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Sinal de alerta? Brasil está perdendo espaço na carteira dos estrangeiros

PUBLICADO EM: 17.3.21 | 8H28
ATUALIZAÇÃO: 17.3.21 | 12H13
JPMorgan cita volatilidade e reduz posição em ações brasileiras em portfólio para América Latina, enquanto pesquisa do BofA mostra investidores menos otimistas com ativos locais
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Bolsa brasileira perdeu o ímpeto do começo do ano e parece distante dos recordes

Foto de Paula Barra da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Paula Barra

Repórter de mercados da Exame. Formada em jornalismo pelo Mackenzie e pós-graduada em Produtos Financeiros e Gestão de Risco pela FIA. Especializada na cobertura do mercado financeiro, com passagens pelo InfoMoney, Empiricus e TradersClub | paula.barra@exame.com



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Nesta semana dois grandes bancos internacionais divulgaram relatórios com perspectivas menos otimistas para o mercado brasileiro. Um deles foi o JPMorgan, que reduziu a exposição a ações brasileiras em sua carteira para América Latina; e outro foi o Bank of America, que mostrou, em levantamento com gestores de recursos do continente, uma forte contração neste mês no número de investidores com expectativa positiva para o Brasil. 

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Em ambos os casos, eles apontaram preocupações com a questão fiscal brasileira e o "barulho" político entre os principais riscos para o país. Na revisão do JPMorgan, os estrategistas do banco citaram também desconforto com a dinâmica da inflação. 

“No começo do ano, o mercado trabalhava com um cenário de reformas, mas já estamos em março e praticamente nada aconteceu. Tivemos discussões de volta do populismo na condução da política pública. Tudo isso vai minando muito a confiança do investidor. E, agora, somado com a discussão global de aumento de juros, que penaliza as economias mais fragilizadas, isso vai criando quase que uma tempestade perfeita”, comenta Bruno Lima, analista-chefe da EXAME Invest Pro

A perda de apetite do estrangeiro com o Brasil pode ser observado no desempenho do índice MSCI Emerging Markets, voltado para mercados emergentes, e do EWZ, o ETF que representa o Ibovespa dolarizado na Bolsa de Nova York: enquanto o primeiro sobe 4,5% em 2021, o segundo cai quase 10%. Em reais, o Ibovespa acumula baixa de 4,2% no ano. 

“Claramente existe uma distinção entre o mundo emergente e o Brasil. O país vem perdendo a confiança porque as reformas não saem, a atividade não retoma e a discussão do Orçamento vai engargalando”, diz Lima. 

“Vamos entrar no ciclo de alta de juros pelos motivos errados. Temos uma moeda que tenta ser usada como válvula de escape para gerar algum crescimento, mas isso pressiona os preços de matérias-primas, a cadeia local, o que gera inflação, porque as reformas, que poderiam ancorar as expectativas, não saem do papel.”    

Tal cenário tem deixado os investidores menos animados com o mercado local. Os estrategistas do JPMorgan até reconhecem, em relatório, que o mercado brasileiro está relativamente barato e que, uma vez que a vacinação aumente, pode haver uma melhora no desempenho dos ativos.


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Mas eles dizem que preferem não ter uma opinião forte sobre uma recomendação direcional no país, por esperarem uma alta volatilidade à frente diante do início muito "prematuro" do debate presidencial de 2022 e da piora da inflação.

Além disso, apontam: "Apesar de serem esperadas algumas mudanças em questões micro, o avanço das reformas mais caras é questionável".

Ibovespa a 130 mil pontos parece distante

Na pesquisa do BofA, apenas 20% dos investidores indicaram que veem o Ibovespa acima dos 130.000 pontos ao fim do ano, ante mais de 50% em fevereiro. Na última terça-feira, 16, o índice fechou em 114.018 pontos. 

A maioria agora (mais de 30%) acredita que o benchmark da Bolsa vai ficar entre 120.000 pontos e 130.000 pontos, frente a pouco mais de 20% anteriormente. Outros 20% apontam que o índice ficará entre 110.000 e 120.000 pontos (esse número era inferior a 10%).  

Para 44% dos entrevistados, a Bolsa brasileira deve ter um desempenho acima da média nos próximos seis meses, uma queda contra os 65% do mês anterior e abaixo da média histórica do levantamento. A pesquisa foi feita com 25 investidores profissionais, a maior parte gestores, que têm sob administração aproximadamente 86 bilhões de dólares em fundos da América Latina.   

Fuga de estrangeiros

Segundo os últimos dados atualizados da B3, os investidores estrangeiros retiraram 2,44 bilhões de reais em ações na Bolsa brasileira somente neste mês, considerando até o dia 15 de março.

O número soma-se ao saldo líquido negativo de fevereiro de 6,8 bilhões de reais. No entanto, no acumulado do ano, o saldo líquido segue positivo em 14,3 bilhões de reais graças à forte entrada em janeiro, quando as expectativas eram positivas.

Enquanto o Brasil vai perdendo atratividade, o JPMorgan elevou sua exposição no México para overweight (acima da média do mercado). Na pesquisa do BofA, os investidores elevaram seu sentimento positivo em relação ao México e Chile.

Copo meio cheio

Apesar do ambiente mais nebuloso e do aumento do risco, Lima comenta que ainda vê o copo meio cheio para o mercado doméstico. "Não é porque temos esse cenário que não há oportunidades. Ainda vemos bastante oportunidades nos ativos locais, mas é preciso ver evolução do lado fiscal e também na campanha de vacinação do país, o que faria a economia voltar a ganhar tração."

Entre essas oportunidades, ele cita ações ligadas à economia doméstica, que foram muito penalizadas com a crise da pandemia e estão com preços bastante descontados. “Vemos muito valor em ações do setor de serviços e infraestrutura, por exemplo, mas são setores dependentes da economia doméstica e que precisam de ancoragem fiscal e retomada da confiança para avançarem”, destaca. 

Ele lembra também que a temporada de balanços do quarto trimestre, que está chegando ao fim (termina em duas semanas), trouxe, em geral, números positivos. A receita superou em 5,26% as estimativas do mercado, e o lucro, em 112%, segundo dados da Bloomberg, considerando 61 companhias (de um total 79) que compõem o Ibovespa e que reportaram resultado até o momento. 

“Se olharmos, um quarto do Ibovespa praticamente é de companhias do setor financeiro, que foi muito bem; o outro um quarto, é commodities, que também surpreenderam positivamente tanto em receita quanto em lucro por conta dos preços mais altos do aço e minério”, comenta. 

Ele chama atenção também para companhias de bens de consumo, com foco no setor de alimentos, como Minerva, BRF e Marfrig (o balanço da JBS ainda está para ser divulgado no dia 2/4), cujos resultados surpreenderam positivamente, puxadas por uma demanda favorável por proteína e pelo dólar mais alto; e para o setor de energia elétrica, que “mostrou dados muito bons”. Para ele, as ações de elétricas também seguem bastante atrativas aos preços atuais.

No acumulado do ano, os setores de construção civil, financeiro e elétrico se destacam entre as principais quedas da Bolsa. Dos índices de ações da B3, o Imobiliário (que inclui construção civil e shoppings), o Financeiro e o de Utilidades Públicas (que engloba ações de elétricas e saneamento básico) lideram as perdas em 2021, com desvalorizações acumuladas de 12,75%, 11,61% e 7,39%, respectivamente.


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