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Open banking vai transformar competição pelo cliente, diz especialista

PUBLICADO EM: 28.10.20 | 6H00
ATUALIZAÇÃO: 11.11.20 | 17H37
Mariana Cunha, diretora da Quanto, afirma que sistema de compartilhamento de dados vai gerar pressão competitiva sobre custos e qualidade dos serviços
Mariana Cunha e Melo, diretora de Políticas Públicas da Quanto, empresa dedicada a serviços do open banking

Foto de Marcelo Sakate da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Marcelo Sakate

Editor da EXAME Invest, jornalista com MBA em Mercado de Capitais e passagens por Folha de S. Paulo, Veja, 6 Minutos (C6 Bank) e CNN Brasil | marcelo.sakate@exame.com



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O início da vigência do open banking no Brasil de maneira formal, a partir do próximo dia 30 de novembro, vai abrir espaço para que empresas de fora do setor financeiro passem a disputar clientes com bancos e fintechs. É o que afirma Mariana Cunha e Melo, diretora de Políticas Públicas e Estratégia da Quanto, uma empresa dedicada a explorar os serviços do open banking. Aprenda a investir em moedas virtuais! Entenda como no curso completo da EXAME Academy.

Open banking é o nome dado para o sistema de compartilhamento de dados financeiros e bancários dos usuários, que podem levá-lo para as instituições que quiserem em busca de melhores condições de produtos e serviços. No Brasil, a regulação prevê a adoção de uma linguagem universal para os dados que reduza custos e facilite a troca de informações entre bancos, fintechs e outras empresas.

"O usuário poderá escolher o serviço que ele quiser na interface que ele preferir", afirma Cunha e Melo, em sua primeira entrevista no cargo. Especialista em direito e regulação da internet, ela trabalhava anteriormente no Nubank, onde era gerente de Políticas Públicas e liderava as áreas de open banking e PIX do maior banco digital do país.

Ao longo dos últimos anos, Cunha e Melo participou do desenvolvimento da regulação adotada pelo Banco Central tanto para o PIX como do open banking.

"Haverá uma pressão competitiva nos elementos de forma independente: para oferecer o melhor serviço, o melhor preço e o melhor atendimento ao cliente. E para oferecer a melhor experiência para o usuário, a plataforma com a melhor interface", afirma a advogada, que será uma das convidadas para o painel sobre open banking na próxima quinta-feira, 29, às 19h, no Future of Money (assista aqui). É o maior evento da América Latina para discutir o impacto da tecnologia no setor financeiro, com promoção da EXAME.

Leia a seguir trechos da entrevista concedida à EXAME:

O que o cliente que é pessoa física pode esperar de efeitos do open banking?

Uma das coisas mais transformadoras do open banking é ele permitir o acesso aos serviços no ponto de necessidade do cliente. O cliente não precisa acessar o aplicativo do seu banco para acessar os serviços financeiros. O acesso poderá ser feito por múltiplas plataformas. Se está no carrinho de compras de um e-commerce, conseguirá acessar o serviço de crédito do seu banco dali. E poderá fazer uma transferência de dinheiro da sua conta sem sair do site – é uma revolução na distribuição dos serviços. Você cinde a competição.

O serviço financeiro deixa de ficar acoplado com a interface. O usuário poderá escolher o serviço que quiser na interface que quiser. Há uma pressão competitiva nos elementos de forma independente: para oferecer o melhor serviço, o melhor preço, o melhor atendimento ao cliente. E para oferecer a melhor experiência para o usuário, a plataforma com a melhor interface. E por aí vai.

Se hoje o cliente tem que contratar um pacote fechado que inclui o serviço e a visualização desse serviço, com o open banking se torna possível escolher o serviço que melhor te atenda na plataforma que proporcione a melhor experiência.

Em quanto tempo essa expectativa elevada poderá ser correspondida?

O open banking ainda está em estágio inicial no Brasil. É importante ter em mente que o open banking é como uma infraestrutura, uma camada que permite que o mercado explore e produza valor. O quanto isso vai se refletir para as empresas e para o consumidor final vai depender de como as empresas efetivamente vão buscar formas de aproveitar as oportunidades. Uma vez que o open banking regulado esteja efetivamente no ar haverá uma expansão ainda maior, o que não quer dizer que o mercado não esteja se preparando.

O Banco Central publicou em maio uma regulação que estabelece, em linhas gerais, uma moldura e alguns direcionamentos sobre tecnologia e outros temas. E passou para o mercado, para autorregulação, a definição do como fazer.

(EXAME Research/Exame)

Afinal, como vai funcionar o open banking no país?

O grande fundamento por trás do open banking é a ideia de que o cliente é o titular e dono dos seus dados. Ele pode levar os seus dados para a instituição que oferecer os serviços que achar mais vantajosos. Com base nessa ideia central, o que existe já no mercado brasileiro, europeu e americano é tecnologia para acessar os dados desse cliente por meio das conexões que as instituições já têm construídas. O open banking vai obrigá-las a abrir interfaces dedicadas só para receber requisições de outras instituições.

Mas isso já não acontece atualmente?

A tecnologia que o Banco Central está desenvolvendo junto com o mercado para colocar o open banking regulado no ar é uma tecnologia de padronização das comunicações. É a definição de uma linguagem única para que as instituições conversem entre si.

Acessar os dados de cada uma dessas instituições envolve um custo relativamente alto de desenvolvimento. Padronizar essas interfaces, para que todo mundo fale a mesma língua, torna mais fácil o acesso dessas instituições. Essa é uma das razões pelas quais o open banking traz uma redução do custo da inovação.

E quais os impactos que podem ser esperados com o PIX (o sistema instantâneo de transferências e pagamentos do Banco Central, que entra em operação em 16 de novembro)?

Tanto o PIX como o open banking trazem para o mercado algo novo, que é um elemento anti-fragmentação. O PIX consegue conectar todos os provedores de conta no Brasil. Isso significa que uma instituição consegue oferecer serviços de pagamento ou serviços inovadores mesmo se não controlar as duas pontas da relação de pagamento.

No modelo sem o PIX, se uma empresa cria um modelo de pagamento, tem que criar uma rede enorme entre as pessoas que querem pagar e as que querem receber pelo sistema. Isso significa uma dificuldade enorme para uma empresa aparecer com novos produtos.

E o PIX quebra isso: mesmo se você estiver em apenas uma ponta, consegue atingir quem quer que seja, mesmo que esse receptor não seja o seu cliente. É uma mudança conceitual tão dramática que permite uma revolução no mercado de pagamentos.

(EXAME Academy/Exame)

As instituições financeiras e empresas de outros setores estão preparados para tomar proveito desse mercado potencial?

Com o open banking, passa a existir uma possibilidade muito mais ampla de distribuição de produtos para bancos e fintechs. Hoje o canal de distribuição pode ser um limitador. O open banking abre oportunidades para o maior dos bancos e a menor das fintechs. E é aí que entra uma empresa como a Quanto, que busca catalisar esse processo e ajudar as empresas a identificar onde está o efetivo potencial do open banking, seja para os grandes bancos ou as pequenas fintechs.

Quais são as lições que podem ser tiradas da experiência internacional para ampliar os efeitos do open banking no Brasil?

A lição mais importante que podemos extrair é sobre a importância de acertar a experiência do usuário, para haver uma jornada que tenha o mínimo de fricção possível. No Reino Unido, essa jornada era um pouco árdua no início e isso acabou desacelerando o desenvolvimento. Depois isso foi mudado para facilitar o acesso a dados por um terceiro e, com isso, se viabilizou o avanço no open banking.

 

Foto de Marcelo Sakate da Editoria Exame Invest que escreveu o artigo
Marcelo Sakate

Editor da EXAME Invest, jornalista com MBA em Mercado de Capitais e passagens por Folha de S. Paulo, Veja, 6 Minutos (C6 Bank) e CNN Brasil | marcelo.sakate@exame.com


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