguir convergir a expectativa. Do jeito que ele vem atuando, o BC se tornou um mero passageiro do que vai acontecer com o juro. A inflação corrente tem sido bem ruim e ele não consegue controlar. 

As revisões têm sido sempre para cima e, não importa o que o BC faça, ele não vai conseguir melhorar isso. Cada vez que o número do mês seguinte é revisado para cima, o BC acaba se comprometendo a elevar os juros. Ele não consegue sair disso porque se vem um número alto neste mês, automaticamente acaba contaminando as estimativas para o ano que vem. 

O BC começou falando que iria subir o juro para abaixo do [patamar] neutro, depois para o neutro e agora já fala em colocar o juro acima do neutro. Eu já acho que o risco é o BC ir para muito acima do neutro, o juro final desse ciclo de alta pode ser 8,5% ou 9%.

Podemos entrar no ano que vem com juro real de 5%, que é muito restritivo. O nível de juro foi muito baixo lá atrás e o BC precisou reajustar rapidamente, mas a inflação não está respondendo. O BC vai passar do ponto e vamos conviver com um juro real muito alto no ano que vem. Isso pode comprometer o PIB de 2022. 

O BC tem sido muito omisso em dias de desvalorização do câmbio e esse é um canal muito grande de inflação

Fabricio Taschetto

O BC poderia ter atuado de forma diferente?

Essa mudança de elevação de 75 pontos base (bps) para 100 bps talvez tenha sido exagerada. Tenho pequenas críticas, mas não tinha muita coisa diferente para fazer. No que ele poderia ter atuado mais é no câmbio. 

Temos quase 300 bilhões de dólares de reserva e o BC deixou o câmbio muito solto ao longo do ano passado e deste ano. O BC tem sido muito omisso em dias de desvalorização do câmbio e esse é um canal muito grande de inflação. Ele poderia ter sido bem mais ativo para segurar a desvalorização do real.

O real ficou barato?

O real está muito depreciado não só em termos absolutos mas em termos relativos também. O BC deixou o câmbio muito solto no ano passado, o que acabou ancorando o preço da moeda para cima. Esse é o cenário adverso que o BC vem enfrentando. No câmbio, certamente eu faria muito diferente. Ele foi muito omisso e acabou gerando boa parte dessa inflação. 

Qual o potencial que as já esperadas altas de juros terão no câmbio? 

O que ajuda bastante a valorizar o real é o país crescer e nossa relação dívida/PIB se mostrar mais convergente do que divergente. Para isso, o governo precisa respeitar o teto de gasto e o país crescer. 

Apesar de reconhecer que o juro tem peso [sobre o câmbio], dou mais peso para o nível de endividamento. É o que vale mais para segurar o câmbio. Colocar os juros em 20% [ao ano] não resolve o problema do câmbio, mas gera uma contração muito grande na economia, então é inviável. O mais importante para o câmbio é o fiscal, o crescimento e, de forma secundária, um juro que deixe a moeda com carrego positivo. 

Hoje, qual é a peça-chave para a melhora ou a piora da percepção de risco fiscal?

Sem dúvida é a PEC dos Precatórios. Ela apareceu do nada e tem um potencial de estrago muito grande. A despesa dos precatórios é a mais importante para ser resolvida nos próximos meses. O problema é que, como é uma PEC, a tramitação é mais demorada. Se tudo correr muito bem, isso deve ser resolvido entre o fim de dezembro e o início de janeiro. Ou seja, teremos três meses de incerteza.

Isso pegou muito nos ativos brasileiros nas últimas semanas, além do destemperamento do presidente. Parece que ele tem que estar sempre em conflito com alguém para agradar sua base. Pode ser uma estratégia política, mas isso tem um custo muito grande para o país. 

A divulgação da última ata do Fed mostrou os integrantes discutindo o tapering (redução de estímulos via compra de ativos). Quando esse processo deve começar e quais são os potenciais efeitos para o mercado?

O esperado é no fim do ano ou em janeiro. Mas, desta vez, deve ser diferente do que em 2013, que gerou um grande impacto no mercado, especialmente, nos emergentes. Isso porque o preço das commodities está mais favorável aos emergentes, os juros vão estar um pouco mais altos e as moedas estão mais depreciadas neste momento. Em 2013, o dólar estava em 2,20 reais, e agora é 5,40 reais. Então o ponto de partida do real já dificulta grandes depreciações. 

O real está extremamente barato. Naquela época, tínhamos uma conta corrente bem negativa e neste ano deve ser zerada e temos uma balança comercial recorde. Não estou tão pessimista quanto ao tapering. Acho que para emergentes o potencial de estrago é limitado, especialmente para o Brasil. 

O tapering pode aumentar a percepção de uma recuperação econômica mais lenta?

Pode tirar um pouco de crescimento no resto do mundo, mas de forma marginal. Os Estados Unidos já estão em um ritmo de crescimento muito forte. 

Esse estímulo de 120 bilhões de dólares por mês me parece totalmente desproporcional. Acho que o tapering deveria ter sido feito até antes. É saudável retirar esse estímulo para o maior controle da inflação, mesmo que ao custo de uma retomada da atividade mais fraca. Se ficar com esse estímulo por muito mais tempo, há o risco de transformar a inflação em um problema mais duradouro. O efeito líquido é positivo. 

A ACE tem alguma posição em bolsa americana?

Em bolsa, não. Somos tomados nos títulos americanos. Até pela questão do tapering, os títulos estão em níveis muito baixos, o que não é justificável para uma economia que cresce 5% ou 6% e que deve fechar o nível de ociosidade no fim do ano que vem. 

Em abril, a ACE estava aumentando a posição em ações de tecnologia da Ásia. De lá para cá, houve um aperto regulatório sobre o setor na China. Isso mudou a forma como a gestora avalia esse mercado?

Não mudou nada. Achamos que sempre vai ter ruído, especialmente em países em que o ditador manda e as empresas obedecem. Esse ruído deve continuar, mas o potencial de geração de riqueza na Ásia ainda é bastante elevado. Assim que o ruído sair da mesa, essas empresas devem voltar a subir bem. Apesar de ter sofrido com a posição, temos mantido. Por ser uma posição pequena, não prejudicou tanto o fundo. 

Dá para dizer que essas ações ficaram ainda mais baratas?

Na parte de tecnologia, comparamos muito com empresas de tecnologia, como Alibaba e Amazon, por exemplo. E os valuations são muito mais baratos nas empresas chinesas e o crescimento também é muito alto. 

Prefiro estar longe de empresas que podem ser alvo de retóricas populistas. Então, não temos estatal e a tendência é ficarmos de fora

Fabricio Taschetto

No último mês, a ACE reduziu posição em Vale e Gerdau por estarem próximas do preço-alvo. Essas ações têm caído com a desvalorização do minério de ferro. Abriu-se uma oportunidade de compra ou o cenário ainda está muito incerto?

Está incerto. As empresas estavam com preços que nunca tinham atingido, então fomos vendendo aos poucos. Por enquanto, a queda que teve ainda não justifica voltar para essas ações. Reduzimos bastante, mas assim que o minério de ferro estabilizar, dá para voltar a fazer conta e voltar. Mas ainda nem pensamos em voltar para o setor de siderurgia e mineração.

A ACE também está mais cautelosa com o mercado de petróleo? A Petrobras está barata no atual patamar do petróleo?

Vemos a Petrobras (PETR3/PETR4) como um risco de ser estatal. Ela é muito barata mesmo comparada com as petrolíferas russas, que enfrentam uma economia e uma influência do governo similares. Nos próximos dois meses deve aquecer muito o assunto eleição. Aí prefiro estar longe de empresas que podem ser alvo de retóricas populistas.

Não temos estatal e a tendência é ficarmos de fora. Investimos na Petrobras no início do ano, quando o [então presidente da empresa] Roberto Castello Branco foi demitido. Naquele patamar de preço estava muito bom, mas já saímos. 

A ACE aproveitou as últimas quedas da bolsa para aumentar posição em alguma ação?

Não. Nós estamos mantendo a mesma carteira. Temos uma característica de gestão de não aumentar posições em que estamos perdendo. Nunca sabemos quando vai acabar a crise. Estamos sem mexer em nada desde junho, quando montamos uma carteira muito em prol de empresas ligadas à economia local.

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Guilherme Guilherme

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