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Chegar ao 1º milhão? Guardar 6 meses de salário? O papo da Nath é outro

PUBLICADO EM: 24.2.21 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 25.2.21 | 13H49
Não deixar a dívida caducar e começar a poupar, mesmo que pouco, é a dica da educadora para a baixa renda
Nath Finanças

Cuidado ao emprestar dinheiro para amigos e com coachs financeiros charlatães que vendem altos rendimentos, alerta a influenciadora (LEO AVERSA)

Imagem da Editoria Exame Invest
Marília Almeida

Repórter de Invest marilia.almeida@exame.com



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A educadora financeira Nathália Rodrigues conhece bem os perrengues financeiros pelos quais passam famílias de baixa renda. Conhecida como Nath Finanças, ela nasceu em Nova Iguaçu, a 2h30 do centro da cidade do Rio de Janeiro. Quando entrou na faculdade (foi a primeira da família do seu pai a fazer um curso superior), começou a trabalhar vendendo cartões de loja. "Vi muita gente endividada, que queria fazer o cartão e já tinha quatro. Fiquei chocada."

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Durante o curso de administração, Rodrigues aprendeu matemática financeira e começou a pesquisar sobre como lidar melhor com o dinheiro. Encontrou uma linguagem pouco acessível, sem exemplos do dia a dia. "O papo já começava em como trilhar o primeiro milhão ou guardar seis meses de salário. Me sentia mal".

Então, Nath viu uma oportunidade de criar um conteúdo diferente para famílias mais pobres. Deu certo. A influenciadora tem hoje 225 mil seguidores no YouTube e lançou recentemente o seu primeiro livro, “Orçamento sem Falhas”, no qual dá dicas de como começar a trilhar um caminho saudável com o próprio dinheiro. O diferencial é a linguagem acessível, voltada tanto para jovens como adultos.

Veja abaixo a entrevista completa dada pela Nath Finanças para a EXAME Invest:

Conte um pouco sobre como foi o seu aprendizado financeiro. Quais foram os maiores erros que cometeu?

Eu já gastei muito com tarifas bancárias, porque não entendia que podia negociar, comparar. E, principalmente, por muito tempo caí na cilada de viver o momento, sem pensar no futuro. Até que comecei a questionar: e se eu viver até os 70 anos?

Alguém pode dizer: mas você pode morrer e não aproveitar o dinheiro. Mas pelo menos minha família vai aproveitar. Tem muitas famílias que quando um parente morre não conseguem nem pagar o enterro. Não quero isso. É necessário se preocupar sim.

Sempre tive em casa atenção em relação a compras desnecessárias, ainda que houvesse um tabu para falar sobre dinheiro.

Meu pai era pão-duro. Saia 4 horas da manhã para trabalhar e desligava o ar condicionado em casa. Fui ensinando que não adiantava ele economizar com isso e gastar em outras coisas mais desnecessárias. Há um limite para economizar.

Já com minha mãe aprendi a comprar coisas de qualidade. Cometia um erro ao comprar blusinhas de 10 reais que logo iam para o lixo. Ela me ensinou que às vezes vale mais a pena guardar dinheiro para comprar algo melhor.

A reserva de emergência mais comum do brasileiro é o FGTS e o seguro-desemprego. Seis meses de salário guardado parece surreal para a maioria. Qual a importância dela?

O problema quando se trata de reserva de emergência é achar de cara que precisa poupar seis meses de salário. Colocaram rótulos em algo que é subjetivo.

Eu comecei a fazer uma reserva para 15 dias, e só depois fui aumentando. Em cinco meses você pode conseguir montar a de 15 dias, e ter 1 mil reais para pagar uma conta não é pouco: faz a diferença no caso de um imprevisto.

Eu demorei três anos para criar a minha reserva de emergência de seis meses. Ganhava muito pouco, e ia economizando qualquer valor que sobrava.

Conclusão: o brasileiro não pode depender da rescisão. Precisa olhar para o futuro e começar a montar sua reserva aos poucos.

E essa prática recorrente do brasileiro de esperar a dívida caducar. Vale a pena?

As pessoas precisam entender que depois de cinco anos o nome apenas sai do Serasa e SPC. Se for tentar fazer um cartão, empréstimo ou financiamento novamente, não vai conseguir porque a dívida continua lá, pendente, e deixa o score baixo. Sem falar que uma empresa pode consultar seu CPF se você quiser investir ou guardar dinheiro. Então, ser um bom pagador é importante.

Tem dívida? Negocie sempre. Liga para o banco e diga o quanto pode pagar. Muita gente sente a pressão psicológica de e-mails, ligações e cartas recorrentes que acaba aceitando a proposta do banco ou pinta uma grana e quita a dívida inteira. Aí se ferra de novo ou fica anos pagando. Então mostre que conhece seus direitos.

O banco não quer deixar de receber o dinheiro. Fica mal para o seu balanço financeiro e sua reputação. Trabalhei com renegociação e tinha o aval para negociar sem juros. Havia até quem tinha dívida de 1 mil reais e pagava 900 reais, sem juros algum.

Estamos um passo atrás. No Brasil se fala sobre dinheiro há apenas alguns anos, normalizamos a conversa recentemente. Então alguém me pergunta qual o melhor investimento e eu já retruco: tem dívida? Se tiver, a prioridade é quitar, se organizar e só depois começa a aplicar aos poucos.

Você combate o coach financeiro charlatão. Qual alerta faz?

Com a necessidade recente de aprender mais sobre investimentos muitas pessoas passaram a ensinar sobre o tema, mas precisam se certificar para isso. Se alguém fala pra você que você vai investir na bolsa ou fazer day trade e ter rendimento de 10% em um dia ou semana, ou que vai ficar rico rápido apenas mudando o seu mindset, corre!

Existe quem faça day trade e ganhe dinheiro, mas estuda muito para isso. Nada é fácil nessa vida. Está todo mundo estudando. Demorei anos para investir na bolsa. Se não sentar e estudar, você vai perder dinheiro.

Ganância nunca é bom. Enriquecer acontece aos poucos e no longo prazo. Inclusive investir na bolsa deve ter como horizonte o longo prazo.

O sistema financeiro está inundado de expressões em inglês, de conteúdo sobre operações complexas. O que falta para as corretoras e bancos conseguirem chegar até as massas?

O primeiro livro que li sobre investimentos, o Tesouro Direto, parece ter sido feito em uma linguagem para que não seja entendido. Tinha de ficar com dicionários do lado. isso me causava muita frustração.

Até que comecei a ler educadores financeiros como o Eduardo Amuri, gente como a gente, que admiro, que fala sobre inflação usando como exemplos os supermercados.

Por que colocar sempre uma pessoa rica para ensinar? Muita gente se sente mais confortável com uma pessoa próxima. Muitos dos que me acompanham não sabiam o que era cheque especial, parcelamento de fatura. Então, precisa entender essa realidade.

O que o brasileiro precisa aprender sobre grana extra?

O pessoal da periferia sempre faz grana extra por necessidade. Estão sem dinheiro? Dão um jeito de abrir o próprio negócio. A questão é não romantizar isso. Falar que é guerreiro, ou comparar com quem não está fazendo. Cada um sabe da sua realidade, ritmo e tem de achar a melhor forma para si.

Além de vender cartões de loja trabalhei em estoque de uma empresa logística até que cheguei na área financeira. Meu canal de informações financeiras eu fazia de forma paralela, ao mesmo tempo em que fazia faculdade. Não foi fácil. E não pensei na renda: fazia porque gostava. Aí começou a dar renda, mas quase um ano depois. Então, está buscando grana extra? Busque o que gosta. Sabe bem inglês? Dê aula em plataforma online. Gosta de Excel? Venda planilhas.

Você costuma alertar sobre pessoas que vieram de baixo e perderam tudo. O que essas histórias ensinam?

Jogadores de futebol, cantores, rappers, ganhadores da loteria e até ex-BBBs, quando ganham muito dinheiro, não sabem o que fazer com ele. Aí confiam em investimentos indicados por amigos ou profissionais pouco confiáveis e acabam falindo.

Há também quem gaste a rodo com coisas que nunca teve, pois recebeu muitos nãos na vida. Há uma questão emocional que precisa ser trabalhada.

Mas um terceiro ponto é que muitos tentam ajudar a família inteira, e alguns parentes passam a pedir dinheiro sempre. E nem precisa ser milionário: basta ganhar um pouco mais para surgir gente pedindo ajuda. Mas as pessoas precisam entender que para que você dê frutos precisa construir seu caminho primeiro, se desenvolver. Que precisa fazer a sua própria reserva financeira para depois começar a ajudar.

Além disso às vezes quem pede é uma pessoa maravilhosa, mas não sabe administrar o dinheiro e vai sujar o seu nome. Então, minha dica é: se você verificar que a pessoa não conseguirá pagar a dívida, não empreste, a não ser que seja para comida ou remédio. Agora, se ela quiser fazer uma compra parcelada e precisar do seu cartão, não empreste. Eu prefiro não emprestar do que perder a amizade.

Alguns best sellers de finanças pessoais, como o Pai Rico Pai Pobre, sugerem que há uma mentalidade de rico e outra de pobre. Concorda?

Há uma culpabilização do pobre. Se você abre uma conta no banco e aparece uma tarifa indevida, o banco até pode reconhecer o erro, mas se for centavos te perguntam se precisam mesmo estornar. O pobre é colocado como mesquinho, alguém que não quer aprender a crescer. É culpado por um problema estrutural.

Se alguém ganha um salário mínimo a culpa é dele, nunca culpa da empresa que deve pagar um salário digno, da Justiça ou educação. E quando o pobre consegue crescer querem colocar como um grande exemplo e dizer aos outros: basta fazer igual. Não concordo com isso.

Se são poucos que chegam, tem algo errado não com as pessoas, mas o sistema. Eu, por exemplo, não estou sozinha. Entre influenciadores negros de baixa renda que falam sobre finanças tem a Grana Preta, a economista Gabriela, do No front. Então é apenas uma questão de quem ganha visibilidade, quem tem oportunidade.

Esses livros nunca vão contar essa realidade, e aí geram frustração. O fato é que não existe fórmula mágica para o sucesso, e muitas pessoas estão endividadas não por falta de educação financeira, mas porque perdeu renda mesmo.

 

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Marília Almeida

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