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Vitória de Lula pode impulsionar bolsa brasileira, diz Mark Mobius

PUBLICADO EM: 1.7.21 | 16H01
ATUALIZAÇÃO: 2.7.21 | 6H25
Em entrevista exclusiva à EXAME Invest, um dos maiores investidores em mercados emergentes relembra que ex-presidente "impulsionou economia", apesar da corrupção

Mark Mobius: sócio-fundador da Mobius Capital Partners | Foto: Simon Dawson/Bloomberg via Getty Images (Bloomberg via Getty Images)

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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As eleições de 2022 já começam a entrar no radar dos investidores, seja com a maior cautela nas projeções, seja na busca de oportunidades que podem surgir com a volatilidade já esperada para o ano que vem.

Embora os candidatos não tenham sido confirmados, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm despontado como favoritos nas pesquisas. Mas, ainda que o mercado financeiro tenha resistência histórica a nomes ligados à esquerda, Mark Mobius, sócio-fundador da Mobius Capital Partners e referência mundial quando o assunto é mercados emergentes, não esconde sua preferência.

"Embora eu não seja um populista de esquerda, eu diria que, provavelmente, uma vitória de Lula seria bom para a economia. Quando ele foi presidente, ele surpreendeu todo mundo", afirma Mobius em entrevista exclusiva à EXAME Invest. "[Mas] é claro que também houve problemas com corrupção."

Mobius conversou com a EXAME Invest por ocasião de sua participação Global Managers Conference Brasil 2021, evento promovido pelo BTG Pactual (do mesmo grupo que controla a EXAME).

Mobius também analisou a inflação americana e a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) cortar estímulos por meio da redução da compra de ativos, algo que, segundo ele, não deve ocorrer tão cedo. "Os preços estão subindo por causa da desvalorização da moeda. A quantidade de moeda em circulação aumentou globalmente em cerca de 60% a 70% desde o ano passado. Então é claro que as coisas parecem que estão ficando mais caras."

O tema recentemente foi abordado por Mobius em seu livro mais recente "O Mito da Inflação e o Maravilhoso Mundo da Deflação". Os dados de inflação, diz, são "imprecisos e não significam muito".

"Infelizmente, os bancos centrais confiam nesses números para tomar decisões. O resultado é que decisões muito ruins são tomadas. Com base na renda média das pessoas, as pessoas estão ganhando muito mais dinheiro do que antes. Nesse sentido, a inflação está sob controle."

Confira a entrevista com Mark Mobius, sócio-fundador da Mobius Capital Partners.

Temos visto o preço do petróleo subir. Companhias do setor ainda são um bom investimento? 

Quando olhamos para empresas de commodities, temos que ver o que está acontecendo com os produtos que elas produzem. Os preços subiram tremendamente e as ações subiram junto. Mas, provavelmente, não teremos mais esse tipo de apreciação. Não espere uma grande valorização a partir de agora. Ainda assim, as empresas continuarão a se sair bem. Provavelmente, já vimos a maior parte da apreciação que se pode esperar. As ações continuarão subindo, mas não no ritmo que as levaram a esse estágio.

As ações da Petrobras (PETR3/PETR4) estão baratas neste momento?

Eu diria que os preços estão relativamente moderados. Não estão baratos, mas também não estão caros. Estão no meio do caminho. 

O minério de ferro bateu máximas neste ano, mas o governo chinês tem tentado controlar o rali. Como isso altera a perspectiva de investimentos em empresas de mineração, como a Vale (VALE3)?

A Vale é uma das maiores produtoras do mundo e continuará sendo. Uma coisa interessante é a tensão que a China teve com a Austrália. A Vale deve se sair muito bem, já que a China desejará favorecer a Vale em relação aos fornecedores da Austrália. Mas deve ser uma melhora marginal. 

A taxação de dividendos proposta pela reforma tributária não foi bem recebida por investidores locais. Isso tem potencial de reduzir atratividade do mercado brasileiro para investidores internacionais?

Esses tipos de reformas geralmente não funcionam da maneira que se espera. Se houver, pelo menos, pequenas mudanças, seria marginalmente positivo, mas você não pode esperar muito dessas reformas. Não será uma mudança dramática.

Como o senhor avalia a forma como o governo brasileiro lidou com a pandemia? Isso alterou sua visão de investimento no país? 

O atual governo tem sido altamente criticado pelo tratamento da crise da covid. Outros países do mundo, incluindo os Estados Unidos, foram criticados. Porém, se olhar a fundo, nos Estados Unidos, o [ex-presidente Donald] Trump subestimou a situação e o mesmo aconteceu no Brasil. Mas depois eles começaram a tomar medidas. Então, para a imprensa eles dizem uma coisa, mas muita coisa foi feita. No Brasil, mais e mais pessoas têm sido vacinadas.

Teremos eleições presidenciais no próximo ano. O presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula têm liderado as pesquisas. Com qual presidente o senhor se sentiria mais confortável para investir no Brasil?

Embora eu não seja um populista de esquerda, eu diria que, provavelmente, uma vitória de Lula seria bom para a economia. Quando ele foi presidente, ele surpreendeu todo mundo. Lembro que ele concorreu ao cargo por três vezes e todo mundo estava com medo de um socialista chegar ao poder. Quando ele chegou ao poder, ele fez um trabalho muito bom, impulsionando a economia. É claro que também houve problemas com corrupção. Mas a vitória de Lula provavelmente seria boa para a economia.

E seria bom para as ações brasileiras também? 

Sim, com certeza. [Seria] bom para a economia e para as ações também.

A inflação americana tem surpreendido as estimativas do mercado, enquanto o Fed insiste que é algo apenas temporário. Esse discurso deve mudar em Jackson Hole? 

Em meu novo livro falo sobre os números de inflação, que são muito imprecisos e não significam muito. Infelizmente, os bancos centrais confiam nesses números para tomar decisões. O resultado é que decisões muito ruins são tomadas. 

Os preços estão subindo por causa da desvalorização da moeda. A quantidade de moeda em circulação aumentou globalmente em cerca de 60% a 70% desde o ano passado. Portanto, é claro que com a desvalorização da moeda as coisas parecem que estão ficando mais caras, mas a tecnologia está à frente das mudanças que resultam em custos cada vez mais baixos.

Com base na renda média das pessoas, as pessoas estão ganhando muito mais dinheiro do que antes. Nesse sentido, a inflação está sob controle.

Portanto, a redução de compra de ativos por parte do Fed não deve ser anunciada em Jackson Hole ?

Exato. Em outras palavras, não acho que vamos ver um grande problema com a inflação devido aos avanços tecnológicos que vêm sendo feitos. 

A desaceleração da China é uma ameaça à economia global?

De jeito nenhum. Há dez anos a China estava crescendo a 10%, o que parecia incrível. Mas devemos lembrar que a economia chinesa dobrou, triplicou de tamanho. O que agora é 3%, 4% ou 5% de crescimento é mais do que os 10% de dez anos atrás, porque o tamanho da economia é muito maior.

Uma desaceleração é esperada, é claro, porque sua economia fica cada vez maior e é mais difícil ter um crescimento de 10%. Mas o crescimento ainda será maior do que o da economia americana e será muito substancial. 

O real teve uma das piores performances do mundo durante a pandemia, mas vem se valorizando. Há espaço para a moeda brasileira subir ainda mais contra o dólar?

Não acho que vamos ver uma alta muito grande da moeda brasileira. Mas também não vamos ver uma desvalorização como a que vimos no ano passado. Acredito que vamos ver uma gradual estabilização em relação ao dólar. 

Tenho grande fé no Brasil e acredito que a economia brasileira seguirá indo bem. Nós vamos nos recuperar da covid. Países com população mais jovem podem se recuperar de forma muito mais rápida do que os com população mais velha. Estou otimista e espero visitar o Brasil em breve.

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com


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