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Brasileiro precisa aprender sobre finanças antes de investir, diz especialista

PUBLICADO EM: 25.1.21 | 6H10
ATUALIZAÇÃO: 24.1.21 | 20H26
Para Daniel Fuks, criador do projeto Poupare, a falta de conhecimento sobre como cuidar do próprio dinheiro é uma deficiência que acomete até quem já investe
Daniel Fuks, economista e criador do projeto Poupare, para ajudar as pessoas a cuidar das suas finanças

Foto de Bianca Alvarenga da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Bianca Alvarenga

Repórter especializada em finanças pessoais e investimentos, passou pelas redações de Veja, Folha de S. Paulo e 6 Minutos.



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Apesar do crescimento surpreendente no número de investidores, falta ainda ao Brasil cumprir a lição básica. Ou seja, antes de falar em investir -- e de estrear no mercado --, é importante que as pessoas aprendam a lidar com as próprias finanças. Prova disso é que a maioria dos brasileiros não sabe bem como organizar o próprio orçamento e já começa o mês endividado.

Esse é o diagnóstico de Daniel Fuks, educador financeiro e ex-diretor da área de previdência da gestora Gávea, fundada pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. "Eu diria que boa parte das pessoas que estão operando na bolsa não tem noções básicas de finanças. Eles não passaram pela lição um, que é aprender a lidar com o próprio dinheiro, e já querem partir para o day trade", diz.

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Depois de palestrar sobre finanças pessoais para jovens de baixa renda, Fuks conta ter percebido que havia um incentivo perverso para que esses adolescentes consumissem de forma pouco consciente, endividando-se no cartão de crédito.

"Muitos não conseguiam pagar e acabavam com o nome em órgãos de proteção de crédito, o que atrapalhava a busca por um emprego melhor", conta o economista.

Para ajudar a melhorar o nível de conhecimento da população de menor renda, Daniel resolveu criar a Poupare. O projeto transformou-se em um aplicativo com lições de finanças e com um fundo de previdência com investimento inicial de 100 reais.

Veja a entrevista dada à EXAME Invest:

Por que você decidiu falar de educação financeira para a população de menor renda?

Em 2008, comecei um trabalho voluntário para treinar adolescentes participantes do programa Jovem Aprendiz. Minha tarefa era falar sobre educação financeira com eles. Na época, eu trabalhava com o Armínio (Armínio Fraga, ex-diretor do BC) na Gávea e uma cliente de wealth management pediu que eu desse palestras para esses jovens.

Quando comecei a ter contato com os adolescentes, percebi que a maioria deles não fazia ideia do que fazer com o dinheiro que recebiam no emprego. Eles ganhavam entre um e dois salários mínimos -- o que, muitas vezes, era mais até do que os pais ganhavam -- e começavam a vida financeira abrindo conta em banco e recebendo o primeiro cartão de crédito.

Somos o país do incentivo ao consumo, principalmente pela política de parcelamento sem juros. Apenas alguns desses jovens eram efetivados, e a maioria acabava sem emprego e com dívidas no cartão de crédito. Muitos não conseguiam pagar e acabavam com o nome em órgãos de proteção de crédito, o que atrapalhava a busca por um trabalho melhor.


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Esse é um problema que atinge só os jovens de menor renda?

Ao longo da minha carreira como consultor, eu percebi que o nível de educação financeira é muito baixo no Brasil. Temos uma cultura voltada à ajuda do Estado. Prova disso foi toda a discussão em torno das aposentadorias e da reforma da Previdência.

Em geral, as pessoas não se preparam para "o inverno" e, quando se deparam com situações difíceis, acabam não sabendo o que fazer. Vi muita gente instruída, que tem uma renda melhor, gastando 10% do salário com "cafezinho" e outras coisas banais e vivendo sem nenhum tipo de reserva financeira.

Não temos cultura empreendedora e ensinamos as pessoas a consumir antes de poupar. Esse incentivo ao consumo nada mais é do que um jeito de transferir dinheiro da classe pobre para as grandes empresas e para as instituições financeiras.

Grande parte da população brasileira ganha pouco e sofre para pagar as despesas do dia-a-dia, como aluguel e alimentação. É possível ter disciplina financeira ganhando pouco?

É claro que é mais difícil economizar ganhando um salário mínimo do que ganhando dez, mas o pensamento precisa mudar. É comum cair no discurso "você ganha pouco, é impossível poupar, não compensa. É melhor desistir".

Não temos a mentalidade de guardar os centavos, algo que é muito comum em outros países, por exemplo. A realidade é uma só: você precisa poupar dinheiro ao longo da vida para custear sua velhice.

O aumento no número de pessoas investindo pode ajudar?

Investir é importante, mas falta o básico. Eu diria que boa parte das pessoas que estão operando na bolsa não tem noções básicas de finanças. Eles não passaram pela lição número um, que é aprender a lidar com o próprio dinheiro, e já querem partir para o day trade.

Se você perguntar como ele analisa os ativos, se sabe quais as vantagens fiscais de cada produto de investimento, ele não sabe responder. Podemos medir o nível de educação financeira de uma nação pela quantidade de esquemas Ponzi. Pirâmides financeiras acontecem não porque tem muita gente oferecendo esse tipo de fraude, e, sim, porque tem muita gente comprando a ideia.

Qual a principal barreira para que as pessoas busquem boas informações?

Eu diria que o problema não é a oferta de informações, e sim a demanda. As pessoas acham que disciplina financeira é algo difícil, que requer muito esforço, então preferem nem começar. Ainda existem aqueles que começam a organizar o próprio dinheiro, mas desistem na primeira pisada de bola.

Voltamos para a história do incentivo perverso: as pessoas são estimuladas a fazer aquisições que não acrescentam nada. Você só deve se endividar se aquela dívida tiver um impacto positivo nas suas finanças no longo prazo. É o caso, por exemplo, de financiar uma casa que pode se valorizar com o tempo ou que vai te fazer deixar de pagar aluguel.

Por que você decidiu criar um projeto de educação financeira?

No fim de 2018, comecei a refletir sobre o que poderia fazer para ajudar. Tentei ampliar minha voz, mas percebi que poderia cair na vala comum do excesso de informações da internet. Foi então que percebi que poderia fazer barulho para mudar o acesso das pessoas aos fundos de previdência.

Minha briga era para reduzir o valor das taxas de administração dos fundos, que tinham custos extorsivos. Juntei um dinheiro e, dois anos depois dessa reflexão, criei a Poupare para entrar na briga. Recebi de imediato apoio da seguradora Icatu, que disponibilizou um fundo com aporte mínimo de 100 reais. Depois disso, mais fundos começaram a zerar as taxas de administração e a reduzir o valor de aplicação inicial.

Hoje a Poupare é um aplicativo para que as pessoas aprendam a lidar com o próprio dinheiro e para que, caso desejem, apliquem em um fundo previdenciário. Eu nunca esperei uma adesão enorme ao fundo, porque eu sei que hoje a maioria do público da Poupare está endividado.

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A Poupare elegeu o fundo de previdência como caminho para fazer uma reserva financeira. Por quê?

Escolhi a previdência por dois motivos. Primeiro, porque era necessário brigar por taxas mais baixas. Segundo, porque o fundo previdenciário não precisa ser visto como algo para a aposentadoria, e, sim, como uma categoria de investimento com benefício fiscal e sucessório.

Não é que a pessoa só possa resgatar esses recursos na velhice. Ela pode usar o dinheiro ao longo da vida, desde que tenha um bom propósito. A questão é que quem ganha menos e tem pouco para poupar precisa de mais conhecimento para investir. É essencial que os mais pobres aprendam em quais aplicações é possível pagar menos impostos, onde o dinheiro rende mais e qual o investimento que casa com seus objetivos.


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Repórter especializada em finanças pessoais e investimentos, passou pelas redações de Veja, Folha de S. Paulo e 6 Minutos.


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