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Pare de perguntar qual o impacto da alta da Selic nos seus investimentos

PUBLICADO EM: 5.8.21 | 6H45
ATUALIZAÇÃO: 4.8.21 | 23H36
Toda movimentação da taxa de juros é relevante, mas nem toda informação é essencial para investir
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Banco Central eleva a taxa Selic para 5,25% ao ano: é preciso mexer na carteira de ativos? | Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

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Juliana Machado*



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Uma das coisas que os investidores mais se perguntam sempre que o Banco Central anuncia a nova Selic é de que forma a decisão afeta os seus investimentos. Nenhum problema quanto a isso, é uma pergunta válida, de sorte que os jornalistas – nós, no caso, porque sou jornalista de formação, embora analista certificada por escolha – fazem várias matérias falando sobre as oportunidades geradas com o novo juro.

A questão é que, do ponto de vista de quem investe, nem toda informação ou decisão é importante ou essencial. E mexer em uma carteira de investimentos por consequência de mudanças anunciadas pontualmente por um ou outro ente pode ser um sinal de falta de estratégia ou do famigerado FOMO, fear of missing out, ou medo de ficar de fora – neste caso, querer participar da onda e fazer alguma coisa porque todo mundo parece estar fazendo alguma coisa.

A alta de Selic em 1 ponto percentual anunciada pelo BC ontem, para 5,25% ao ano, e a contratação de mais 1 ponto de alta na próxima reunião da autoridade motivam muita gente a imaginar que é a hora e a vez da renda fixa. Tem um fundo de verdade nisso por causa de dois efeitos da alta do juro, mas também tem um problema.

Efeito 1: o aumento da taxa básica vai influenciar o chamado carrego dos fundos e produtos indexados ao CDI ou que têm a rentabilidade atreladas a ele, caso de boa parte dos produtos de crédito privado. A matemática do carrego é simples: Selic maior é rendimento maior. Sem segredo aqui.

Efeito 2: diz respeito à qualidade de crédito de empresas e bancos. No segmento chamado de high grade, onde estão os bons pagadores e os títulos de dívida de melhor qualidade, o prêmio de risco estava muito elevado. O prêmio corresponde ao excesso que o título paga em relação a um referencial do mercado – no caso, o CDI – e ele tende a ser maior quanto mais risco o título apresenta.

Logo, para o segmento high grade, esse prêmio estava elevado não porque a qualidade do crédito piorou mas porque a Selic estava muito baixa. Com o aumento dela, o prêmio dos títulos de dívida diminui – e na lógica desse instrumento, se a taxa de prêmio cai, o preço do título sobe. Bingo para quem tem o título na carteira (ou fundos que os compram).

E o problema: o investidor já deveria ter ativos dessa natureza na carteira há muito tempo porque todo investidor que se preze tem um portfólio diversificado, que consiste não em ter um número grande de ativos mas sim produtos descorrelacionados entre si, cuja fonte de risco e lucro seja diferente.

Um investidor precisa ter, portanto, uma reserva de emergência separada em produtos de baixíssimo risco e custos, além de produtos de crédito privado atrelados ao CDI e ao IPCA, fundos multimercado macro, fundos de ações e/ou ações diretamente, dólar, ouro e produtos internacionais. O que vai mudar de investidor para investidor é a concentração de patrimônio em cada uma dessas caixas.

Existem diversas estratégias para ganhar dinheiro no mercado, mas a maioria dos investidores não dispõe de ferramentas e tempo hábil para ficar na frente de uma tela, tentando enxergar assimetrias antes de todos os outros participantes, em vários ativos e mercados, de forma que sobreviver exige diversificação e longo prazo. Não tem atalho.

Muita gente diz que não tem recursos suficientes para arcar com tudo isso de uma vez. É verdade. Por isso, sempre montamos uma carteira aos poucos, de acordo com o nosso perfil para investimentos. Um conservador vai começar pela reserva de emergência e depois vai para produtos de crédito privado para só lá na frente colocar o primeiro 1% dos recursos em ações.

Um perfil agressivo ou sofisticado terá a reserva de emergência e talvez já queira aproveitar fundos de ações consagrados para então ir acrescentando crédito privado, multimercados e inflação no portfólio. Mas o norte, em quaisquer casos, é apenas um e ele é indiferente ao que vai acontecer no Brasil daqui a um mês, seis meses ou um ano.

Não dá para prever o futuro nem controlar o retorno. Investir é sobre controlar o risco de acordo com nosso perfil e objetivo financeiro – e controlar o risco é exatamente o que fazemos ao elaborar uma carteira de investimentos.

É evidente que, no mercado, existem as estratégias táticas, que consistem em ajustar as carteiras ao sabor do que vai acontecendo de relevante no universo de investimentos de cada participante do mercado. Mas aqui entramos em uma seara bastante subjetiva, que não se confunde (ou não deveria, pelo menos) com ter que fazer algo. Para quem investe via fundos, então, menos ainda, já que você delegou a um profissional a tarefa de seleção de ativos (a razão pela qual esse é o investimento da minha vida).

Por esse motivo, da próxima vez que você abrir uma reportagem ou comentário a respeito do que fazer depois de um determinado evento, leia pensando se aquilo realmente diz respeito a você. Se sim, cuide da sua carteira para que não seja sobre você na próxima vez.

*Juliana Machado é analista CNPI e integra o time de análise de fundos de investimento do BTG Pactual digital. É jornalista formada pelo Mackenzie, com pós-graduação em economia brasileira pela Fipe-USP. Atuou com análise e seleção de fundos de investimento na EXAME e escreveu por quatro anos para o Valor Econômico, nas áreas de governança corporativa e bolsa de valores. Escreve para a EXAME Invest quinzenalmente.

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