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Como investir em empresas sem precisar ir para a Bolsa

PUBLICADO EM: 13.6.12 | 7H12
Fundos de crédito privado são alternativa em época de juros baixos e Bolsa difícil - mas será que valem mesmo a pena?
Bradesco

Papéis de grandes bancos como o Bradesco estão na carteira de fundos mais conservadores

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São Paulo – A Bolsa não é o único canal para quem quer investir em empresas. Quem for mais avesso ao mercado acionário – que por ora passa por momentos difíceis – mas principalmente quem quiser manter uma boa rentabilidade em época de juro baixo provavelmente terá que se voltar para a renda fixa privada: papéis de dívidas de empresas, que podem ser acessados diretamente ou mais facilmente por meio de fundos específicos para este fim.

“O crédito privado é o caminho natural para qualquer investidor que queira mais rentabilidade. Se os juros brasileiros se mantiverem baixos, os investidores terão que acessar mais risco”, diz o professor William Eid Jr., coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP. “Até fundos conservadores, como os fundos DI, já investem em renda fixa privada. Normalmente são debêntures e CDBs, numa proporção de até 20% do patrimônio do fundo. Já faz tempo que se fala na necessidade de ter outros ativos em carteira, uma vez que o crescimento da dívida pública é limitado”, completa o professor.

Mas se até os fundos mais conservadores investem em papéis de dívidas de empresas, existem fundos que aplicam primordialmente nesse tipo de ativo e que já são abertos para investidores pessoas físicas em geral. Esses fundos, classificados como Renda Fixa Crédito Livre, podem manter mais de 20% de seu portfólio em papéis de crédito privado, inclusive de médio e alto risco, podendo ser usados, em alguns casos, operações com derivativos e alavancagem (endividamento para multiplicar os ganhos, mas que também pode aumentar as perdas).

Esses fundos aplicam, portanto, em papéis como Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), Recibos de Depósitos Bancários (RDBs), Letras Financeiras (LFs) e Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs), que são títulos de dívidas de bancos; e principalmente em debêntures, títulos de dívida de empresas. Alguns investem ainda em cotas de Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs), que aplicam em recebíveis como notas promissórias, duplicatas, cheques e carteiras de financiamentos de toda sorte – de projetos de infraestrutura a crédito consignado e de veículos para pessoas físicas.

Risco é mais alto - mas nem tanto

Devido a essa gama de ativos com graus de risco diferentes, o nível de risco de um fundo de crédito privado pode variar, podendo o investimento ser mais ou menos conservador. “Uma empresa de primeira linha emite debêntures com uma rentabilidade máxima na faixa de 115%, 120% do CDI. Se um fundo render mais do que isso, já é bem arriscado. Pelo histórico de aplicações do fundo já dá para ter uma ideia se o risco é mais alto ou mais baixo”, diz o especialista em fundos Bolivar Godinho, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA).

Há quem acredite que o risco de calote presente nos títulos e fundos de crédito privado seja, em tese, maior que o risco de volatilidade da renda variável. Isso porque, na renda variável, você pode perder apenas uma parte do capital, enquanto que na renda fixa, se a empresa não pagar a dívida, o investidor ficará a ver navios. A menos, é claro, que o papel seja garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que estabelece limites financeiros para suas garantias.


Na opinião do professor William Eid, porém, o risco dos fundos de crédito privado é, na realidade, bem baixo. “Temos poucos dados disponíveis sobre defaults de debêntures no Brasil. Mas pelo levantamento que iniciamos com essas informações percebemos que problemas com esse tipo de papel são raros. No máximo a empresa atrasa um pouco o pagamento”, diz o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP.

Mas se para Eid os fundos de crédito privado são indicados para qualquer tipo de investidor, o professor Bolivar Godinho lembra que é preciso ter alguma tolerância a risco e conhecimento de mercado para se dedicar um pouco a conhecer as carteiras dos fundos antes de escolher um com seu perfil. E, sobretudo, se lembrar de que a liquidez, nesses fundos, pode ser um problema.

“O gestor precisa ter caixa em títulos públicos, pois é daí que vem a liquidez para um eventual resgate. No prospecto está designado o prazo de recebimento do dinheiro após o pedido de resgate”, diz Godinho. Existem fundos que permitem o resgate no dia seguinte ao pedido; outros, porém, podem levar mais de um mês para fazê-lo.

Rentabilidade ainda deixa a desejar

Apesar do potencial para evitar que se perca tanta rentabilidade em cenário de juros mais baixos, os fundos de crédito privado ainda são, ao menos na média, bastante conservadores. A rentabilidade média desse tipo de fundo em 2012 está bastante próxima à dos fundos DI e dos fundos de renda fixa conservadora, em cerca de 4,5%, contra 4,0% do CDI (até 6 de junho de 2012). Mesmo nos últimos 12 meses, a rentabilidade das três categorias de fundos é semelhante.

A rentabilidade acumulada em torno de 4,0% em 2012 – que equivale a 105% do CDI atualmente – é um sinal de que os fundos de crédito privado brasileiros ainda são bem conservadores. Ou seja, quem quiser superar com folga o CDI – e isso vale tanto para o investidor quanto para o gestor que quiser atrair cotistas – vai ter que buscar um risco um pouco maior mesmo.

E isso significa não apenas buscar papéis de nível de risco mais alto como também ativos com menor liquidez. Fundos conservadores têm liquidez quase imediata. “Se o fundo só investir em debêntures de empresas como a Petrobras, por exemplo, seu ganho será ridículo em relação aos títulos do governo”, lembra o professor William Eid Jr.

As debêntures de empresas de primeira linha, que geralmente remuneram um percentual do DI, costumam pagar um prêmio modesto sobre o CDI. O Índice de Debêntures Anbima (IDA) de maio, referente a esse tipo de debênture, teve elevação de apenas 4,45%, apresentando um prêmio apenas um pouco superior ao CDI, que fechou o mês a 3,89%. Em 12 meses, o IDA-DI conseguiu apresentar rentabilidade de 12,41%, contra 11% do CDI. Já as debêntures que remuneram pelo IPCA pagaram 8,70% no ano e 20,78% em 12 meses.


Diversificação é vantagem

Mas será que para conseguir apenas 105% do CDI não compensa mais investir, por um ano, um CDB de banco médio, no valor máximo de 70.000 reais garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC)? Provavelmente sim. A diferença, que confere ainda mais segurança ao investidor, é que o fundo, além da gestão profissional, conta com uma carteira diversificada, o que dilui bastante o risco e permite ao investidor fazer aportes maiores. “O fundo só pode aplicar até 10% de seu patrimônio líquido em empresas de capital aberto e até 5% em empresas de capital fechado”, lembra Bolívar Godinho.

Como escolher um bom fundo

Na opinião do professor William Eid, da FGV, hoje ainda é difícil determinar uma forma de escolher um bom fundo de crédito privado, uma vez que não há um longo histórico de informações disponíveis para análise. Já o professor Bolívar Godinho orienta a olhar, além do histórico de rentabilidade, a composição da carteira no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), para conhecer os papéis. Esses papéis têm classificações de risco – os ratings – que podem dizer muito sobre o nível de risco da carteira.

O investidor também pode comparar o Índice de Sharpe informado nas lâminas dos fundos que lhe interessam, para saber se a relação risco-retorno compensa – quanto maior o índice, melhor. Outro critério para escolher um bom gestor é verificar se a gestora aprova os novos investimentos em comitê, se tem área de pesquisa e se faz a sua própria classificação de risco, por exemplo.

É o caso dos fundos SulAmérica Excellence e Rio Bravo Crédito Privado, que fazem sua própria análise e classificação de risco das empresas em que investem, além de apenas aprovarem as decisões de investimento por comitê. Ambos se consideram fundos conservadores, que só investem em papéis de primeira linha, mantendo por volta de 35% da carteira em títulos públicos. A rentabilidade dos dois alcançou 105% do CDI no ano.

“Não seguimos meramente o rating dos papéis, mas fazemos uma análise própria, considerando o balanço, discutindo com a empresa, estudando profundamente sua perspectiva de crescimento e endividamento”, diz Marcelo Mello, vice-presidente de investimentos da SulAmérica. Seu fundo, atualmente, investe em papéis como debêntures da Oi, DPGEs dentro do limite de garantia do FGC e papéis de bancos como Bradesco, HSBC e Itaú. Desde seu início, em 2002, o fundo da SulAmérica rendeu 262,70%, contra 253,82% do CDI, tendo superado o índice em todos os meses.

Já o fundo da Rio Bravo investe basicamente em debêntures de empresas com grau de investimento – como Multiplan, Brasil Telecom e SulAmérica – e concessionárias de serviços públicos – como Sabesp, Ampla e Autovias. Há ainda investimento em algumas operações compromissadas de arrendamento mercantil e FIDCs, como um da BV Financeira e um da Cedae. A parcela investida em papéis bancários é bastante reduzida, em parte pelos baixos prêmios pagos por prazos longos (caso dos CDBs), e em parte pela crise desencadeada pelo Banco PanAmericano (caso das carteiras de crédito).

Fundos baratos

O tíquete de entrada em fundos como os da SulAmérica e da Rio Bravo não é tão baixo. No primeiro, a aplicação inicial é de 25.000 reais e, no segundo, de 10.000 reais. “Se entrar em um fundo com tíquete mais barato, a taxa de administração vai pesar mais. Cabe ao investidor juntar um pouco de dinheiro para ir para um produto mais sofisticado”, diz o professor William Eid.

Para ele, a taxa máxima de administração para esse tipo de fundo deve ficar em torno de 1% ao ano. Uma vantagem dessa modalidade em relação aos fundos DI é que já são comuns os fundos de taxas bem baixas. O da SulAmérica cobra 0,5% ao ano, e o da Rio Bravo, 0,45% ao ano. 

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