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Eike e MMX não são exceção: casos suspeitos de oscilação de ação sobem 82%

PUBLICADO EM: 24.10.20 | 7H00
ATUALIZAÇÃO: 22.10.20 | 22H02
Quantidade passa de 200 e já supera o total registrado em 2019; ações com baixa liquidez lideram em número de questionamentos

Alerta: ações com menor liquidez têm mais risco de serem manipuladas, dizem especialistas (Getty Images/iStockphoto)

Foto de Guilherme Guilherme da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Guilherme Guilherme

Repórter de mercado | guilherme.guilherme@exame.com



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Enquanto a B3 caminha para dobrar sua base de pessoas físicas, que já aumentou 82% no ano, cresce quase que no mesmo ritmo o número de questionamentos sobre oscilações atípicas nas cotações de ações na bolsa. O mundo está mais complexo, mas dá para começar com o básico. Veja como no Manual do Investidor.

Foram registradas 225 respostas corporativas às interrogações da CVM e da B3 sobre movimentações atípicas em ações neste ano até a última quarta-feira, 21, de acordo com dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) levantados pela EXAME.

Essa quantidade supera em 81,5% as 124 respostas a questionamentos registradas no mesmo período do ano passado. O número também já é maior do que as 161 respostas a indagações da autarquia que fiscaliza o mercado de capitais no ano inteiro de 2019.


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Esse tipo de questionamento costuma ser feito quando o órgão regulador constata uma alta repentina no volume de negociação do ativo e/ou abruptas oscilações no preço do papel, sem que haja uma justificativa clara, como a saída de um grande acionista ou um fato relevante imediatamente anterior enviado ao mercado.

Somente neste mês, as empresas MMX e OSX, ligadas ao empresário Eike Batista, precisaram responder, cada uma, a três indagações feitas pela CVM. Segundo o sistema de informações financeiras Economatica, a média do volume de negociação diário das ações da MMX e OSX teve respectivamente altas de 1.939% e 1.798,1% em outubro em relação à média verificada desde o início de 2019.

Em sua primeira resposta ao questionamento da CVM, a OSX informou que inquiriu pessoas com potencial acesso a matérias que possam constituir fatos relevantes, mas não recebeu resposta positiva.

Já a MMX atribuiu as oscilações atípicas ao fato relevante que havia divulgado sobre o ativo Mina Emma. Nas posteriores indagações feitas pela CVM, citou que reportagens relacionadas a Eike Batista poderiam ter sido a razão para a movimentação do preço do ativo. A mesma justificativa também foi adotada pela OSX em resposta às interrogações do órgão.

Questionamentos sucessivos

Por outro lado, algumas empresas não conseguem responder às indagações sobre as movimentações suspeitas de suas ações. Esse é o caso da fabricante de tecidos RenauxView, que se encontra em recuperação judicial.

Questionada nove vezes desde o início de 2019 sobre as oscilações atípicas de seus papéis, o maior número do período, a companhia responde não ter explicações para o que acontece com seus papéis na bolsa.

No questionamento mais recente, referente ao pregão do último dia 16, a CVM apontou uma alta de 664% no volume de negociação das ações preferenciais da companhia.

Em algumas ocasiões, como em janeiro deste ano, o aumento do volume de negociação foi acompanhado de uma alta de mais de 1.000% na cotação, seguida de uma queda superior a 60%, sem que, de novo, a empresa apontasse suspeitas para o fenômeno.

Segundo a Economatica, entre janeiro de 2019 e a última quarta-feira, 21, o volume médio diário de negociação dos papéis preferenciais da RenauxView foi de 183.000 reais, e o dos ordinários, de 12.000 reais.

“São empresas com valor de mercado muito baixo. O papel acaba sendo especulado por pessoas físicas. Com a rede social e a internet, ficou muito mais fácil divulgar um boato para fazer um alvoroço em cima de uma ação”, diz Victor Hasegawa, gestor da Infinity Asset.

“Geralmente, os fundos não olham para esse tipo de papel, porque se acerta e ganhar algo, ótimo. Mas se comprar e o papel virar pó, não teria nem como justificar as perdas para os clientes”, explica.

Baixa liquidez

A falta de liquidez das ações é uma das principais características de empresas que responderam ao maior número de questionamentos sobre movimentações atípicas.

Depois da RenauxView, as companhias Recrosul, Azevedo e Travassos e Atom Empreendimentos e Participações empatam na segunda colocação, com sete respostas às indagações da CVM desde 2019.

No período, o volume médio diário de negociação das ações dessas empresas não superou 400 mil reais. Para dar uma ordem de grandeza, a ação menos negociada do Ibovespa, principal índice de ações da B3, teve média diária superior a 20 milhões de reais.

“No geral, ações com menor liquidez são mais passíveis de serem manipuladas”, afirma Bruno Lima, analista de renda variável da /research.exame.com/">EXAME Research. Segundo o especialista, isso ocorre porque não é necessário um volume muito grande de dinheiro para deslocar o preço para a faixa desejada.

Uma das formas de fazer isso é por meio da prática irregular de pump and dump, que consiste em comprar uma ação na baixa, inflar o preço e vender na alta. E quem comprou depois, na esperança de que o ativo continuasse subindo, paga o pato.

Um caso conhecido de forte valorização atípica ocorreu no início da década de 2010, no episódio que ficou conhecido como “Bolha dos Alicates”: as ações da empresa gaúcha Mundial chegaram a subir mais de 1.000% e, pouco depois, despencaram.

Entre as maneiras de inflar o preço da ação está a disseminação de informações falsas ou, caso tenha a anuência de executivos da empresa, o envio excessivo de comunicados e fatos relevantes que ajudem a elevar o preço do ativo.

Hasegawa conta que esse tipo de prática sempre existiu no mercado, mas ganhou outra forma com a maior facilidade de comunicação dos tempos atuais. “Antes, esses tipos de informações eram difundidos por brokers que tinham uma certa quantidade de ações com pouca liquidez e os boatos circulavam nas mesas de operações, gerando um movimento falso sobre o papel", afirma.

"Acontece a mesma coisa com as redes sociais. Eles acabam aproveitando a ingenuidade de novos investidores, que acabam entrando em empresas sem fundamentos e muitas vezes perdem dinheiro.”

Por outro lado, é cada vez mais comum encontrar na internet intensos debates sobre ações altamente voláteis e de baixíssima liquidez. Em muitos casos, são pequenos investidores que tentam obter ganhos vultuosos no curto prazo.

Social trading

A EXAME notou esse tipo de comportamento tanto em fóruns abertos na internet sobre as ações da Renauxview quanto em discussões sobre as empresas de Eike Batista em grupos de WhatsApp.

Cláudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV/EAESP, faz o alerta de que é “perigoso e temerário entrar na onda” de compra de ações estimulada em fóruns de discussão nas redes sociais.

“Pode dar certo ou muito errado. O problema é que só contam exemplos de quando dá certo, para fazer propaganda do negócio. Mas sempre há o risco de dar errado e a pessoa não estar preparada para as perdas. Isso é algo extremamente arriscado”, afirma.

Mas Yoshinaga esclarece que nem sempre uma grande oscilação de preços em uma ação com baixo volume de negociação é sinônimo de manipulação. “Há a hipótese de a pessoa não ter conseguido vender a ação pela falta de liquidez. Então o jeito pode ter sido derrubar muito o preço do papel para encontrar um comprador”, diz.


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